quarta-feira, janeiro 17, 2007

Eolo, o deus dos ventos


«Que c’est triste Venise

au temps des amours mortes

Que c’est triste Venise

quand on ne s’aime plus

On cherche encore des mots

mais l’ennnui les emporte

On voudrait bien pleurer

mais on ne le peut plus…»

Charles Aznavour


Os dias pardacentos destes invernos sem chuva têm no meu espírito um efeito devastador. São o reflexo de mim, e eu preciso continuamente do fulgor dum farol para me manter longe da costa, já que o meu caminho é o mar alto. O mar alto e com vagas, sob um céu estrelado ou sol brilhante, causam-me menos receio que a água plana num banco de nevoeiro.

Em viagem, olho a montanha engalanada e lembro os moinhos da infância, de velas pregadas com um punaise na extremidade de uma cana de bambu. Agora corro ainda, mas na estrada de asfalto, e as velas que vejo rodam, rodam devagar, porque, como eu, já não têm pressa.

São belas porque giram e giram e cantam ao vento. Os seus corpos, altaneiros, do alto da serra olham a paisagem longe, sopram segredos no vale, aspiram os odores da fruta olorosa dos campos, choram o esventrar da terra nas pedreiras claras a ferir a serrania.

Por companheiros humildes a urze e a esteva, o carrasco e o pilriteiro, o rosmaninho e o alecrim.

E a gralha de bico vermelho.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Poema do Futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,

medito o meu destino.


No declive do tempo os anos correm,

deslizam como a água, até que um dia

um possível leitor pega num livro

e lê,

lê displicentemente,

por mero acaso, sem saber porquê.

Lê e sorri.

Sorri da construção do verso que destoa

no seu diferente ouvido;

sorri dos termos que o poeta usou

onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;

e sorri, quase ri, do íntimo sentido,

do latejar antigo

daquele corpo imóvel, exumado

da vala do poema.


Na História Natural dos sentimentos

tudo se transformou.

O amor tem outras falas,

a dor outras arestas,

a esperança outros disfarces, a raiva outros esgares.


Estendido sobre a página, exposto e descoberto,

exemplar curioso de um mundo ultrapassado, é tudo quanto fica,

é tudo quanto resta

de um ser que entre outros seres,

vagueou sobre a Terra.

António Gedeão


quinta-feira, janeiro 11, 2007

Caça

«Quem de nós falará aos homens que hão-de vir

quando o grande clarão encher de luz

e pasmo as nossas bocas?

E como?

Que língua entenderão eles?

Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,

lhes falarão de nós,

desta fluida e versátil multidão

destes seres que aparentam rosto humano

e como tal comovem,

mas que olhados do alto são lepra do planeta...»

António Gedeão


































A caça fez parte da minha vida. Sempre.

Sem escolha, nasci naquele país longínquo, naqueles tempos longínquos da 2ª Grande Guerra.

Quando dei fé de mim, quatro, cinco anos, onde posso situar uma ou outra lembrança, a caça está presente. Nas fotografias resgatadas à descolonização, mal posso saber como, tenho registos da minha alta infância; porém não possuo, dos meus filhos, mais do que aquilo que pude aqui recuperar da família para quem enviava uma ou outra foto. Perdi, como tudo o resto, esses documentos preciosos.

Mas, dizia eu, a caça está presente, eu estou presente entre a caça. Caça era uma palavra que me fazia vibrar, porque representava sempre excitação, alegria, amigos, conversa, comunicação, enfim. Os amigos da casa caçadores eram sempre os mais divertidos, deixavam as crianças participar nas conversas, contavam histórias entre gargalhadas – parece que há um provérbio que assegura que um dos momentos em que os homens mais mentem é após uma caçada... – novos e velhos tinham peripécias que escorriam pelas noites mornas, alongando os serões.

Das caçadas com os amigos resultavam sempre almoçaradas de bifes de lombinho grelhados com gindungo, acompanhados de enormes e suculentos cogumelos (kema eram os melhores e trazidos também pelos caçadores no início da época das chuvas, ali por Setembro…), arroz de pato no forno, perdiz estufada com ervilhas e ovos de pomba escalfados, pernas de nunce ou chissóvio assados também no forno enorme de lenha.

A preparação das grandes caçadas anuais era sempre rodeada dum ritual que me encantava. A ida ao Sul de Angola, para a espera aos elefantes, determinava o planeamento cuidadoso dos oito dias normais de estadia. Os companheiros habituais eram o meu pai, meu tio Kamenino, o tio Albino da Cangonja, e o nosso comum primo Mim, que baptizou o «cesto mágico» de meu pai. E a este propósito havia sempre, no regresso, estórias divertidas para contar, entre gestos e gargalhadas que nunca vou esquecer. Era um pequeno cesto de verga, que meu pai conservava longe dos olhares, e do qual, nos últimos dias, quando os mantimentos comuns escasseavam em qualidade, surgiam acepipes inesperados, pois meu pai reservava um cuidado especial na composição do seu conteúdo. Não faltava aí o bom presunto, queijo da serra, umas garrafas de vinho e uns enlatados especiais. Era ainda tempo de limpar muito bem a sua espingarda, uma 10-75, arma de bala especial que apenas era usada nessa altura, passando o resto do ano embrulhada em massa lubrificante. As caçadas nos terrenos da fazenda, já tive oportunidade de as referir aqui, eram precedidas de longas conversas ao fim de tarde, frente à casa; longos conciliábulos entre meu pai e os sobas para decidirem, com a aprovação de todos os presentes, em círculo, do melhor dia para o gebo, a melhor oportunidade para o início da queimada.

Espingardas, convivi com elas desde a infância. Estavam sempre descarregadas, mas sabia que não podia pegar nelas sem ser na presença de meu pai. Uma vez única experimentei a caçadeira em que peguei vezes sem conta, a 22 LONGO que ficou depois para meu irmão; tinha dois canos, um ao lado do outro. A de meu pai tinha os dois canos sobrepostos, era linda, a coronha tinha uma protecção na ponta, a culatra era toda gravada com figuras de patos num lago cheio de canas, a argola em volta do gatilho também. A limpeza dos canos era obrigatória à chegada da caça e constava de um serviço meticuloso: havia um estojo com umas peças longas e finas de metal amarelo que enroscavam umas nas outras para dar o comprimento necessário, na ponta duas peças do tamanho de cartuchos alternavam, uma para limpar como que raspando os canos, e finalmente uma outra para limpar o pó.

Todas as armas de caça e pistolas que havia na casa de meu pai, foram entregues, já nos anos 70, a um dos três movimentos (ditos) de libertação que conviviam na terra já devassada pela guerra, à FNLA, que ocupou a casa onde cresci em Nova Lisboa, na altura desabitada largos dias porque minha mãe, viúva, passava longas semanas na fazenda.

Esta parte não quero lembrar.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Nevoeiro


Tu que crês num mundo melhor e maior,

Grita bem alto que o céu está aqui.

Tu que vês irmãos, só irmãos em redor,

Crê que esse mundo começa por ti.


Luís Góis




Corro a cortina e o nevoeiro permanece.

Para além do nevoeiro, miríades de imagens se sobrepõem e não consigo afastar. O sol que vejo queima a terra vermelha dos mutilados da guerra, dos sobreviventes da sede, do calor húmido e pestilento duma terra injusta porque liderada por homens insanos.

Eu nasci em África, num lugar menos quente, menos árido, bem mais acima do mar, bem mais fecundo, de montanhas e vales traçados por rios que lavam ainda o sangue dos mortos e espalham ferrugem nas minas deixadas pela guerra. Meu pai foi aí um colonizador, nunca lhe chamaria um colonialista, com toda a carga negativa adstrita. Foi um homem probo. Não tocou na herança que seus pais lhe deixaram quando abalou para África em 1920, depois de cumprido o serviço militar, nem para aqui trouxe rigorosamente nada do que Angola lhe deu. Os seus restos mortais repousam algures, como sei que gostaria, na terra que ele amou como sua.

Eu regressei em 75 porque tinha dois filhos e o meu mundo eram eles. Nunca me arrependi da decisão tomada em horas difíceis, quando homens armados de movimentos de libertação saltavam os muros do meu quintal e no ar zumbiam morteiros que só me tiravam a angústia quando explodiam longe da casa onde os meus filhos brincavam debaixo das camas. Egoísmo? O que quiserem que seja. Foram três dias de inferno num Agosto inesquecível que me escuso a recordar, para além da imagem de dois homens em casa, a cortarem em três cada um dos cigarros que restavam porque era impensável sair à rua.

A minha infância foi um sonho bom, a minha adolescência bem mais real. Pardacenta. Reservada. Restringida. Lembro a proximidade de minha família com os Dáskalos. Recordo amizades de uma vida, minha Mãe e a Baronesa, sem filhos, mas sofrendo pelos irmãos, pelos sobrinhos queridos. O sofrimento, a saga de uma família que apostou tudo numa terra que tudo lhes tirou. Desde menina me recordo de ouvir falar no Zé, no Luís, estudantes já universitários, presos e humilhados pela PIDE, seu tio Sócrates, refugiado em Argel, depois o David, que ofereceu a Angola a sua vida de médico, a quem retalharam o corpo bem depois da independência. E Zaida, a Zaidinha, a mestra por excelência de várias gerações, do velho Colégio Ateniense, que foi a última a regressar, octogenária perseguida. Não sei se ainda está neste momento em Luanda a Maria Alexandre, mas creio que não. Todos dedicados à cultura, à pedagogia, à ciência, ao ideal de uma terra imensa de corpo multicolorido e alma enérgica, grande elefante conduzindo a manada de todas as tribos, todas as línguas, todas as religiões. Com segurança e prosperidade.

Ontem como hoje, o meu mundo é aqui. Não sei se muito melhor, mas decididamente menos perigoso e um pouco mais justo. O preço do crude desceu e os combustíveis aumentam para todos, a Santa Casa da Misericórdia não tem o necessário para acudir aos que precisam, mas tem o suficiente para promover o Dakar de que a França desistiu e a Espanha abandonou. Mas aqui - como na escola - só é preciso que o povo se sinta feliz. E o povo continua a jogar no euromilhões e a ir em peregrinação a Fátima para deixar o óbolo à Igreja, para ela erigir mais monumentos, para arrecadar os milhões de que se orgulha, mas com que não ajuda os pobres. «Quem dá aos pobres empresta a Deus». A Igreja é Deus, não precisa de emprestar-Lhe nada.

Eu não sou deus, nem sou pobre. Sou apenas povo e não frequento a igreja. Nunca dei um quilo de arroz para ajudar os meus Irmãos em Angola. Nem tenciono. Devo ser egoísta.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Boas Festas de Québec







Parece ter sido num dia distante de Julho de 1534, que o explorador francês Jacques Cartier entrou, pela primeira vez, no golfo de St. Lawrent, subindo depois o rio de Saint-Laurent, como é ainda hoje designado pelos habitantes da província do Québec, que continuam de expressão francesa num Canadá maioritariamente anglófono. Cartier procurou nele ouro e diamantes, além de pensar que o rio o levaria ao caminho marítimo para a China e Índia. Não encontrou uma coisa nem outra.

Foi Cartier quem deu à nova terra descoberta o nome de Canadá, partindo da designação que os nativos davam àquele lugar, «Kanata», e com quem se limitaram a negociar, nos primeiros anos, as peles dos animais que ali havia em abundância. Foi porém Samuel de Champlain, no início de 1600, quem construiu as primeiras habitações de madeira, local a que os índios logo chamaram Québec. A cidade de Québec é a capital da província com o mesmo nome, parte integrante do Canadá, embora com um número significativo da sua população a pretender uma autonomia mais concretizada.

É uma cidade moderna que preserva fortemente as suas raízes europeias, onde podemos encontrar ainda edifícios e igrejas belíssimas dos séculos XVII e XVIII.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Bom Ano!

«Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me vêem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé de uma janela aberta

Uma cadeira predilecta

Onde se sentem, lendo os meus versos…»

Fernando Pessoa






Bom ano 2007!

Ontem uma estimada amiga enviou-me um daqueles documentos PPs que circulam por aqui, nem sempre de bom gosto, num português nem sempre bom, com aquele final respectivo de promessas de sorte e amor. Para ler e descartar quase sempre. Guardo porém alguns, pela beleza, pela graça das imagens, pela música, pela poesia. O de ontem já não consta; as imagens desfocadas e nada de nosso na escrita. Mas da mensagem ficou-me o leve sopro que aqui deixo e me parece acertado para recomeçar.

Contava a história de um mendigo que havia colocado a seu lado um cartaz dizendo que era importante e bonito, que tinha uma vida de sucesso e bem estar, e referia os bens materiais que lhe proporcionavam saúde e felicidade. As pessoas passavam, sorriam, algumas deixavam uns trocos. Um dia, um indivíduo achou-o criativo, ofereceu-lhe um emprego na sua empresa, a partir dessa altura a vida sorriu-lhe.

Anos mais tarde, contando numa entrevista o seu percurso de vida, a sua interlocutora perguntou-lhe a razão daquele cartaz. Ele respondeu que, durante muito tempo, tinha mostrado a miséria e infelicidade em que vivia e ninguém lhe prestara atenção. À consideração irónica de que uma simples placa lhe teria mudado a vida, retrucou:

- Ah, não! Antes disso, eu próprio tive de acreditar no que lá estava escrito!

Parece-me claro que temos de lutar contra a nossa depressão comum, esse cão que fila e não larga. Temos de começar o ano com a esperança em dias melhores, acreditar que o pão já não vai aumentar 20% em 2008, que os combustíveis e a prestação da casa vão descer um pouquinho. Que o desemprego vai acabar na União Europeia, porque África vai deixar de ser governada por ditadores sem escrúpulos e os povos vão saber tirar proveito das riquezas dos seus países e dar oportunidades de emprego a todos os que debandaram. Que o Mais Velho continente vai saber dar a mão a outros povos de outros credos e vai saber ensinar que, afinal, Abraão foi o Mais Velho de todos os Muçulmanos, Cristãos e Judeus. Que as decisões de Quioto vão finalmente ser acatadas por todas as grandes potências económicas.

O nosso mundo é bonito e diverso. Vamos tentar ser tolerantes e ter fé em nós próprios.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Claridade



Um dia juntei todas as palavras

que já aprendera e

busquei para elas novos sentidos,

novas maneiras de soar e de voar

até ao coração dos homens.

Censuraram-me por tê-lo feito

e houve até quem dissesse:

«as palavras são o que são

e procurar para elas novos significados

é pura perda de tempo e ofensa aos deuses.»

Eu não lhes dei ouvidos

e continuei a escrever, aprendendo

o sabor de casar a palavra «água»

com a palavra «vento» e a palavra

«corpo» com a palavra «terra»

e a palavra «homem» com a palavra «sonho»

e a palavra «natureza» com a palavra «vida».

Foi assim, um pouco sem o querer,

um pouco sem o esperar, que usei

pela primeira vez a palavra «poesia»

que viaja comigo, companheira eterna,

para todos os lugares aonde vou,

desde a memória do homem

até aos últimos esconderijos da noite

até ao fundo da claridade dos dias.

José Jorge Letria



quinta-feira, dezembro 28, 2006

«Não sei, ama, onde era, nunca o saberei…

Sei que era Primavera e o jardim do rei…

(Filha, quem o soubera!...)


Que azul tão azul tinha ali o azul do céu!

Se eu não era a rainha, porque era tudo meu?

(Filha, quem o adivinha!...)»

Fernando Pessoa






No país de mentira que me adoçou a infância, o Natal chegava sem frio nem geada, muito menos neve. Natal Branco não passava de um filme maravilhoso em que Bing Crosby trazia para mim as canções e o Natal de neve e fantasia que me deslumbravam.

O meu Natal de menina começava quando, logo no início de Dezembro, meu pai trazia para casa a primeira ceira de figos. Figos secos, acamados uns sobre os outros que íamos tirando ao longo dos dias. Doces, doces… É que a época natalícia era esperada principalmente pelas guloseimas: rabanadas, sonhos, bolinhos cortados em forma de sinos, estrelas, pinheiros, enfeitados de chocolate e granjeia, bolos de frutas. E nozes e amêndoas e avelãs, pinhões, passas de uva, de ameixa, de pêra. Eu só gostava dos pinhões porque minha mãe me deixava enfeitar um bolo de chocolate, coberto, onde eu pacientemente espetava cada pinhão de forma a parecer um ouriço.

Só tive a minha primeira Árvore de Natal aos nove anos, quando mudámos para a casa nova. Normalmente, o Natal era passado na fazenda. Ali chegados, a azáfama começava. Os bolos eram batidos com uma grande colher de pau em terrinas de esmalte brancas e redondas, com um pé que se entalava entre as pernas para se poder bater a massa a duas mãos. As claras eram batidas em castelo com um garfo, só mais tarde com varas, numa travessa, também de esmalte, com uma barrinha colorida à volta. À mão, pois claro.

No quintal, o peru condenado amaciava a carne gorgolejando aguardente. De crista pendurada bico abaixo, balançava no coradoiro da roupa, sem tino, uma e outra asa no chão, segurando o corpo pesado. Motivo de galhofa para a miudagem na qual me incluía, sinto hoje dizê-lo.

Dentro de casa, uma toalha branca bordada a cores, com sinos e velas e azevinhos e estrelas, mais umas letras a dizer Bom Natal, Feliz Ano Novo, Boas Festas, cobria a mesa onde já estavam dispostos em tacinhas as frutas secas e os bolos. Num móvel pequeno ao lado do sofá, umas figurinhas de Presépio se ordenavam sobre pedras e musgo que proliferava junto ao tanque das avencas. Ali se punha o «sapatinho» para o Menino Jesus colocar uma lembrança a cada um, enquanto dormíamos.

Na Consoada, não havia jantar, era ceia. Meu pai contava-nos como era em sua casa, na «Metrópole», junto dos avós que não conheci: a mesa era mais parca, mas sempre de festa, com bilharacos em vez dos sonhos. Contava também que, em dias normais, a refeição da manhã era sopa em vez de leite; o almoço chamava-se jantar e à noite ceava-se. Costumes estranhos para nós que detestávamos sopa, como a maioria das crianças.

Depois da ceia, mesa arrumada novamente com as iguarias próprias, era invariavelmente colocada uma garrafa de vinho do Porto e alguns cálices. Para que, naquela noite mágica, também os nossos mortos viessem partilhar da festa da família.

terça-feira, dezembro 26, 2006

A fogueira








Natal é um nome mágico. Costela que sou de Ribatejano – se atender aos preceitos bíblicos da criação da Mulher – sinto mais esta região como estremenha, dada a proximidade e a atracção das gentes pelas terras da beira-mar.

Já adulta, encontrei aqui um Natal bonito. No largo grande da casa-mãe, diante do alpendre do antigo lagar de azeite, ao fim da tarde do dia da Consoada, os homens empilham raízes monstruosas de pinheiros, enquanto as mulheres fazem os coscorões e aprontam a ceia. Acende-se então a fogueira alta e enorme, que arde pela noite adentro, por todo o dia de Natal e só deve findar depois da segunda meia-noite.

Nestes últimos trinta anos, a fogueira uniu a família pequena, cada vez mais pequena. Morreu a Mãe que eu conheci e amei, primos e irmãos estimados deixaram o nosso convívio e fazem falta, muita falta.

Os que sobraram querem manter viva a fogueira, mas falta o calor dos que partiram sem volta, falta o vigor dos que a vida levou para o outro lado do oceano. As noites já não se prolongam nela a grelhar as carnes pela noite fora, a aquecer o vinho novo, a dar alento até chegar a madrugada.

São mais os velhos, do que os novos. Mas a fogueira ainda arde.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O sentido das palavras

«Como as ondas do mar que vão e vêm

pela atracção da Lua

outras ondas se alteiam atraídas

por outras luas, satélites do rosto.

Enquanto umas de amor cobrem as praias

e as penetram de espuma,

estas não amam, não molham, não se esgotam.

Mudam de cor, apenas.

Vêm de dentro e sobem, num conflito

sem tréguas nem fraquezas,

deixando o rosto esfarelado e seco

como os desertos quando o vento sopra.»

António Gedeão



Sou uma mulher de palavras. E de palavra também, acrescento para quem me não conhece. Gosto de olhar as palavras escritas, gosto de as ouvir bem ditas, gosto de ver a beleza de algumas nossas que soam tão bem. Não terá sido sem razão que Velásquez chamou ao seu quadro «Las Meninas»…

Às vezes dou comigo a implicar com uma palavra, a tentar colher-lhe o sentido e logo desviar-me dela, porque me não convém. Desta vez foi o Norte. O Norte que é indicado pela Estrela Polar que mal lobrigo nos céus, o Norte donde nunca vem o sol e tem, portanto, pouco a ver comigo. Nasci no hemisfério sul e prefiro-o ao Setentrião. Depois, estou caminhando francamente para o Ocaso, não há norte a perder, menos ainda a procurá-lo neste meu percurso. Assim por que não tomar como referência a «estrela» do Ocaso, a Vénus que surge a brilhar no Poente ao cair da noite? Ora direi então que estou despoentada, quando o horizonte que me surge se queda fechado sem os montes que almejo, sem a planície serena ou as dunas que despencam sobre a praia quente, sobre o mar por que anseio…

Estamos em Quadra de Natal e eu gosto da Consoada. Quereria ter um livro para cada sapatinho, ter muitos sapatinhos pendurados na lareira de casa. Depois, para meu próprio gozo, ler e mimar cada um deles pela noite adentro. Mas já não há crianças que acreditem em sapatinhos a guardar prendas, e ainda bem, porque o país e o planeta que lhes deixaria, seriam um presente envenenado.

Mas sinto-me feliz por sentir ainda, perto de mim, corações a pulsar mais forte por uma surpresa pequenina, na magia duma Noite de Natal.

domingo, dezembro 17, 2006

Aluno sofre...!

«Eu não era sensível: era, segundo o professor de Português do liceu, uma besta. Lia as minhas redacções, fixava-me em silêncio um minuto, atirava lá do alto, lá do fundo, para o respeito da turma

- O número cinco é uma besta

e batia com a régua na secretária a sublinhar cada palavra

- Escrever é sujeito, predicado, complemento directo, ponto final e acabou-se, sua besta, anda a gozar comigo?»

António Lobo Antunes

Há outras recordações, felizmente.

Há outras referências, bem mais generosas, daqueles que moldam as mentes e as mãos de uma criança. Menos duras, mais pedagogicamente correctas, mais amáveis. Porventura nem sempre mais fecundas.

Ser professor é, antes de mais, ser intuitivo. Perceber, numa criança, onde estão as suas sensibilidades, nem sempre manifestadas da melhor forma, mas sempre à flor da pele. Depois, ser pedagogo, ser professor. O real problema é que estes dois palavrões (palavras de vinte e sete e quinhentos, dizia-se quando eu andava na escola e o dinheiro era caro em todos os sentidos) são apenas isso, palavrões que a massificação mais e mais dificultou, adulterou.

Vejo-me sentada ao lado do escritor nessa sala de aula. Não o conheço pessoalmente, que vivi os tempos de liceu noutras latitudes, porém há em comum o facto de termos ambos percorrido o mesmo número de anos nas lides da vida. Entrei na escola precocemente, por insistir em acompanhar meu irmão mais velho e, talvez por isso, também pelo interesse, quem sabe a submissão ou o medo, nunca provei o tacto da palmatória que repousava na gaveta central da secretária do professor. Da relação com os meus professores, ficaram lembranças de carinho, de atenção na sua maior parte, quando muito de distância em alguns outros. Se, já adulta, enfrentei algum mestre, hoje ponho em questão se não terei sido injusta.

Mas voltando ao liceu, lá vai meio século. Os nossos professores eram, antes de mais, homens e falocratas. Assim o demonstravam no tratamento distante e por vezes abusivo que nos reduziam a pó:

- As sopeiras são para os magalas! Rua!

- A menina estava bem era em casa a coser meias…

Para os rapazes, sacripanta e escaganifobético foram os nomes repetidos anos a fio, por um professor a quem devo a segurança da pena hoje, alguém a quem já tive oportunidade de louvar aqui e mereceu a minha estima profunda, o Amigo que acompanhei com carinho até ao fim dos seus dias.

A sua mão trémula, em fim de vida, letra já incerta, chegou a justificar: «a si, que sempre prezei e prezo como filha, eu devo a explicação que já antevê, como exímia professora de hoje: eu quis sempre prevenir os alunos contra possíveis descuidos que pudessem mais tarde trazer-lhes prejuízos escolares. E era daí, que nasciam as minhas exigências – prevenir “chumbos”, sempre nocivos.»

Voltando a António Lobo Antunes, entrevejo uma necessidade de afirmação que só poderia ter sido ultrapassada por afectos que faltaram à sua grande sensibilidade de menino. «…o professor de desenho geométrico insiste, numa fúria de que não entendo o motivo

-Vou reprovar-te, bandido

enquanto eu mastigo pastilhas elásticas desafiadoras. O professor dança nas perninhas curtíssimas

- Cospe isso, malandro

e continuo a mastigar, de olho nele, pronto a apunhalá-lo com o tira-linhas. Que estupidez o liceu…»

Os homens e os professores mudaram. As escolas também. Mal seria se assim não fosse. É o país novo na pujança da sua juventude. Inserido nas novas tecnologias, mais sabedor.

Resta lembrar-lhe que precisa de conhecer a «Cartilha Maternal» e não esquecer João de Deus.

sábado, dezembro 16, 2006

Saudade desta infância


(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.





quarta-feira, dezembro 06, 2006

Olhar em volta

«Por uma manhã de Setembro, límpida e serena, como às vezes são na nossa terra as manhãs de Outono, Jorge saiu a pé, a passear pelos campos. Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo cedida ao trânsito pela sôfrega cultura das terras marginais do pequeno rio da aldeia. Depois subindo a uma eminência, parou a contemplar do alto o aspecto do feracíssimo vale, que suavemente se lhe abatia aos pés, e no fundo do qual se erguia, de entre veigas e pomares, a Herdade (…)

– Em flagrante delito de meditação poética, Sr. Jorge! Bravo! Já não desespero de te ver um dia fazer versos.

– Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta, pode fazê-lo simplesmente com o prosaico intento de tomar fôlego. Se isto fosse sintoma de poesia, então…»

Júlio Dinis




















Por que nunca paramos no meio do caminho, simplesmente para olhar o que nos rodeia, para sentir o cheiro dos eucaliptos novos? Eu sei porquê, todos temos pressa de chegar.

E refiro-me precisamente ao eucalipto porque é ele que altera a nossa floresta mediterrânica de pinhais e soutos e olivais. É ele que suga os parcos lençóis de água e ajuda à desertificação anunciada, mas exala um cheiro refrescante e leve (que me leva à «cortina» da Sacaála, às amoras…) em dias de calor intenso. Pois é, toda a medalha tem seu reverso: de um lado a degradação e o declínio, do outro a economia do país e a beleza, o odor, o atear dos sentidos.

Nos nossos passeios pela minha África, meu pai tinha por hábito parar sempre em cima das pontes. E saíamos todos para ver o rio. Lamacento e caudaloso, espraiando-se sorrateiro pelos capinzais das margens; parado e aquietado por uma barragem; límpido e alegre despenhando-se em cascata ou correndo ligeiro, negaceando as pedras lisas.

Parar sobre as pontes seria talvez o lugar mais seguro para simplesmente se olhar a paisagem em volta, para se encontrar o sítio mais aprazível para uma pescaria, um piquenique também. Sempre junto à água.

Na memória, as pontes sobre o Kolongo, o Kuíto, o Kuando, o Kussava, o Kurimahala, são as mais presentes. O Lucala, atravessei-o vezes sem conta sobre uma jangada; também o Kunene, em Vila Folgares (Capelongo), para uma caçada aos elefantes que não se concretizou porque as chuvas chegaram de sopetão, antes do tempo previsto. Tivemos de regressar a casa.

Eu também tive de regressar à terra que viu nascer os meus maiores. As minhas pontes, os meus rios, ficaram lá.

Eu, continuo aqui, num outro rio, sem água e sem magia.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Fim de Outono


«Eu vigio a minha permanência na terra,

leito eficaz para cada um engrandecer

diariamente. Não posso portanto permitir

que alguém, de quem não considera este clarão

diáfano necessário à compreensão,

queira incutir no espírito humano

a ideia de uma essencialidade colectiva

desenraizada daquele fundo com que cada um

se torna essencialmente em ocasiões únicas

o ordenador de rosas registadas por sinais.»

Fiama Hasse Pais Brandão








quinta-feira, novembro 30, 2006

Às vezes...


Ontem o Presidente da República divulgou a sua anuência ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. A propósito, em relação a este assunto tão delicado, à forma como se fala nele nos órgãos de comunicação social, sinto-me incomodada. E às vezes sinto vergonha.

É um sentimento feroz que surge na hora menos adequada, quando nos sentimos seguros, cauterizados já por longos anos de poder sobre as nossas emoções. Da última vez foi aquela mulher da vizinha Espanha que me surgiu no noticiário da noite, determinada e firme na sua resolução de abrir uma clínica em Portugal para a Mulher Portuguesa proceder à interrupção da gravidez, agora que vai, decerto, ser aprovada em referendo.

Qual coruja atenta na noite, preparada desde o escurecer, contactos firmados com homens de governo, médicos portugueses, enfermeiros portugueses, empregados portugueses, para mulheres portuguesas. Senti-me o rato. O pobre rato que tem de sair a coberto da noite para prover à sua subsistência. Mas a coruja também está lá. E tem meios para sentir que alguém mexe por perto e ataca. E tem esse direito. Para ela também existe a lei da sobrevivência.

Sou mulher e vou, pela segunda vez, votar a favor, no referendo.

Mas não sou a favor do aborto. E não sou católica, apenas e simplesmente cristã. Para mim é inquestionável que a mulher decida sobre si própria, avalie da sua força para colocar no mundo uma criança mal-formada e da sua capacidade para a acompanhar nos anos subsequentes; sobre a sua coragem de gerar uma criança saudável para a entregar às instituições deste país que negam sistematicamente a adopção. Qualquer lar, qualquer casal hetero ou homossexual, qualquer cidadão, pessoas solteiras ou separadas, mais novas ou mais velhas, qualquer lar, repito, capaz de oferecer carinho e protecção, é melhor do que todas as instituições que temos.

Voltando ao aborto, é claro que sou contra, ninguém tem o direito de privar alguém de viver, se estiver são, se o concebeu. Só não sou contra as mulheres que o praticam. Não acredito que seja uma decisão tomada de ânimo leve, nem trauma ultrapassável para qualquer mulher, viver uma experiência semelhante.

Sou contra a educação que continua a não existir em Portugal. Sou contra a falta de formação de todos os que não conseguem educar as mulheres (e os homens!) portuguesas para a sabedoria primeira, para o conhecimento atempado de que NÃO É PRECISO CHEGAR AO ABORTO para se não ser mãe, se não quiser, se não puder.

Perde-se tempo nas escolas, nas igrejas, nas instituições que pagamos a preço de ouro, para se discutir sobre se deve ou não haver uma disciplina de educação sexual, quem deve dar essa disciplina, em que ano de escolaridade deve começar, em que minuto começa a curiosidade sobre o instinto primário de todos os seres vivos, a reprodução pura e simples.

Para mim, a educação sexual está aí, explícita, já nem só no cinema, mas diariamente na TV, nos anúncios, nas novelas, impressa nos jornais, nas revistas, nas paredes, nos placares de rua. Não se pode fugir a ela. Falta apenas complementar pela informação directa e urgente, tão cedo quanto possível, cada vez mais cedo, de que há as estratégias actuais mais diversas para se iniciar uma actividade sexual com segurança.

Recordo a «minha velha» escola que era anualmente invadida por delegados farmacêuticos oferecendo pensos higiénicos às meninas e conversando uma hora com cada turma sobre fertilidade e higiene, na presença professor de Ciências ou do director de turma; como se mostravam profícuos muitos desses encontros, numa descontracção que possibilitava perguntas e respostas posteriores concretas, a dúvidas dos adolescentes e pré-adolescentes!

Abram as escolas a profissionais de saúde, deixem que as farmácias façam serviço útil sem ser a expensas do estado, sem sobrecarregarem os alunos com mais horas na escola! Chega de áreas de projecto leccionadas por quem não sabe fazer para si um projecto de vida, de estudos acompanhados que o não são, de aulas de substituição que são um sofrimento para alunos e professores, de educação cívica que disso só tem o nome!

Leiam-se os bons autores de Língua Portuguesa, façam-se aulas de Poesia, olimpíadas de Matemática, conte-se a História do Homem e da Terra, ensine-se Língua Estrangeira, Desporto, Artes, praticando e exigindo trabalho aos alunos, também resultados aos professores. A estes, avaliem-nos, mas não coarctem, não reduzam, não abatam, não humilhem!

Às vezes sinto vergonha… de DIZER que sou professora.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Morreu um Poeta


Exercício Espiritual


É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia

É preciso dizer azul em vez de dizer pantera

É preciso dizer febre em vez de dizer inocência

É preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano

É preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora

É preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano

É preciso dizer Maria em vez de dizer aurora







segunda-feira, novembro 27, 2006

Kevee


«Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.»

Eugénio de Andrade



Os fenómenos da natureza transmitem-me sempre intranquilidade.

A chuva ansiada que cai sem pejo sobre os indefesos da terra, imparavelmente, em rajadas de vento sucessivas, soando em pingos grossos tombados das goteiras quando esmorece a sua força logo retomada, inquieta-me. Ouço a sua impetuosidade que só aceito por breve tempo; se contínua, sinto-a incontrolável e pressinto os danos.

O mundo em que vivo é pequeno, cada vez mais pequeno e respirar é preciso. Eu também sou um fenómeno da natureza no mesmo sentido em que me sinto por vezes, demasiadas vezes, cada vez mais vezes, fluir sem controle, esbarrando nos telhados duros, escorrendo nas estradas de asfalto, formando rios que arrastam máquinas, casas e gentes.

Sei que é inexorável, e desejável, o meu deslizar em socalcos de serra até à planície, a anhara que ladeia o meu rio, rio que lava as minhas pedras do jade mais fino, guardando em si o resplendor de um arco-íris.

Em sonhos vagueio erecta e só, abaixo da casa grande, sigo a vala que desce até à lagoa e paro antes de lá chegar. Para além do lago começa a mata, mas antes, à direita, a elevação das areias é nítida, as areias brancas donde flui a nascente de águas límpidas e o vale que se estende até ao rio. Ouço a voz dos séculos no suor dos homens que escavaram a mina, nos barcos rumando ao Brasil, não cheios de escravos mas de seixos luzentes, na pedra latina do nome do cota que não seria idoso.

Falto à verdade, eu não estou só. Comigo os seres de raça negra que me embalaram o berço, me limparam as lágrimas, me carregaram aos ombros, me ensinaram a falar com bichos e plantas, a respeitar os seres que me rodeiam, aqueles que me deram a graça, os que me esperaram em vão e os que esperam ainda que faça jus a esse nome que gravo na memória.

É por tudo isso que ainda sobrevivo.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Quem não gosta do arco-íris?

«- Louco, você? Só porque consegue entender as árvores ou falar com as coisas? Bobagens! Loucos são os outros homens que perderam a poesia de Deus, que endureceram o coração e nem sequer podem entender os próprios homens. Esses são loucos.»

José Mauro de Vasconcelos



Já não rego as flores do jardim, que o meu jardim é desvario. Depois, a relva não esconde a sua preferência por outros amores, revela bem o seu derriço à carícia da água que lhe vem directamente dos céus.

Todavia sinto falta do arco-íris pequenino com que o sol me presenteia à sua despedida, ao fim do dia, no repuxo fino que faço sair da mangueira de rega. O mesmo arco-da-velha da minha infância, quando aparecia enorme nas nuvens escuras que traziam a trovoada e a chuva. Também o manto-de-deus porque perfeito como ele, redondo, redondo, e às vezes repetido, a dizer que Deus estava ali para proteger os meninos dos relâmpagos e trovões. Bem mais tarde, aquele deslumbramento ao vê-lo pairar por sobre as águas do Niagara, antes do sol-pôr.

Lobo Antunes disse numa entrevista recente que tem alguma dificuldade em falar da idade, porque cada um de nós tem a idade com que nasce. De acordo, incondicionalmente. Falou ele, senti eu. Há quem seja velho quando nasce, há quem seja sempre menino. Há quem cresça devagar e quem nunca envelheça. Há quem envelheça sem nunca crescer.

Há decerto uma idade ideal em cada ser que permanece para todo o sempre e aflora aqui e além, para lá das rugas, do olhar nublado, do sorriso ou do franzir do cenho. Também nas palavras. Independentemente dos anos contados, dos êxitos, das vicissitudes, das angústias, dos desejos alcançados, das saudades, dos anseios mais fundos nunca concretizados.

E é por isso que eu gosto do arco-íris. É a curva mansa e perfeita do esplendor da vida nos tons completos do universo. Os que o nosso olhar distingue e todos os outros que não vemos, mas estão lá, no espectro solar.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Mariazinha

Nada sei do futuro dos dias que virão.

Sei dos dias que já correram em flor de mágoas, frutos de amor ou sementes de esperança, incerteza, descrença. Também de espanto. Por cada dia que chega, os olhos se abrem e o mundo derrama neles nova luz, nem sempre ténue, nem sempre suave, mansa, como surge no alvorecer.

É que aí, nós não estamos acordados, cada vez mais lestos em prolongar o dia pela noite de luz mentirosa que despreza a da estrela-mãe. E, quando nos levantamos, o sol vai alto e fere a retina, grita aos sentidos o que não desejamos, queima e agride, tanto mais, quanto menos vamos estando capazes de suportar a investida, o golpe, o peso forte da natureza em mutação.

Já se foi o pigmento dos cabelos, o frescor da face, o brilho límpido do olhar, o sabor do palato. Ficou o fulgor da mente, a alegria do riso, a graça das tranças já não do cabelo farto, mas das lembranças ondeadas mas certas, enroladas de sonhos.

Eu vou estar sempre consigo, embrulhadas ambas nos lugares que vivemos noutras latitudes, no mundo outro que habitámos, que já não tem lugar nos tempos que escorrem, sem outro ensejo, nesse outro planeta apenas visitado agora em nossos devaneios.

Vamos continuar a seguir de mãos dadas atravessando as ruas, olhando as figuras de jade do bairro chinês, escolhendo as bonecas de missanga, continuando a cobiçar as figurinhas de porcelana dos doze signos, as enfiadas de tartarugas da longevidade. E a jarra de laca vermelha.

Escrevo estas linhas num dia em que recordo o pai que me gerou e o foi também seu e de meu irmão. Será octogenária à entrada do novo ano chinês e eu farei por si um brinde com o vinho do Porto que vai sobrar da mesa de Natal, onde em cada ano deixo aberta a garrafa e os copos para a celebração dos que um dia já partilharam a nossa Ceia.

Afinal acabo no futuro que desconheço. Mas apeteço. Enquanto o houver, mau grado as divergências que a vida regeu para nós, os lugares, os continentes, os gostos, as idades, a condição, nós permaneceremos lacradas de afecto, no desfolhar das «Mani di Fata», na celebração das caçadas, nos cacimbos secos à sombra das laranjeiras do quintal.


sexta-feira, outubro 06, 2006

De regresso

«Das coisas
Que competem aos poetas
Oh as casas, as casas, o valor do vento
Nada consta
Peregrino hóspede sobre a terra
Um quarto
As coisas
A cabeça
Onde só o silêncio é soberano…»


Ruy Belo










Ninguém nos ensina o alvorecer.

É preciso estar presente e sentir, ouvir, palpar, olhar as tonalidades do novo dia. Com o determinismo que os milénios nos ensinaram, sabemos que o sol aparece naquele mesmo horizonte, à direita da Estrela Polar que fenece.

Ir ao encontro do dia sobre o Atlântico é revigorante para uma alma escurecida já por uma saudade futura. Num repente, a claridade surge não se sabe donde, um momento após a escuridão total, subitamente, num abrir de olhos fechados há minutos.

É num momento assim que tudo se suspende em nós. Vagamos no espaço vazio, na paz e quietude que dura poucos minutos, esquecido o que fomos, o que seremos. Apenas e só o presente efémero.

Há que fazê-lo, o turbilhão vem aí. As guerras, as crianças maltratadas, a violência gratuita, o desemprego, a fome, a injustiça, a incerteza do futuro.