... Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
– que ao dominar-te deixa que domines – mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
Ruy Belo
Abre-se a manhã e há menos um amigo no passadio da vida.
Quando esta se arrasta sem justificação plausível, as motivações perdidas, os laços afectivos que restam fragilizados pelas tempestades da vida, por incompreensões, egoísmos, desafabilidades, feridos de há muito pela injustiça dos homens, impera o acumular dos anos gerando sensações díspares que convergem numa ânsia infinita de querer passar além do que a vida não pode já dispensar aos espíritos lúcidos. Assim, o sono eterno não é mais do que uma libertação.
Então há que chorar os vivos que o perderam, manter viva a sua memória e seguir o risco traçado das estrelas que continuam a brilhar no fundo do peito, guardando a sabedoria dos Mais Velhos. E agora a nós, que os substituímos na roda da vida, a nós que nascemos de África, resta continuar a cumprir o credo dos lobos, nossos irmãos da selva: Respeitar os mais velhos, ensinar os mais novos, cooperar com o grupo, brincar quando for possível, caçar quando for preciso. E também partilhar os afectos, expressar os sentimentos. Deixar, enfim, as suas pegadas na senda partilhada.
Assim fizeram os nossos maiores.


