terça-feira, janeiro 16, 2007

Poema do Futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,

medito o meu destino.


No declive do tempo os anos correm,

deslizam como a água, até que um dia

um possível leitor pega num livro

e lê,

lê displicentemente,

por mero acaso, sem saber porquê.

Lê e sorri.

Sorri da construção do verso que destoa

no seu diferente ouvido;

sorri dos termos que o poeta usou

onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;

e sorri, quase ri, do íntimo sentido,

do latejar antigo

daquele corpo imóvel, exumado

da vala do poema.


Na História Natural dos sentimentos

tudo se transformou.

O amor tem outras falas,

a dor outras arestas,

a esperança outros disfarces, a raiva outros esgares.


Estendido sobre a página, exposto e descoberto,

exemplar curioso de um mundo ultrapassado, é tudo quanto fica,

é tudo quanto resta

de um ser que entre outros seres,

vagueou sobre a Terra.

António Gedeão


4 comentários:

vivererecordar disse...

Não sabia da teu encanto por marcos geodésicos, ah,ah,ah!!!!!!!!
Beijo

JPD disse...

Falei com A. Gedeão no Pedro Nunes. Mal sabia que estivera a conversar com o autor de uma das obras poéticas mais fulgurante da literatura portuguesa.
Boa escolha
:)

vida de vidro disse...

Na História Natural dos sentimentos tudo se transforma, mas o essencial é igual.
António Gedeão é um dos meus poetas favoritos. **

Pedro Branco disse...

Tudo se transforma... diz o poeta. Que tudo transforma. Que tudo reinventa. Mais que o cientista? Talvez. O poeta sabe. O cientista procura. O poeta também. O cientista nem sempre.

Mais umas palavras que uniram!

Cumprimentos.