quinta-feira, janeiro 11, 2007

Caça

«Quem de nós falará aos homens que hão-de vir

quando o grande clarão encher de luz

e pasmo as nossas bocas?

E como?

Que língua entenderão eles?

Que símbolos, que sinais, que apagados murmúrios,

lhes falarão de nós,

desta fluida e versátil multidão

destes seres que aparentam rosto humano

e como tal comovem,

mas que olhados do alto são lepra do planeta...»

António Gedeão


































A caça fez parte da minha vida. Sempre.

Sem escolha, nasci naquele país longínquo, naqueles tempos longínquos da 2ª Grande Guerra.

Quando dei fé de mim, quatro, cinco anos, onde posso situar uma ou outra lembrança, a caça está presente. Nas fotografias resgatadas à descolonização, mal posso saber como, tenho registos da minha alta infância; porém não possuo, dos meus filhos, mais do que aquilo que pude aqui recuperar da família para quem enviava uma ou outra foto. Perdi, como tudo o resto, esses documentos preciosos.

Mas, dizia eu, a caça está presente, eu estou presente entre a caça. Caça era uma palavra que me fazia vibrar, porque representava sempre excitação, alegria, amigos, conversa, comunicação, enfim. Os amigos da casa caçadores eram sempre os mais divertidos, deixavam as crianças participar nas conversas, contavam histórias entre gargalhadas – parece que há um provérbio que assegura que um dos momentos em que os homens mais mentem é após uma caçada... – novos e velhos tinham peripécias que escorriam pelas noites mornas, alongando os serões.

Das caçadas com os amigos resultavam sempre almoçaradas de bifes de lombinho grelhados com gindungo, acompanhados de enormes e suculentos cogumelos (kema eram os melhores e trazidos também pelos caçadores no início da época das chuvas, ali por Setembro…), arroz de pato no forno, perdiz estufada com ervilhas e ovos de pomba escalfados, pernas de nunce ou chissóvio assados também no forno enorme de lenha.

A preparação das grandes caçadas anuais era sempre rodeada dum ritual que me encantava. A ida ao Sul de Angola, para a espera aos elefantes, determinava o planeamento cuidadoso dos oito dias normais de estadia. Os companheiros habituais eram o meu pai, meu tio Kamenino, o tio Albino da Cangonja, e o nosso comum primo Mim, que baptizou o «cesto mágico» de meu pai. E a este propósito havia sempre, no regresso, estórias divertidas para contar, entre gestos e gargalhadas que nunca vou esquecer. Era um pequeno cesto de verga, que meu pai conservava longe dos olhares, e do qual, nos últimos dias, quando os mantimentos comuns escasseavam em qualidade, surgiam acepipes inesperados, pois meu pai reservava um cuidado especial na composição do seu conteúdo. Não faltava aí o bom presunto, queijo da serra, umas garrafas de vinho e uns enlatados especiais. Era ainda tempo de limpar muito bem a sua espingarda, uma 10-75, arma de bala especial que apenas era usada nessa altura, passando o resto do ano embrulhada em massa lubrificante. As caçadas nos terrenos da fazenda, já tive oportunidade de as referir aqui, eram precedidas de longas conversas ao fim de tarde, frente à casa; longos conciliábulos entre meu pai e os sobas para decidirem, com a aprovação de todos os presentes, em círculo, do melhor dia para o gebo, a melhor oportunidade para o início da queimada.

Espingardas, convivi com elas desde a infância. Estavam sempre descarregadas, mas sabia que não podia pegar nelas sem ser na presença de meu pai. Uma vez única experimentei a caçadeira em que peguei vezes sem conta, a 22 LONGO que ficou depois para meu irmão; tinha dois canos, um ao lado do outro. A de meu pai tinha os dois canos sobrepostos, era linda, a coronha tinha uma protecção na ponta, a culatra era toda gravada com figuras de patos num lago cheio de canas, a argola em volta do gatilho também. A limpeza dos canos era obrigatória à chegada da caça e constava de um serviço meticuloso: havia um estojo com umas peças longas e finas de metal amarelo que enroscavam umas nas outras para dar o comprimento necessário, na ponta duas peças do tamanho de cartuchos alternavam, uma para limpar como que raspando os canos, e finalmente uma outra para limpar o pó.

Todas as armas de caça e pistolas que havia na casa de meu pai, foram entregues, já nos anos 70, a um dos três movimentos (ditos) de libertação que conviviam na terra já devassada pela guerra, à FNLA, que ocupou a casa onde cresci em Nova Lisboa, na altura desabitada largos dias porque minha mãe, viúva, passava longas semanas na fazenda.

Esta parte não quero lembrar.

7 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Escrevi-lhe há pouco mas vim, como
numa saudade, visitar este outro
lado da sua escrita e fiquei estu-
pefacto com «A Caça», não por ela em especial, mas, na esteira do poema de Gedeão, surgiram ali ima-
gens (sobretudo as escritas) de um
tempo que é recordado com nostal-gia,algum humor e ironia,mostrando
a menina que já foi e o lugar tro-
pical que também experimentei.Te-
mos de certeza convergências sobre
as nossas memórias complementares.
Meu Deus, como sinto o seu silên-
cio sobre Nova Lisboa.
Rocha de Sousa

veritas disse...

Olá!

Eu não nasci num desses países, mas o meu avô era caçador. Naquela altura fazia-me impressão os coelhos que ele trazia...mas já estou como a Sophia de Mello Breyner " As pessoas sensíveis não matam galinhas, mas comem galinhas..." O que mais medo me fazia era vê-lo com a arma, uma espingarda que hoje parece pré-histórica. O meu pai tem-na guardada no sotão, juntamente com alguns cartuchos. Velhos tempos...
O único dos cães que me ficou na memória foi o Max...

Bjs.

vivererecordar disse...

Fiquei surpreendido como te lembras de todos esses detalhes sobre as caçadas, seus preparativos e chegadas, nomeadamente sobre a limpeza das armas, porque não sabia que davas atenção a essas coisas.
Via-te sempre um pouco afastada, senhora do seu nariz, virada mais para os assuntos femininos, como estava enganado! Santo Deus.

Quanto ao provérbio sempre ouvi dizer referir-se aos PESCADORES e não aos caçadores.
Lembro-me perfeitamente de ouvir um caçador contar que certa vez pescou um peixe enorme no rio e que era tão grande que ainda trazia dentro do estômago um Petromax acesso. Ri-me tanto que nunca mais me esqueci dessa.

Quanto às minhas armas, de caça e defesa, as que não pude levar comigo, enterrei-as bem fundo num local que só eu sei, embrulhadas numa lona e plásticos grossos, cheios de massa consistente e, que pelos meus cálculos, ainda devem lá estar. Aliás esse foi um dos motivos que me fez debandar de Angola à pressa e que não gostaria também de falar.
Um beijinho

vivererecordar disse...

Amiga, erro imperdoável o meu!!!!!!!
Por aqui se vê que a idade não perdoa. Não é que me esqueci de dizer que fiquei deveras encantado com as fotos!
Ao vê-las os meus olhos humedecem pelas lembranças que me trazem.
Bj

naturalissima disse...

Esta fabulosa estória da "Caça", levou-me a recordar Àfrica no seu próprio cheiro a terra vegetal e animal...
Nunca tive experiências de caças, nunca me entusiasmou este tipo de passatempo, de ritual, nunca gostei de espingardas,... mas conheci algumas pessoas que o praticavam tal como descreves aqui maravilhosamente.
A medida que te lia, mergulhava na história como se estivesse a vêr cenas de um filme.

Amiga, gostei muito de passar por aqui e, lamento não o fazer com mais frequência, por falta de disponibilidade.
É sempre um prazer ler-te... Sinto que há muito dentro de ti para se saber, para se aprender.

Um beijinho e o desejo de um Belo Fim de Semana
Daniela

dakidali disse...

Bem , vou começar a caça ao outro.
Depois dou notícias, se me perder, peço ajuda, vale?
Beijinhos

vida de vidro disse...

A caça ou qualquer tipo de actividade que envolva o uso de armas nunca me atraiu. Mas gostei de ler-te, porque talvez me faças entender algumas pessoas que nunca compreendi. Afinal, eu nunca estive em África e, desses tempos, só conheço a minha euforia (que gosto de lembrar). **