sábado, agosto 26, 2006

Escrever a vida

«O significado das palavras não tem só que ver com o que passa pelo seu conceito, ou mesmo pelas suas margens e é a sua ressonância emotiva, mas ainda pelo aspecto da sua grafia. Se eu transcrever de Mendes Pinto uma frase como «Vimos também h~uas barcaças em que vem hom~es e mulheres tãgendo em vários instrum~etos» e “actualizar” para «Vimos também umas barcaças em que vinham homens e mulheres tocando vários instrumentos» não actualizei apenas inocentemente a grafia de um texto (e já agora a sintaxe), mas roubei-lhe devastadoramente quatrocentos anos de vida. E isso obviamente tem um peso enorme no seu significado…»

Vergílio Ferreira



Se não tivesse desistido de viver há mais de quarenta anos, faria hoje 108.

A chamado de seus irmãos mais velhos, logo a seguir à Primeira Guerra, Angola o enfeitiçou para todo o sempre e ao lado de suas gentes construiu uma vida. Dela deixou relatos de 45 anos ininterruptos na terra que escolheu também para repousar.






O reportar-me à Gandavira é reportar-me à época mais difícil da minha vida. Senão vejamos:

Fui para uma casa onde se cometiam todos os latrocínios a título de abandonar Angola para não voltar. Liquidar. Um preto devia, era zurzido, estuprado, espoliado. Se achava a conta elevada para o que fiou, então nem é bom falar. O mínimo era a palmatória e o chicote, independente da multa que lhe era aplicada pelo que disse.

Depois era o Posto Administrativo que tinha de fornecer tantos homens válidos. Como era feito o angariamento do pessoal? Não era certamente com prédicas, elucidando-o da necessidade de produzir, fazendo-lhes ver que Angola não era o seu kimbo e que havia muitas necessidades afins à nossa espécie de que eles enfermavam e não conheciam.

Começava o angariamento pelo cipaio. O que era o Cipaio ?...

Era um indesejável no seu meio, um homem à margem dos outros homens. Um criminoso convicto, com a moral do latrocínio. Fugia do seu meio e ia pedir serviço ao Posto. Quanto mais carrasco fosse, mais convinha para o ofício.

Aviltaram-se, degradaram-se em relação ao Selvagem que também tem as suas leis, os seus costumes que respeitam com tanta devoção ou temor, consoante os casos, como nós mesmos, os Europeus, os brancos.

O ignorá-lo, tendo de viver entre eles e utilizá-los, é já grave isso; mas ir ao cúmulo de os maltratar pela simples razão de serem negros, sem uma razão sequer aparente, sem pelo menos o fazerem por piedosa mentira cria complexos que se repercutem longe.

Aconteceu, como sempre acontecia afinal, não falando já de latrocínios e violações de toda a ordem quando os agentes negros operavam, ter-se finado um preto, dois ou mais em consequência de maus tratos. Diziam, porque eu nunca vi.

Não me recordo de me ter rido nos primeiros dias, não me ri quando vi bater em pretos como nunca vi bater em irracionais, ou tão pouco me ri quando via uma mulher da minha cor banhada em pranto.

Ter que assistir impassível a tudo isto era sem dúvida mais pesado que os sacos de farinha e cevada com que alombava no quartel da Graça em Coimbra.


sexta-feira, agosto 25, 2006

Palavras

«Não sei porque Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história de meu velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da tristeza dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que destapei as lembranças.

Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar sua amada. Mergulhou na fundura das águas e ficou dentro do mar mais tempo que um peito autoriza. Saíram os restantes barcos, em salvação. Contaram-se segundos, minutos, lágrimas, suspiros. Só ao fim do dia, meu velho apareceu na superfície. Já ninguém esperava que ele ressurgisse. Mas, para espantação e reza, meu pai golfinhou-se entre as ondas e gritou como se o céu inteiro lhe entrasse no peito. (…)

- Os olhos dele!

A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo, toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. Passavam gentes vindas de longe para espreitar de longe o preto com olhos da cor do mar.»

Mia Couto


Os sentidos, adormecidos, nem sempre assomam por entre os dedos. Quando acontece, surgem em catadupa e nem dá tempo de traduzir em palavras o que vai dentro de nós. Ou brotam de manso, depois deslizam em torrente, por vezes em cascata, em cachoeira por entre as pedras roladas e afeiçoadas, caem no vale, formam rio caudaloso e desaguam no mar. Outras vezes serpenteiam pelos vales e perdem-se na chana, depois no deserto e infiltram-se nas areias fugindo ao mundo sequioso.

Quantas vezes é fogo, é magma que se derrama e é preciso conter para que não queime, para que não apague os verdes, para que não mascarre a paisagem e a torne um rochedo bruto e informe. Que tem a sua beleza, outra que não aquela que nos ensinaram, quantas vezes mais pura, mais firme, franca e leal.

É que a beleza, ou está dentro de nós ou, como a felicidade, nunca a encontramos. Ela está por toda a parte, escondida nas rugas de gordura dum pezinho de criança, como na secura dessas outras que trazem os anos; no esplendor verdejante duma primavera ou no ímpeto do tornado que se desloca em fúria; na grandeza do mar, na torrente da comporta que se abre, nos pedregulhos de lava cuspidos pela montanha, na queimada que corre pela anhara ao entardecer.

E sempre, mas sempre, na humidade dos olhos de quem entrevê ou entreviu um clarão de tempo feliz que não dura mais que um momento, ou uma dor pungente que já passou, mas se eternizam grafados em letra de forma. Por isso eu gosto tanto de palavras.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Libertação

«Ceifeira que andas à calma, no campo ceifando o trigo
Ceifa as penas da minh’alma, ceifa-as e leva-as contigo.

Abalei do Alentejo, olhei para trás chorando
Adeus terra da minh’alma, tão longe me vais ficando…»





O mergulho na água morna, aquecida pelo sol inclemente no coração do Alentejo, apaga as inquietações mais fundas de um emprego instável, de um mundo inseguro e injusto. Principalmente injusto.





Ouve-se a solidão no vento que balouça as ramadas do único ulmeiro que ladeia a casa, no olhar do pónei que olha curioso o novo inquilino e nas nuvens galopantes que enfeitam o céu. De dia. Porque a noite traz o esplendor da Via Láctea, o caminhar lento das estrelas no manto escuro da lua nova.

Aqui não há senhores, nem há escravos.

Libertamo-nos no acto de nascer, mal nos cortam o cordão umbilical. A dependência vem depois e tem a ver com a sobrevivência do corpo. Mais tarde da alma. Tornamo-nos escravos da família, dos amigos, do trabalho, da religião, da droga, do sexo, do dinheiro. Do medo também.

E do Amor.

terça-feira, agosto 22, 2006

Regresso

A quem me lê, me apoia e se solidariza, as minhas desculpas pelo desconcerto das três últimas postagens. Tive um contratempo com o blog, da minha completa responsabilidade. Porém, tudo regressou já ao normal.
Deixo-vos com um poema da minha poetisa preferida, conterrânea e contemporânea, Alda Lara.


E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
Filha eterna de quanta rebeldia
Me sagrou.

Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto
Ainda sou
A Irmã-Mulher
De tudo o que em ti vibra
Puro e incerto…

A dos coqueiros
De cabeleiras verdes
E corpos arrojados
Sobre o azul…
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras…

A do sol bom, mordendo
O chão das Ingombotas…
A das acácias rubras
Salpicando de sangue as avenidas
Longas e floridas…

Sim! Ainda sou a mesma
A do amor transbordando
Pelos carregadores do cais
Suados e confusos
Pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!…)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos…

Sem dores nem alegrias
De tronco nu
E corpo musculoso
A raça escreve a prumo
A força destes dias…

E eu revendo ainda e sempre, nela,
Aquela
Longa história inconsequente…

Minha terra…
Minha, eternamente…

Terra das acácias, dos dongos
Dos cólios baloiçando, mansamente…
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
Pura e livre
Me levanto
Ao aceno do teu povo!


Benguela, 1953 (Poemas, 1966)

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sábado, agosto 12, 2006

Rapazito

«Admiro a tecedora porque tem consentido
que a assemelhem à poesia.
Mesmo com os cílios a perturbar-lhe
o movimento dos fios e os dedos
tocados por uma estanha resignação
ela tece os caudais líquidos
que escorrem na sensibilidade do poeta
desde que era criança…»


Fiama Hasse

Depois da flor quieta e doce em que o meu tronco floresceu, um botão irrequieto e vivo brotou a completar o sonho de copa larga e refrescante.

Os fios brilhantes de muitas cores, em que cresci, rolam sem descanso entre os dedos quando a mente cansada procura a paz. Aí pousam minhas abelhas famintas cujas patas se enchem de pólen e as asas levam ao sabor da brisa no rumo certo da colmeia. E também as borboletas. E o beija-flor.

É que a minha colmeia é o mundo dos continentes. De aquém e de além-mar, das origens algures no Nascente ao pôr-do-sol no Novo Mundo, com pegadas nos velhos continentes, quero ser sal e cinza no mar aberto, e espírito que vai concretizar os sonhos que não cumpri. Pensar o presente é fincar os pés no passado e saltar ao futuro que ainda se oferece.

Um lenço de namorados é um cantar de amigo, quase nunca registado pela donzela.

Este é para o meu filho. Um bordado de vida.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Sensações

«Nadas na sombra de uma grande ausência.

Cobrem-te os vidros do espanto
Fragmentos de ardidos instantes,
O peso da água incendiada.
Imaginas então o ressoar
De uns pés infantis
Na fotografia mais distante
Do teu nome.

Sabes então que só na terra
Onde escondes o coração
Correrás por entre as palmeiras
E o eco dos primeiros rios.»

Eduardo Bettencourt Pinto

O que hoje tenho a meus pés é tudo aquilo que, naquele tempo, desejei ver. Por isso tem para mim um sabor que os outros não provam.

Eu nunca soube desenhar. Ou talvez, como a Saint-Exupéry, me tivessem convencido de que não sabia desenhar. Muito menos cubatas, montanhas áridas, imbondeiros, palmeiras ou cafezeiros. Na escola primária, a Menina Mª Amália fazia no quadro uma paisagem bonita com montes e vales, um moinho lá no alto com um caminho em zig-zag, uma menina a tocar um burrinho a carregar farinha, mais um pastor e ovelhinhas na encosta. Eu aprendi a fazer assim as paisagens. As da minha terra não desenhei, porém vivi-as, e isso, ninguém me tira.

Hoje fico ainda deslumbrada com estes pinhais que se erguem da encosta abaixo de mim e sobem até ao azul mais pardacento do que o meu. Vetustos pinheiros ainda não violados pela mão do homem, que os não respeita e dilacera sem piedade, para lhes tirar o sangue da vida. Os barquinhos ancorados ainda cobertos pela manhã, ou de vela ao vento, ou rebocando esquiadores; crianças mergulhando e chapinhando, gente nas plataformas gozando os prazeres do sol. Mas de noite, na quietude do escuro, há pouca vida. Só o ruído dos motores a sugar a água ou o ressoar do vento nos pinhais quando há nortada. Piou um mocho mas eu não ouvi.

O anoitecer em Angola acordava um mundo louco de sons que eu nunca mais vou escutar. O coaxar das rãs servia de coro a um sem fim de ruídos que não sabia identificar, para além dos noitibós que faziam crém-crém, crém-crém... Eu fui sempre medrosa sem saber concretamente porquê, pura insegurança. E era sem dúvida uma questão psicológica, porque meu pai me ensinou que estar no escuro é estar protegida, ser mais forte: ninguém nos vê e, se nós estivermos atentos, com todos os sentidos alerta, podemos observar tudo em redor.

Em Angola escurecia cedo; a diferença no tamanho dos dias ao longo do ano era mínima. Assim, às vezes, era preciso ir à horta, na fazenda, já noite, que meu pai gostava de ir apanhar grelos para o seu jantar e metê-los na panela sem sequer os lavar «para lhes não tirar o sabor» e, se eu ia com ele, queria sempre levar a lanterna acesa. Era nessas alturas que ele me dava conselhos que me aquietavam, porque me convidava a olhar para longe, até à senzala, à mata e ao rio, e me fazia compreender que, se eu tivesse o mais pequeno foco aceso junto a mim, era eu própria que passaria a ser o alvo para muitas léguas em redor. A verdade é que ainda hoje me sinto segura no escuro, afinal é qualquer coisa que nos ficou dos nossos antepassados, que meu pai reaprendeu no contacto da sua solidão com os homens da selva, com os animais, com a natureza...

Mas esta quietude faz-me medo. O vento nos pinhais a crescer, a ressoar mais e mais forte e depois a afastar-se ao longe, inquieta-me.


sábado, agosto 05, 2006

A meu Irmão

Sonho que sou um cavaleiro andante
Por desertos, por sóis, por noite escura…
Paladino do amor, busco, anelante,
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura.
Com grandes golpes bato à porta e brado:
- Eu sou o Vagabundo, o Deserdado!
Abri-vos, portas de ouro ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor
Silêncio e escuridão… e nada mais…

Antero de Quental




O relacionamento fraterno é qualquer coisa que me escapa e não consigo encontrar um paradigma para a relação entre irmãos que foi controversa ao longo dos séculos. Dos amores incestuosos dos imperadores romanos ao «eram mais que inimigos, eram irmãos» de Pitigrilli, sobra o conceito de fraternidade de fundamentação cristã: os que têm o mesmos direitos e os mesmos deveres.

Meu irmão foi aquele que partilhou o mesmo útero que eu habitei, aquele menino meigo e doce que brincava comigo às casinhas, com quem partilhava os amigos nos jogos de cowboys, que jogava comigo «à bilha» no quintal de casa. E às escondidas. E ao fogo. E às cartas: ao burro em pé, ao diabo, à bisca de nove, ao crapaud. Ainda hoje jogo sempre com a mão esquerda porque aprendi com ele, que era esquerdino. Mais tarde o meu cavaleiro esbelto que arrancava suspiros às colegas de colégio, depois o padrinho escolhido para o meu primeiro rebento, e o meu irmão, sempre o meu Irmão.

Comemorar-se-ia hoje mais um aniversário se o seu corpo não tivesse sido colhido por um atrelado, numa qualquer estrada quente argelina, vão quase trinta anos. Mas ele está por aqui, cada vez mais por aqui, mora dentro da minha solidão, e aparece subtil nos meus sonhos a dormir ou acordada, na nossa Terra do Nunca, quase sempre menino, raramente o seu rosto lindo e sereno repousando no esquife imperturbável do aeroporto.

E se as lágrimas afloram, é exclusivamente porque eu não soube, em tempo, abrir-lhe o meu coração e dizer-lhe quanto ele era importante para mim e, principalmente, porque não o abracei o suficiente.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Angústia

Hoje limito-me a copiar uma transcrição de http://lecumedesjours.blogspot.com , de 25.07.06.
Sem comentários.

(…)Nos primeiros dias do ano escolar, acontece-me pedir aos meus alunos que me descrevam uma biblioteca. Não uma biblioteca municipal, não, o móvel, aquele onde arrumo os meus livros. E o que eles me descrevem é um muro. Uma falésia de saber, rigorosamente ordenada, absolutamente impenetrável, uma parede contra a qual apenas podemos debater-nos.


- E um leitor? Descrevam-me um leitor.
- Um verdadeiro leitor?
- Se quiserem, embora não saiba a que chamam um verdadeiro leitor.


Os mais respeitosos descrevem-me Deus, o próprio Pai, uma espécie de eremita antediluviano, eternamente sentado numa montanha de livros cujos significados ele bebera até à total compreensão de todas as coisas. Outros esquissam-me o retrato de um autista profundo, de tal forma absorvido pelos livros que embate contra todas as portas da vida. Outros ainda oferecem-me um retrato côncavo, desatando a enumerar tudo o que um leitor não é: não é um desportista, não é vivaz, não é divertido, não gosta nem de comida, nem de roupas, nem de carros, nem de televisão, nem de música, nem de ter amigos… e por fim outros, mais estrategas, erguem diante do professor a estátua académica do leitor consciente dos meios postos à sua disposição pelos livros e que lhe permitem aumentar o seu saber e aguçar a sua lucidez. Alguns misturam estes diferentes registos, mas nem um só, nem um só se descreve a si próprio, ou a um membro da sua família ou um desses incontáveis leitores com que se cruzam todos os dias no metro.

E quando lhes peço que me descrevam “um livro” é um OVNI que vejo posar na sala de aula: objecto ó de tal forma misterioso, praticamente indescritível dada a inquietante simplicidade das suas formas e a proliferante multiplicidade das suas funções, um “corpo estranho”, carregado com todos os poderes e com todos os perigos, objecto sagrado, infinitamente protegido e respeitado, arrumado com gestos oficiosos nas estantes de uma biblioteca impecável, para ali ser venerado por uma seita de adoradores cujo olhar é enigmático.(…)”

Daniel Pennac, “Como um Romance”
Editado em português pela ASA.

terça-feira, agosto 01, 2006

O templo

«Ergui um monumento
Mais perene que o bronze
Mais alto que as pirâmides
Que nem as chuvas demoradas
Nem a série incontável dos anos
Nem a fuga do tempo
Poderão derrubar…»


Horácio


Possuir um local de escrita público é antes de mais um acto de coragem, mas não deixa de ser também o exercício de algum narcisismo. No bom sentido, diga-se. Todos gostamos de mostrar aos outros o que temos de melhor dentro de nós; afinal, ninguém sai à rua de pijama, sem a cara lavada e descalço – falo do mundo ocidental em que estou inserida, é claro.

É ainda por excelência um factor de comunicação com o mundo grande que não conhecemos, para além da ligação imediata com todos aqueles que estimamos, em que pensamos ao escrever, que nos sugerem os temas, que nos despertam recordações e nos ajudam a sobreviver em dias fustigados de melancolia, desespero, impaciência, impotência perante o que nos parece tão lucidamente feroz na acção, tão transparente e claro na solução.

É sempre um cavalo de batalha, a transmissão de um pensar positivo, de frontalidade, de vigor, de querer, de doutrinar, de transmitir aos outros a força do seu sentir, seja através de um poema, um som, uma simples imagem. Para quem escreve apenas porque sente prazer nisso, porque a escrita lhe ocupa e adoça o tempo, porque na escrita verte angústias e sonhos, raivas e amores, medos e fantasias; para quem denuncia, reclama, recomenda, revela, expõe, abre o seu interior, um blog é sempre uma galeria de arte.

Eu diria mais: é um templo. É o lugar de recolhimento de cada um, aberto aos demais porque é um lugar de partilha, como tal deve ser respeitado, entrar e sair em silêncio se não for do seu credo, colaborar na oração se for da sua fé.

E jamais profanar um lugar de culto.