segunda-feira, novembro 27, 2006

Kevee


«Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.»

Eugénio de Andrade



Os fenómenos da natureza transmitem-me sempre intranquilidade.

A chuva ansiada que cai sem pejo sobre os indefesos da terra, imparavelmente, em rajadas de vento sucessivas, soando em pingos grossos tombados das goteiras quando esmorece a sua força logo retomada, inquieta-me. Ouço a sua impetuosidade que só aceito por breve tempo; se contínua, sinto-a incontrolável e pressinto os danos.

O mundo em que vivo é pequeno, cada vez mais pequeno e respirar é preciso. Eu também sou um fenómeno da natureza no mesmo sentido em que me sinto por vezes, demasiadas vezes, cada vez mais vezes, fluir sem controle, esbarrando nos telhados duros, escorrendo nas estradas de asfalto, formando rios que arrastam máquinas, casas e gentes.

Sei que é inexorável, e desejável, o meu deslizar em socalcos de serra até à planície, a anhara que ladeia o meu rio, rio que lava as minhas pedras do jade mais fino, guardando em si o resplendor de um arco-íris.

Em sonhos vagueio erecta e só, abaixo da casa grande, sigo a vala que desce até à lagoa e paro antes de lá chegar. Para além do lago começa a mata, mas antes, à direita, a elevação das areias é nítida, as areias brancas donde flui a nascente de águas límpidas e o vale que se estende até ao rio. Ouço a voz dos séculos no suor dos homens que escavaram a mina, nos barcos rumando ao Brasil, não cheios de escravos mas de seixos luzentes, na pedra latina do nome do cota que não seria idoso.

Falto à verdade, eu não estou só. Comigo os seres de raça negra que me embalaram o berço, me limparam as lágrimas, me carregaram aos ombros, me ensinaram a falar com bichos e plantas, a respeitar os seres que me rodeiam, aqueles que me deram a graça, os que me esperaram em vão e os que esperam ainda que faça jus a esse nome que gravo na memória.

É por tudo isso que ainda sobrevivo.

2 comentários:

lembranças disse...

Pelo que interpreto do que escreves, vê-se que és uma grande humanista e orgulho-me de ter assim uma meia-irmã. No meu entender a vida é muito curta e há que aproveitar cada segundo da nossa existência neste mundo cada vez mais sem nexo. Deixa de pensar mais nos outros e arranja tempo e disposição para desfrutares do bom que esta vida ainda nos tem para dar. Reflecte nestas palavras e tenta alegrar o teu espírito porque sei que existem muitas pessoas que estão permanentemente a pensar e a torcer por ti.

amigona disse...

Que boa escolha amiga! Beijo...