domingo, maio 28, 2006

Queimada

Abre Waterland e, desta vez, é facilmente envolvida pela escrita poética, pelas evocações de infância, pela força omnipresente da paisagem do Nordeste inglês, feita de rios, canais e pântanos, de terra permanentemente invadida e reclamada pela água. Cedo irá aprender que no País das Águas a que acaba de chegar, a terra é que invade e reclama o espaço da água, é a escassez de terra em clima ameno que leva os homens a construírem diques e barragens, prolongando mar adentro o território habitável que a inóspita selva do interior lhes recusa.

Helena Marques


Não, não desisti das evocações de infância, só que os dedos nem sempre respondem ao querer do cérebro e, mesmo este, nem sempre quer. Este calor de Maio, demasiado intenso já, situa-me em finais de Agosto, numa outra latitude.

Sem uma aragem, o capim seco da anhara crepitava com o calor, ao sol do meio-dia. De casa, todos tinham ido a uma queimada, para os lados do rio Colongo, participando num gebo aprazado naqueles saudosos fins de tarde, entre meu pai e os outros sèculos da região.

A caçada prometia. Em casa, as mulheres aguardavam. A mim, sem esse estatuto ainda, era-me interdito participar. Razões, mais que sobejas: o fogo era traiçoeiro, o calor era muito e eu não aguentaria a caminhada a pé. E depois, não eram actividades próprias para uma menina...! A revolta contra esse princípio dera pouco a pouco lugar ao comodismo e já nem protestava.

Mas vivia com intensidade esses acontecimentos que tinham lugar uma, no máximo duas vezes por ano. Mal podia esperar elevar-se, lá para os lados da serra, o fogo da queimada que crescia e caminhava no horizonte e já imaginava as peripécias depois contadas pelo serão adiante, já que em tempo de férias havia sempre familiares ou amigos lá por casa.

Eles chegavam então, ao fim da tarde: cansados, suados, queimados do sol e do vento, de espingarda ao ombro e fraldas de fora, derreados, mas felizes. Logo acorria junto de meu pai e meu irmão (na foto). As cartucheiras pendiam nas ancas, ao peso das perdizes e patos que eu me apressava a desprender das argolas.

Mais de meio século passado, num longo, e por vezes doloroso, percurso de existência, nem sempre a alma aceita vaguear por espaços e sentires guardados bem cá no fundo, sem que doa.

Porém, dor é sinal de vida.

1 comentário:

dakidali disse...

Dor é sinal de vida, mas por vezes dói tanto que até se esquece que está vivo.
Beijinhos