sexta-feira, agosto 25, 2006

Palavras

«Não sei porque Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história de meu velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da tristeza dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que destapei as lembranças.

Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar sua amada. Mergulhou na fundura das águas e ficou dentro do mar mais tempo que um peito autoriza. Saíram os restantes barcos, em salvação. Contaram-se segundos, minutos, lágrimas, suspiros. Só ao fim do dia, meu velho apareceu na superfície. Já ninguém esperava que ele ressurgisse. Mas, para espantação e reza, meu pai golfinhou-se entre as ondas e gritou como se o céu inteiro lhe entrasse no peito. (…)

- Os olhos dele!

A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo, toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. Passavam gentes vindas de longe para espreitar de longe o preto com olhos da cor do mar.»

Mia Couto


Os sentidos, adormecidos, nem sempre assomam por entre os dedos. Quando acontece, surgem em catadupa e nem dá tempo de traduzir em palavras o que vai dentro de nós. Ou brotam de manso, depois deslizam em torrente, por vezes em cascata, em cachoeira por entre as pedras roladas e afeiçoadas, caem no vale, formam rio caudaloso e desaguam no mar. Outras vezes serpenteiam pelos vales e perdem-se na chana, depois no deserto e infiltram-se nas areias fugindo ao mundo sequioso.

Quantas vezes é fogo, é magma que se derrama e é preciso conter para que não queime, para que não apague os verdes, para que não mascarre a paisagem e a torne um rochedo bruto e informe. Que tem a sua beleza, outra que não aquela que nos ensinaram, quantas vezes mais pura, mais firme, franca e leal.

É que a beleza, ou está dentro de nós ou, como a felicidade, nunca a encontramos. Ela está por toda a parte, escondida nas rugas de gordura dum pezinho de criança, como na secura dessas outras que trazem os anos; no esplendor verdejante duma primavera ou no ímpeto do tornado que se desloca em fúria; na grandeza do mar, na torrente da comporta que se abre, nos pedregulhos de lava cuspidos pela montanha, na queimada que corre pela anhara ao entardecer.

E sempre, mas sempre, na humidade dos olhos de quem entrevê ou entreviu um clarão de tempo feliz que não dura mais que um momento, ou uma dor pungente que já passou, mas se eternizam grafados em letra de forma. Por isso eu gosto tanto de palavras.

2 comentários:

dakidali disse...

Há pessoas que têm o dom da escrita e a Iria é uma delas.
Ainda bem que um dia fiquei naquela escola a dar aulas só para a conhecer já valeu a pena.
Gostava de voltasse, com garra e força, para podermos conversar mais tempo.
Beijinhos

jawaa disse...

Obrigada TT, e retribuo o cumprimento. Foi um prazer conhecê-la e é um prazer continuar a tê-la como amiga, mas o que pede já é um pouco a mais... era bom, era!