Ferreira de Castro
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Muros
Ferreira de Castro
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Homenagem
Domingo, Novembro 01, 2009
Dia de Todos os Santos
Terça-feira, Outubro 27, 2009
Ah, minha Dinamene!
…Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
Terça-feira, Outubro 20, 2009
Caldas da Rainha
Terça-feira, Outubro 13, 2009
Conforto entre Muros
“A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que querem viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres, e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usufruto da burguesia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade”.
Eça de Queirós
Ler uma página intensa de escrita é como sentir-se a escalar um muro alto, cavalgar um obstáculo, galgar uma muralha antiga e depois seguir as palavras despenhando-se, nem sempre ordenadas no espaço, no tempo, mas sempre precipitando-se com fragor, troando, rolando umas atrás das outras, algumas pisando, magoando, matando, ou simplesmente correndo mais leves, amortecidas pela grama, suaves compondo um desenho novo.
Tudo parece actual porque a história se repete e os homens não aprendem. Falam da liberdade mas não se libertam das amarras com medo de afrontar o oceano, continuam Velhos do Restelo, quiçá sonhando as navegações dos outros, mas incapazes de darem as mãos e entrarem juntos no barco. E os poucos que partem, já não querem regressar, receosos das areias movediças que ladeiam os rios da sua pátria.
Dos que deixaram longe a força da mocidade caminhando frontal e temerária, segura dos seus passos, palmilhando a areia sem temor das dunas, contornando as árvores na floresta insegura, ou civilizadamente cruzando os ares e os mares ou os caminhos de asfalto, pisando, rasgando, conspurcando, poluindo, a sabedoria da idade adulta moderou os excessos, cientes já da insegurança subjacente em cada passo, cada encruzilhada, cientes das dificuldades na construção das pontes, cientes da impossibilidade do regresso à casa paterna.
Já deles os cabelos perdem a cor, a suavidade do toque, ou simplesmente deixam de estar. A pele escurece juncada de manchas, de estrias, as veias crescendo através dela, os ossos alterando o molde perfeito inicial. Nem há como fugir a isto, salvo adoçar o tom e o gesto, encher-se de cor e de música, manter o brilho do olhar, carregar-se do espanto da infância. Resta-lhes a hora final e, à boca da urna, deixar então o voto expresso.
Matar só porque (e quando) se tem fome.


