terça-feira, agosto 22, 2006

Regresso

A quem me lê, me apoia e se solidariza, as minhas desculpas pelo desconcerto das três últimas postagens. Tive um contratempo com o blog, da minha completa responsabilidade. Porém, tudo regressou já ao normal.
Deixo-vos com um poema da minha poetisa preferida, conterrânea e contemporânea, Alda Lara.


E apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
Filha eterna de quanta rebeldia
Me sagrou.

Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto
Ainda sou
A Irmã-Mulher
De tudo o que em ti vibra
Puro e incerto…

A dos coqueiros
De cabeleiras verdes
E corpos arrojados
Sobre o azul…
A do dendém
Nascendo dos braços das palmeiras…

A do sol bom, mordendo
O chão das Ingombotas…
A das acácias rubras
Salpicando de sangue as avenidas
Longas e floridas…

Sim! Ainda sou a mesma
A do amor transbordando
Pelos carregadores do cais
Suados e confusos
Pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!... Rua 11!…)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos…

Sem dores nem alegrias
De tronco nu
E corpo musculoso
A raça escreve a prumo
A força destes dias…

E eu revendo ainda e sempre, nela,
Aquela
Longa história inconsequente…

Minha terra…
Minha, eternamente…

Terra das acácias, dos dongos
Dos cólios baloiçando, mansamente…
Terra!
Ainda sou a mesma.

Ainda sou a que num canto novo
Pura e livre
Me levanto
Ao aceno do teu povo!


Benguela, 1953 (Poemas, 1966)

 Posted by Picasa

2 comentários:

dakidali disse...

Pelos vistos conseguiu resolver o embróglio. Ainda bem, já andava preocupada.
Poema fabuloso com uma força tremenda como tudo em África.
Beijinhos

IO disse...

Obrigada pelo acordar de domingo que me ofereste: primeiro que tudo, obrigada pelo convite, depois pelo testemunho que me deste a ler e, por fim, este poema de Alda Lara, que um dia, em forma de elogio, me foi oferecido por uma também poeta angolana. Hei-de procurar para te enviar, aluguma escrita dela.

Um beijo, IO.