terça-feira, janeiro 30, 2007

Pais Verdadeiros


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.


Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tudo de ensaio

bem esterilizado.


Olhei-a de um lado

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.


Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.


Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume;


nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

António Gedeão


Está hoje um daqueles dias nevoentos e frios, de chuva miudinha, verdadeiro dia invernoso.

De consulta marcada no Centro de Saúde, mal necessário a quem não é pelo menos deputado ou ministro, pela segunda vez o médico faltou. Tem esse direito, é claro como água, apenas eu julgava que os utentes também tivessem o direito de ser informados disso, durante a manhã, já que a consulta era mais tarde. Mas a estes só resta agradecer o facto de não serem obrigados a passar lá a noite para a marcação de consulta, como acontece noutras localidades (no ranking dos 25, nós até estamos em 24º lugar…).

Pois ali fui cumprimentada por uma senhora, mãe de duas meninas gémeas de que em tempos fui directora de turma. Recordo-me bem dessas duas pequenas, de temperamento e capacidades intelectuais diferentes, mas sempre unidas na sua cumplicidade, educadas e cumpridoras. Ao que soube, ambas frequentam actualmente o ensino superior. A mãe é uma senhora que transmite firmeza, segurança, não esconde um orgulho imenso pelas suas filhas.

A empatia estabeleceu-se entre nós por motivo de um qualquer diferendo surgido na época entre duas alunas, já nem posso precisar a questão; quem lida com adolescentes sabe bem como estes podem magoar profundamente alguém sem disso terem consciência, principalmente quando não recebem da parte dos seus educadores o exemplo mais correcto e precavido. Sei que, a este propósito, fiquei a saber que esta senhora não era a mãe biológica das gémeas. Seu marido teria tido um relacionamento ocasional e teria depois ficado com as crianças à nascença, tendo-as registado como filhas do casal.

Quando lhe perguntei agora pelas filhas, os seus olhos brilharam, e porque ainda recordei os nomes, marejaram-se. Eu também me senti comovida por aquele amor intenso que sempre entrevi, aquele desvelo, o orgulho de ter conseguido dar às suas filhas o melhor que para elas almejara. Mostrava um rosto radioso.

Claro que tudo isto vem a propósito de Esmeralda.
Como há coragem para, em nome da justiça, retirar uma criança aos seus pais?
Que justiça?
Que lei?
Que cumprimento de lei?
Como é que se pode explicar a uma criança de menos de cinco anos que os pais
, afinal, não são seus pais?


5 comentários:

veritas disse...

Olá!

Eu sou mãe. E digo que pais verdadeiros são os que amam. Os que dão e estão em todos os momentos da vida. Como se pode amar um filho que não se desejou ou que nunca se viu? Uma mão que nunca se tocou, um choro que não se reconhece ou cujas causas passam despercebidas? Um olhar que não se aprendeu a perscrutar? O amor por um filho não é algo de imutável ou perfectível. Evolui dia a dia, aumenta com a partilha e com o desenvolvimento...

Bjs.

vivererecordar disse...

Pois é amiga!!
Isto de se conseguir uma consulta nos Centros de Saúde e Hospitares neste exemplar País é uma aventura sem tamanho.
O melhor meio creio é uma pessoa filiar-se num partido político.
Os médicos pertencem à classe das profissões priviligiadas, que o nosso governo perfere ignorar ou fingir que está tudo bem, enfim, que fazer?
O Zé Povinho é que anda sempre na corda bamba.
Coitados de nós!!!!

Alien David Sousa disse...

Olá jawaa,antes de mais deixa que te diga que te descobri hoje. Descobri as palavras que deixaste no meu blog e que muito me sensibilizaram. Obrigada. Não sei quando as escreveste, mas só hoje as li. Com a confusão dos comentários e de ter de responder aos visitantes por vezes deixo escapar comentários em textos mais antigos. Mas no momento em que li as tuas palavras tive de te vir conhecer.

O caso da Esmeralda é triste.
"Como é que se pode explicar a uma criança de menos de cinco anos que os pais, afinal, não são seus pais?"

Não se pode!
Explicar a um adulto é simples. Basta dizer: é este o sistema judicial que temos. É um sistema judicial que aplica uma pena de 10 anos a um marido que mata a mulher a sangue frio. Como explicas aos filhos que o valor da vida da mãe são 10 anos? ou no máximo 15 anos? Ah e a pena pode ser reduzida por bom comportamento. É um sistema judicial...que anda a arrastar o caso "casa pia". É um sistema judicial que detém provas de corrupção no futebol mas que não avança e porquê?? Mas que, no caso de uma menina chamada Esmeralda que tinha uma vida boa, resolve - porque um idiota que nunca quiz saber dela o exigiu - estragar este cenário e mandar para a prisão um pai que só lhe deu amor e colocar esta criança nos braços de um que segundo a mãe biológica; se ela soubesse o que sabe hoje nunca teria dito quem era o pai.
Isto não faz sentido, claro que não. Mas é o sistema judicial que temos. E esta menina está a pagar por isso. Como muitas outras pessoas já pagaram. Umas que ouvimos nos noticiários e outras anónimas.
Eu como tu e milhões ansiamos por um desfecho feliz e como este caso está a ser tão mediático eu acredito que este vai ser possível.
No entanto tenho pena daquelas pessoas que não vão ter essa sorte.
Um beijo alienígenas ;)

o alquimista disse...

E a lenda acontece. Em cada noite na Baía do Silêncio queda-se o céu na noite sombria, solta-se o sonho a fantasia...
Luminoso domingo...

Doce e terno beijo

LUA DE LOBOS disse...

é a vergonha em letras gordas e na primeira página
xi
maria de são pedro