segunda-feira, dezembro 28, 2009

Das Portas do Sol, Boas Entradas em 2010!




 

«Ao almoço a conversação veio naturalmente a cair no seu objecto mais óbvio, Santarém. D. Afonso Henriques e os seus bravos, S. Frei Gil e o Santo Milagre, o Alfageme e o Condestável, el-rei D. Fernando e a Rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luís de Sousa aqui nascido, Pedro Álvares Cabral, os Docems, quase todas as grandes figuras da nossa história passaram em revista. Por fim veio Santa Iria também, a madrinha e padroeira desta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.

Quem tem uma ideia fixa, em tudo a mete. A minha ideia fixa em coisas de arte e literárias da nossa península são chácaras e romances populares. Há um de Santa Iria.

Por que é a Santa Iria da trova popular tão diferente da Santa Iria das legendas monásticas?

A trova é esta, segundo agora a rectifiquei e apurei pela colação de muitas e várias versões provinciais com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.

Estando eu à janela c’oa minha almofada,
Minha agulha d'oiro, meu dedal de prata

Passa um cavaleiro, pedia pousada:
Meu pai lha negou: quanto me custava!

— Já vem vindo a noite, é tão só a estrada...
Senhor pai, não digam tal de nossa casa 

Que a um cavaleiro que pede pousada
Se fecha esta porta à noite cerrada.

Roguei e pedi — muito lhe pesava
Mas eu tanto fiz, que por fim deixava

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
 
Às mãos lhe dei água, ele se lavava:
Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.
 
Poucas as palavras, que mal me falava,
Mas eu bem senti que ele me mirava.
 
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.
 
Fui-lhe pôr a ceia, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, nela se deitava.
 
Dei-lhe as boas-noites, não me replicava:
Tão má cortesia nunca a vi usada!

Lá por meia-noite, que me eu sufocava,
Sinto que me levam c’oa boca tapada...
 
Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre à desfilada.
 
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
Calei-me e chorei — ele não falava.

Dali muito longe que me perguntava:
Eu na minha terra como me chamava.
 
— Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a coitada.
 
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me atentava...
 
Horas esquecidas, comigo lutava;
Nem força nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange... ali me matava,
Abriu uma cova onde me enterrava.
   
No fim de sete anos passa o cavaleiro,
Uma linda ermida viu naquele outeiro,

—"Que ermida é aquela, de tanto romeiro?"
—“ É de Santo Iria, que sofreu marteiro."
 
— 'Minha Santa Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.”

—"Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um cordeiro." »

Almeida Garrett, «Viagens na Minha Terra»




quinta-feira, dezembro 24, 2009

Há sempre um milagre


– Oh meu filho, como te  posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, qté os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse… Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o traouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
– Mãe, eu queria ver Jesus…
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
– Aqui estou.
Eça de Queirós






Uma tempestade varreu esta noite o meu tempo actual, no espaço duma aldeia civilizada deste cantinho da Europa.


Para além do vaso de tomilho novo derrubado e alguns utensílios de jardinagem repousando fora do lugar habitual no alpendre, sobra o estrago maior que toca cá dentro quando me vejo submissa, escravizada, por uma senhora todo-poderosa chamada electricidade. O dito inteligente deixou-me sem aquecimento, sem banho; o microondas, o fogão, o forno, sem o mínimo aconchego para o estômago na manhã fria; sem telefone e sem computador que o MEO vai à vida sem luz, o telemóvel a dizer que só aceita chamadas de SOS. Sem máquina de costura, ferro eléctrico, o frigorífico e a arca a descongelarem. Sem carro, porque accionar o portão da cave manualmente exige um certificado dos CNO.


Mas um calor de verdade, aquele calor coberto pela cinza dos anos, que não deixa que as brasas se apaguem, que as fazem brilhar ao mais pequeno sopro, chegou nas palavras de ternura do teu cartão de Natal, minha Amiga. Não viajaram através do computador, foram escritas pela tua mão, naquela caligrafia perfeita, as vogais pequenas e redondas; longas e estreitas as consoantes devidas. Palavras sentidas, trazendo humidade aos olhos pela dor partilhada da ausência, depois pela bondade e força transmitidas.


Então, por sua vez as minhas mãos afagam a cartolina vermelha e fico-me por aquele tempo perdido, na fazenda dos candeeiros a petróleo, de chaminés altas e rendilhadas diariamente lavadas no tanque de água corrente, lembras-te? O fogão a lenha, aceso pela manhã para ferver o leite, a cozinha-velha ao lado da vala, a garagem não mais que um telheiro sem porta. E a imagem da figura esguia de teu pai. O Senhor Sá.


Numa noite de Consoada, teu pai apareceu sozinho, inopinadamente, a passar o Natal connosco. Já a mesa estava posta, ainda os sonhos a fritar na cozinha, já aquele cheiro de canela e açúcar nas rabanadas sobre a toalha branca bordada com velas e azevinho e sinos e laços. Vinha do Lobito, acompanhado de umas garrafas de vinho, frutos secos e a sua alegria. Foi uma festa para nós, e ele veio encontrar a família que lhe faltava (deve ter sido quando tu vieste estudar e estavam por cá os três – hás-de perguntar-lhe se ainda se lembra!).


Não foi preciso haver electricidade. O carro parou à porta, apagaram-se os faróis e o meu pai disse: «Olha, é o Joaquim!»

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Esperança somos nós




Estendeu o braço e apanhou a flor. Quanto valeria aquilo em Portugal! E a mata estava cheiinha delas! Eram orquídeas preciosas, de recorte singular e surpreendentes cores, cactáleas de pétalas terças de lírio, que tinham algo de sexo virgem e fascinavam como uma ilusão. Parasitárias, as raízes que lhes davam vida prendiam-se, como tentáculos, a caules de seiva rica e nunca mais desfaziam o abraço. Metade da selva vivia da outra metade, como se a terra não bastasse para o império vegetal e fosse necessário sugar as árvores que chegaram primeiro.
Ferreira de Castro









Depois de uma tempestade sempre vem a bonança, é voz do povo, voz de Deus, voz da razão nem sempre. A questão mais complexa reside no tempo da procela em que é preciso fazer alguma coisa para minimizar estragos, encontrar saídas; mesmo Noé teve de soltar um corvo, a seguir uma pomba, uma e outra vez, até que a ave lhe trouxe um ramo de oliveira, sinal de que as águas tinham baixado, que havia terra firme, quarenta dias depois. Mas aí as coisas eram mais simples, como simples as gentes; era olhar as águas e crer, crer e esperar, ver emergir o cabeço dos montes, as colinas, os vales, a planície enfim em todo o seu esplendor. A arca atracada, repovoar a terra.
Agora, os bichos da arca são outros. Mais inteligentes, mais estudados, mais sabedores, já não temem a Deus. Não se assustam com o subir das águas onde só os mais fracos se afundam, porque vivem nas terras altas e nem crêem no dilúvio. E, apesar de tudo, é neles que reside a esperança.
Cresci com a natureza, onde as árvores nunca se despiam de verde, onde se alternavam as estações entre chuvas e cacimbo, exuberante ou agreste, mas sem o ondear das temperaturas europeias. Sem primaveras pujantes de promessas, sem verões varridos de vento suão, sem o pincel amolecendo as cores nos suaves serões outonais, sem a frente fria fiando o gelo no tear das noites de inverno. A luz coada pela névoa, o esplendor do céu aberto, o som da chuva ou o granizo saltando no vidro da janela, povoam a minha alma, e é ali que eu respiro, é ali que eu colo os seres que moram dentro de mim, ontem, hoje, agora e sempre.
Olhando por cima das nuvens, com albatroz sulcando o oceano ou borboleta escolhendo a flor, o que me preocupa entre tudo é o equilíbrio do dia. Porque dele depende o cumprir dos anos e a sobrevivência, a continuidade de mim enquanto humana. Não sou eterna, mas a peça que faz a eternidade. Cada um de nós tem essa responsabilidade, e dar conta dela é um passo imprescindível à sobrevivência de nós. Olhar o mundo de cima, é situarmo-nos no espaço, encontrar o signo a que pertencemos, conhecer os planetas que nos regem; depois, construir o nosso próprio caminho com o possível equilíbrio.
Todo este deambular do espírito pousa na cimeira de Copenhaga, que deveria decidir tudo e não passou de um faustoso encontro de nobres privilegiados, com direito a sangue azul, aviões particulares, hotéis de seis estrelas e sexo qualificado grátis. Não sei se ainda existe clero, porque burguesia deixou de haver. Para o povo, sobraram os discursos mais ou menos bem elaborados.
Não quero saber do mundo deles; do dinheiro que distribuíram. Quero saber deste país pequenino entre maiores. Quero saber dos espaços que avisto nesta minha região ribatejana, plantados de pinheiro manso e olival novo. Quero questionar os espaços que vejo crescer até à porta dos casais, plantados e replantados do feroz eucalipto.
Não deveríamos começar por aqui?




sábado, dezembro 12, 2009

Passado, passados



Eram empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado. Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos. Resumindo: um nome que ressoe a nobreza e a cultura. Ele vende-lhes um passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo. Os empresários, os ministros gostariam de ter como tias aquelas senhoras (...) velhas donas de panos, legítimas bessanganas, gostariam de ter um avô com o porte ilustre de um Machado de Assis, de um Cruz e Sousa, de um Alexandre Dumas, e ele vende-lhes esse sonho singelo.

José Eduardo Agualusa





Um passado passou por mim qual brisa leve, mas forte como uma ventania. Soprou de repente, pintado de cãs, trouxe lágrimas que morreram na voz.

É que eu não tenho passado, tenho passados. Passados como pássaros que povoam o meu espaço, chegam quando menos espero e passam como aves que são, soprando ventos com as asas, alguns voltando em cada estação, outros esquecidos e não os recordo senão em sonhos, os sonhos da noite e os sonhos do dia. 

Não há espaços perfumados sempre. Há a exalação da terra e da chuva, o calor subindo na areia quente, a bosta dos animais, o cheiro nauseabundo do ninho dos répteis na beira do rio. O odor das queimadas, da fogueira grande na rua, aquecendo as noites.

Os pássaros, que a minha memória guarda, são diversos na cor e no porte: imponentes e assustadores, vorazes, esquivos, joviais, prazenteiros. Há os grifos e os corvos e os condores; há as águias e os milhafres e o falcão peregrino, a coruja e o mocho. E a alegria da cor e do grito dos tucanos e das araras, das anduas e das galinhas-do-mato. Depois há os que pontilham o meu espaço mais doce, os mais humildes: os peitos-celeste e os bicos-de-lacre, os catuituis e as viuvinhas-de-rabo-comprido. E os pardais-de-telhado. E o melro e o pisco-de-peito-ruivo.

São estes que eu alimento no meu quintal e exalam o tal perfume que suaviza o meu espaço cá dentro. 


quarta-feira, dezembro 09, 2009

Nova Decoração







«É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.»

 Bernardo Soares





Desta vez, algo vai bem no reino da Dinamarca, ou pelo menos promete. Estão presentes todos os grandes poluidores, dos Estados Unidos à China e à Índia, mas todos exigem afinal ajuda para continuar a poluir. Ou sou eu que compreendo mal, deve ser. Isto com a salvaguarda do Brasil, que pede ajuda para poder afrontar a desflorestação da Amazónia. O prémio Nobel da Paz deste ano parece cheio de boas intenções, mas não passa disso, pois Senado norte-americano ainda nem sequer aprovou legislação interna sobre a alterações climáticas.

E porque sopraram ventos de Copenhaga, as minhas nuvens escuras desapareceram como por encanto, e dei conta que precisava de renovar o template do blogue. Desconhecia essa necessidade técnica, lá tive de recorrer a pesquisas longas e decidi que temos de ter esperança em dias melhores. Então, sem nuvens, deu para ver o mar, a areia, os seixos; é tudo menos triste.

Lembra que ficar-se velho não é uma maldição, não senhor, é uma bênção dos céus como diziam os mais antigos, deve ser o prémio por se ter vivido mais tempo do que os mais novos, por ter experiências que eles não tiveram, por ter sabido usar da prudência necessária para chegar até aqui. 

Há dias em que é preciso lembrar que temos de viver connosco apenas, somos o tal planeta que caminha sozinho na sua solidão, acompanhando a solidão dos outros, cada um na sua órbita. Alguns nem têm satélites. 


sexta-feira, dezembro 04, 2009

Amigo


... Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
– que ao dominar-te deixa que domines – mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

Ruy Belo 



Abre-se a manhã e há menos um amigo no passadio da vida.

Quando esta se arrasta sem justificação plausível, as motivações perdidas, os laços afectivos que restam fragilizados pelas tempestades da vida, por incompreensões, egoísmos, desafabilidades, feridos de há muito pela injustiça dos homens, impera o acumular dos anos gerando sensações díspares que convergem numa ânsia infinita de querer passar além do que a vida não pode já dispensar aos espíritos lúcidos. Assim, o sono eterno não é mais do que uma libertação.

Então há que chorar os vivos que o perderam, manter viva a sua memória e seguir o risco traçado das estrelas que continuam a brilhar no fundo do peito, guardando a sabedoria dos Mais Velhos. E agora a nós, que os substituímos na roda da vida, a nós que nascemos de África, resta continuar a cumprir o credo dos lobos, nossos irmãos da selva: Respeitar os mais velhos, ensinar os mais novos, cooperar com o grupo, brincar quando for possível, caçar quando for preciso. E também partilhar os afectos, expressar os sentimentos. Deixar, enfim, as suas pegadas na senda partilhada.

Assim fizeram os nossos maiores.




sábado, novembro 28, 2009

Cavalos do Mar e do Tempo


A luz que te ilumina
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...

Miguel Torga




Não seria sincera se dissesse que António Lobo Antunes é o meu escritor preferido, mas não estou longe da verdade se disser que o considero, indiscutivelmente, um dos maiores escritores vivos de Língua Portuguesa. Tive ontem oportunidade de estar presente no auditório do CCC de Caldas da Rainha, onde Lobo Antunes se deslocou, pela mão de Isabel Castanheira, da Livraria 107.

É delicado e simples na apresentação pausada que faz do seu último título: «há muito tempo que queria fazer um livro com estrutura de corrida de toiros» … «depois, foram aparecendo vozes inesperadas… estava a transcrever o que às vezes me diziam. O livro estava por baixo daquele magma de palavras… e o livro foi surgindo.»…

Ouvi-lo ali, como se em afável conversa familiar, deixa-nos uma sensação de ternura que persiste. Ficaram gravadas algumas frases bonitas, por entre o tom sério, as graças, as ironias, as histórias familiares, o convívio com amigos. «Eu trabalho com aquilo que é anterior às palavras, as emoções, compulsões.» «Há uma alma em cada coisa e um livro é feito de coisas. Um escritor é um trapeiro, fica com o lixo que as outras pessoas não querem.» «Eu queria só chegar ao coração das pessoas.»

A apresentação irregular da sua escrita formal, que de início me incomodava, é uma forma de poesia em prosa, e o que escreve não é um romance, ele próprio o afirma. É assim para ser digerido devagar, sem pressas, já que «os livros bons não dormem, têm insónias».

Chegada a vez de apresentar-lhe um volume para autografar, declinei o meu nome, que não compreendeu à primeira. Quando o seu editor, ao lado, lho repetiu perto do ouvido, levantou para mim os seus olhos azuis de menino e evocou de imediato um livro que acompanhou a minha infância – e pelos vistos a sua – onde «eu» viajava num também cavalo… do Tempo: «As Aventuras de D. Redonda e a sua Gente» (já em tempos recordei aqui esse título, a propósito das minhas primeiros leituras de criança).

Foi um momento de encanto, aquela troca de palavras, aquele minuto de conversa. Logo se desvaneceu.

«As solidões entre as pessoas são como os planetas, caminham em órbitas sozinhas».


terça-feira, novembro 24, 2009

Horizonte

Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato
Diziam-me isto, em criança, eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo.
Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora.
Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa.
Brincadeira de mau gosto, a idade.

António Lobo Antunes





Nascer num tempo que já não é, dobrar esquinas que já não há, conviver com seres que já não estão.
Pois sim. Parece ter sido ontem que aprendi a amizade construída entre todas as espécies, os bichos, as plantas, a natureza inteira. Aquela emoção doce que nasce da convivência entre seres que se encontram numa qualquer esquina da vida e se dão as mãos, cada um sentindo do outro o calor, olhando-se com espanto. E um desfraldar de bandeiras de cores e desenhos, olhá-las ao vento qual papagaios de papel ondeando no céu, e o riso correndo na areia molhada. O sentimento que fortalece no primeiro tombo, no enxugar da lágrima, na compreensão, na separação, no desvendar das diferenças, na procura das pontas em que passa agasalho e afecto.
Por isso eu ainda preciso da alegria dos pássaros, da ironia do sol por entre a cortina da chuva, do som dos beirais tocando, a trovoada compondo a sinfonia da noite, na escuta quieta entre os lençóis. Preciso das flores e do cortejo de insectos que lhes beijam as cores, das vozes das gentes, do sorriso dos velhos e dos gritos das crianças.
Preciso de ouvir os sons para a vida, como se não houvesse gente a morrer com fome.

domingo, novembro 15, 2009

Fim de Outono


Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo…
Ricardo Reis






Os livros escrevem-se em conversas íntimas, as memórias aflorando os sentidos por cada sopro de vento que anuncia a chuva e se recebe no rosto com volúpia. Lembrar de imediato que não há temor do raio que pode riscar o céu, da trovoada que atroa em seguida e transporta o medo e faz correr para o abrigo da casa. Não. É a chuva ansiada e apenas isso, a campainha que soa lá dentro, dizendo das castanhas apetecidas, já prontas.

Nada é eterno, nem a saudade.

Chega em revoadas, como bandos de pássaros num céu limpo de primavera. Vem em ondas incertas, mudando de tom, de direcção, invadindo-nos o espaço e quebrando a solidão com chilreios insistentes quando pousam nas árvores em volta. É uma sensação indefinível pelo peso que tem de alegria e inquietação, desconcerto, uma visitação que chega a trazer cheiros e cores, tudo tão breve e feérico e ao mesmo tempo tão real que magoa, uma dor fininha perdida no corpo, na mente.

E o bando levanta voo, efusivo, rápido, envolve-nos na despedida e em breve não se distingue senão a mancha ondeante, nem houve tempo para um toque, um afago, não houve sequer palavras. Foi um adejar de borboleta. Foi aquele arco colorido no céu a dizer adeus da chuva que passou.

É agora a quietude que regressa com sabor de paz, deixando aquele aperto cá dentro como o passarinho triste do Zezé, do Pé de Laranja-Lima.

E não é preciso ser criança, para senti-lo calado no peito, preso, sem vontade de cantar.


segunda-feira, novembro 09, 2009

Muros


        – Diga lá!
       Manuel da Bouça aproximou-se mais da mesa, pousou os olhos sobre o papel em branco e murmurou, com a voz a chorar na garganta:
             
        Minha querida Amélia:

       Em primeiro lugar desejo que esta carta te vá encontrar perfeitamente de saúde, mai-la nossa Deolinda. Eu estou muito contente. Isto aqui são outras terras. Já tenho trabalho e se Deus quiser…

 

       Deteve-se a repetir:
       – Se Deus quiser… Se Deus quiser…
       A voz saía-lhe tão sumida, tão vaga e trémula que Rufino ergueu a vista. Manuel da Bouça estava lívido e com os olhos cheios de lágrimas.
       – Que tem, patrício? Está doente?
       – Nada, não é nada. Isto passa. Faça favor de escrever…
       E, procurando dominar-se, balbuciou:

       -Se Deus quiser, Amélia, hei-de ser muito feliz.

Ferreira de Castro




Em cada vida há sempre um muro derrubado e em cada queda uma libertação.

O tempo nos concede o poder de olhar para o que ficou para trás, para o que resultou em generosidade e em dor, para o que acrescentou ao nosso peso anterior – e interior. Não há arrependimento.

Só pedaços de vida que se enrolam como folhas de tabaco verde, depois dobradas, coladas em espirais que escurecem com o tempo, tomam o tom bonito das castanhas e repousam em meadas, guardando os segredos da sua construção. Exalam um odor que inebria.

Como os molhos de cartas antigas, laçadas com uma fita desbotada, dentro de sobrescritos amarelecidos, em papel grosso de correio terrestre ou finíssimo de transporte aéreo, em azul pálido, debruados a cores; têm os selos carimbados ou apenas um nome, uma morada, numa letra cursiva dardejando símbolos, a tinta azul Pelikan. E o tinteiro aberto na memória tem um cheiro doce.

Como as flores lácteas que vestem os cafezais guardam o olhar perdido logo a seguir em frutos vermelhos, depois secos, torrados, moídos, torturados, para se desfazerem em pó aromático. O prazer só acontece quando da terra emerge a água fervente, mesclando de odor e sabor o rio que bordeja os lugares perdidos.

Caem os muros do nosso descontentamento, enfeitam-se as ruínas de beleza, mas o rio continua a correr devagar.


quinta-feira, novembro 05, 2009

Homenagem






IN MEMORIAM

Na cidade de Assis, «Il Poverello»
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! – E assim sonhando,
Pelas estradas da Úmbria foi forjando
da cadeia do amor o maior elo!

Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água,
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã de um só Irmão
E já não sou a irmã de ninguém mais!
Florbela Espanca


domingo, novembro 01, 2009

Dia de Todos os Santos

…Oh as casas as casas as casas mudas testemunhas da vida elas morrem não só ao ser demolidas elas morrem com a morte das pessoas As casas de fora olham-nos pelas janelas Não sabem nada de casas os construtores os senhorios os procuradores Os ricos vivem nos seus palácios mas a casa dos pobres é todo o mundo…
Ruy Belo    
Hoje é dia de romagem aos cemitérios onde não fui, mas devera.   
Ou antes, não, porque o dia dedicado aos Finados é amanhã, 2 de Novembro, e eu não me esqueço. Hoje é dia de partilha, entrar no jogo das crianças pedindo o «Pão por Deus», distribuir as guloseimas que não custa ter à mão para encher os sacos abertos, mantendo um ritual muito nosso, a despeito da nova cultura globalizada do Halloween. Nem tarda que não exista mais o «Pão por Deus», tradição perdida nas cidades; tradição essa que deveria ser revitalizada nos tempos maus em que grassa a falta de pão, por chocante que possa parecer a frase dita assim. Uma acção concertada junto aos supermercados para ajuda aos necessitados teria agora um pendor de tradição, aliada à necessidade de real ajuda a que, decerto, todos seriam sensíveis.  
Não é que seja muito importante para mim a presença junto às sepulturas, porque prefiro lembrar os meus afectos perdidos olhando as ruínas que se tornam belas com a pintura do tempo, como as memórias deles, sempre tão presentes, envelhecendo soberbas na sua decrepitude, condenadas à destruição para dar lugar a novos espaços. Amanhã talvez o tempo e a vontade aguentem a viagem até ao lugar de repouso dos mais próximos, onde todas as campas estarão já vestidas de flores e seja mais fácil para mim revisitar o campo sagrado.  
Hoje, o tempo cinzento, parado, quieto, morno, condiz com o dia. Deve ser assim o lugar eterno.  

terça-feira, outubro 27, 2009

Ah, minha Dinamene!


…Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli




Gosto de ver chegar o sol depois da chuva que deixa tudo lavado.
Sorriem as gotas brilhando sobre as pétalas, as folhas, a relva, mas falta-me o cheiro do calor da terra e o céu também não é igual; sinto as nuvens mais leves, o horizonte sem linha.
Nesses breves instantes assola-me a ideia de que preciso de voltar a encontrar o chão que deixei e vive comigo, misturado nas ilusões que mantenho a dormir e nos sonhos que eternizo acordada.
Cresceram as silvas, as canas encheram as margens do rio, mas a casa está de pé. Nas janelas ainda as cortinas de renda antiga cobrindo os parapeitos largos, na janela do meu quarto a pedra de mármore rachada onde pousava aquele vaso de avencas sempre viçosas, crescendo constantemente em cabecinhas enroladas, como que envergonhadas de tanto viço.
Quem sabe os livros ainda nas estantes do quarto dos pais que contornavam a secretária grande para formar o escritório. As portadas das janelas pintadas de verde musgo, as portas altas, com bandeiras de vidro por cima, o tecto de tábuas de tom dourado todas marcadas dos nós da madeira de pinho, a minha cama de ferro a fingir-se coberta de verdete, as maçanetas e as barras a pedirem solarine, o mosquiteiro branco…
 «Acordo e vejo que nem um breve engano posso ter…»

terça-feira, outubro 20, 2009

Caldas da Rainha



«No Café Central, enquanto a bica não chega, tento fixar o olhar nos unicórnios de Júlio Pomar, que cavalgam a parede oeste em fundo azul-marinho, baixo-relevo, sem espessura, por onde a vista navega até ao oceano e às personagens míticas que o habitam. Com delírio febril interrompo a quietude dos bichos mitológicos, assim plantados desde o ano de 1955, conforme reza o quadro. Vejo-os correr livremente pela praça. (…) Reponho no quadro os irrequietos seres mitológicos, devolvendo à Praça da Fruta o ambiente próprio de uma manhã de domingo do mês de Maio: festiva, colorida, com legumes, flores, frutos e tudo, mas sem unicórnios, que só existem em misteriosos livros de mitologia, e no velho quadro de Júlio Pomar.» 


Carlos Querido in «Praça da Fruta»





Nasci em África, onde passei a infância e a juventude, olhos postos na Europa dos meus maiores, na «Metrópole» onde morava a civilização. Assim mesmo, a civilização. O prosseguimento dos estudos, o bem-falar, o bem-escrever, os escritores que descobria; os vinhedos, os olivais, os soutos e os pinhais; os moinhos, os castelos, os lugares onde se desenrolavam as histórias da História que aprendi na escola.

Naquela época – e já foi há muito tempo – não havia televisão, não havia quem imaginasse por nós as histórias que líamos grafadas no papel, e assim a nossa mente elaborava os cenários com uma dimensão à medida dos nossos desejos, aumentados à lupa pela saudade dos nossos pais.

Quando o encontro aconteceu, as expectativas não foram goradas, mas o tamanho das coisas passou a ser real. O abraço foi quente e permanece o encanto. Ainda hoje tem chama, ainda hoje me afaga, me perturba, me enleva. Mas a cidade que então me acolheu, cansou-me: não era a Lisboa que os meus sonhos acalentaram, e só o tempo me ensinou a amá-la. É, ainda hoje, a «minha cidade» entre todas. 

De África me ficaram as memórias, empoladas de saudade; da Europa a realidade que me envolve, mais anos já passados de presença do que ausência. O que me rodeia é cada vez mais próximo e gosto de ver o olhar dos outros a pousar delicadamente nele. Gosto de os ver afagar a sua região, dar-lhe as mãos, apontar-lhe as cores, os sabores, como quem lambe uma cria, como quem desvenda a sua forma de amar.

Caldas da Rainha tem muita História. E histórias bonitas contadas pelos seus.