terça-feira, julho 31, 2007
Férias...
quinta-feira, julho 26, 2007
CRIANÇA
«Está quase fazendo um ano certo, Iemanjá. É tempo de trazer de volta o meu menino… (leva a mão direita à altura do ouvido, como se escutasse) Está bem, está bem, eu compreendo. Não é todo o dia que aparece no fundo do mar um caboclo como o meu Juca, mas, que diabo, ele podia pelo menos vir passar as festas em casa… Outro dia eu acordei no meio da noite sentindo que o Juca estava querendo falar comigo. Botei no ouvido o caramujo grande que apanhei
António Callado
Criança é um nome de tal modo profundo que dele deveriam ter derivado bem mais nomes, adjectivos, verbos, advérbios, do que os conhecidos. E, principalmente, esses parcos deveriam ser destituídos de algum sentido pejorativo: ter um ar acriançado é algo reprovável, não adaptado ao que seria de esperar de um adulto. O adulto de Saint Exupéry? Les grandes personnes ne comprennent jamais rien toutes seules, et c’est fatigant, pour les enfants, de toujours et toujours leur donner des explications...
Afinal, criança é o ser puro de Rousseau, ainda não contaminado pela sociedade reinante, não tem subterfúgios, não tem medo. O medo, a mentira, dita própria das crianças, vem da sua sagacidade, a autodefesa que se manifesta desde cedo para poder sobreviver no mundo dos adultos.
Quanto ao adulto, ele é tanto mais sedutor, tanto mais interessante, encantador, quanto mais se aproxima do que nunca deverá ter perdido: a simplicidade da infância.
Para alguns é muito difícil voltar às origens. Para muitos, a sua memória marcou-se adulta demasiado cedo, não podem, não sabem, não conhecem. Outros há, porém, que nunca dali saíram, nunca foram além da criança que está dentro, qual felino doméstico que roda pelos telhados, vasculha os tambores do lixo, capta os pássaros no voo, investe sobre as lagartixas e saltaricos dos matos. Mas breve regressa, cândido, cativante, ronronando um mimo, de cauda coleante entre as pernas de quem lhe assegura o sustento.
A criança interior de que fala a Luíza vive dentro de nós e é saudável que assim aconteça, faz-nos bem à alma. Porém, como adultos que somos, há que dourar a nossa criança com a experiência e não acreditar em fadas e duendes, houve tempo para aprender que a Terra do Nunca não existe, não há um carro a puxar o sol, nem há tesouros no fim do arco-íris.
Como já disse antes, sonhar acordado é bonito.
Com os pés na terra, de preferência.
segunda-feira, julho 23, 2007
Tecnologia
«Já seria meia-noite, já uma hora seria
Que um vento se levantou. Plim plão.
No meio da areia fria e feita chão de puro fino cetim
Eu vi.
A noite era escura como esta e como o breu, e eu
Pobre soldado mal pronto de meu cabeçal mal dormido, eu vi.
Desguarnecido de amor e sem madrinha, sem carta, sem bolsinha de
Tesouro
Nem parente neste mundo. Faça com quanta força tiver, Sebastião,
Plão, plão, plão.
Que um vento me disse assim. Ó Edmundo.
Edmundiiinho. Eu venho do outro mundo em busca de ti de ti.
Pssst. Pssssst. Disse eu. Já sei. Plão plim. »
Lídia Jorge


Sonhar é bonito. É bom quando se está bem acordado, manhãzinha, ainda no quente dos lençóis, a programar a vida do dia que chega. Sempre que isso acontece tudo parece mais sereno e custa menos levantar, mesmo quando faz muito frio lá fora, quando o jardim hiberna, a geada queima, quando sinto mais saudade dos que já me deixaram.
Não é o caso porque este tempo é mais doce, o calor mesmo excessivo conforta-me porque, reconheço, tenho o aconchego de uma casa fresca, não tenho de andar à lida à torreira do sol. O tempo quente fala-me da vida, está cheio de sons desde a madrugada, chilreios a anunciar a luz que vai abrindo o dia.
Pela manhã, abrir a janela e ler. Sonhar acordada também; pensar no que tenho para fazer quando não há horários para cumprir. Ou continuar o sonho da noite, desembrulhado de mentiras mas nimbado duma fantasia que o não é menos, quando a distância enrola em fumo os desconcertos, os medos, as solidões da lonjura.
O Google Earth deu-me a certeza de que a minha casa da fazenda continua de pé, altaneira no fundo da anhara, à beira-rio. Não sei se alguém lá mora, mas consigo vislumbrar a silhueta dela que se vê na foto, aqui onde o telhado tem a marca da sua renovação após ter sido atingido por um raio. O Kussava também. O rio e a pedra lisa onde se parava a meio da viagem, das viagens sem conta que fiz entre a cidade e o paraíso, a quarenta loooongos quilómetros de distância.
É que as estradas, ao tempo dessas fotos, não conheciam o asfalto. E os nove meses de chuvas torrenciais não se compadeciam sequer das pontes de cimento, quanto mais dos caminhos, onde a lama alta fazia ziguezaguear os carros sem controle, deixando para o cacimbo verdadeiras crateras, obrigando os condutores a nunca ultrapassarem o limite de velocidade dos 30 km/hora.
Cada viagem, uma odisseia. Nunca viajávamos de noite. Quando muito, madrugada alta, antes da alvorada, nas longas viagens para Luanda.
Fascinam-me as novas tecnologias.
Pena não ter nascido com um chip contador de milhas, teria com certeza direito a uma viagem à volta da Terra.
domingo, julho 15, 2007
Civismo
«… Beauvoir falava da identidade feminina: uma construção imposta por uma sociedade “falocêntrica” que oprime as donzelas ao atribuir papéis de sujeição sexual e moral. Para Beauvoir, derrubar essa sociedade passava por um igualitarismo radical: pelo regresso à nossa condição de humanos e não, nunca, jamais, pela distinção, natural e até cultural, entre “homens” e “mulheres”.
Não pretendo contaminar ninguém com o meu pessimismo de estimação. Mas Beauvoir triunfou. Abrir uma porta ou dar precedência a uma senhora é considerado ofensivo em certos antros, a começar pelos da universidade ocidental. Eu próprio, confesso, já provei deste caldo: quando, insensatamente, levantava-me da mesa sempre que o elemento feminino levantava-se também. Ficava sozinho no campo de batalha, fuzilado pelos olhares
Uma revolução é sempre uma revolução. Quer queiramos ou não, nela se varre o bom e o mau, se a vassourada é de monta. Construir uma nova mentalidade esbarra sempre em obstáculos vários que se vão esboroando como pedras, roladas uma e outra vez, até se desfazerem em areia que o tempo remove.
Nós temos o nosso Abril bem presente, glória de muitos, mágoa de tantos, ainda hoje, volvido o tempo de uma geração. Não é por acaso que num concurso de televisão, de cariz popular, seja Salazar o grande homem para tanta gente, mesmo descontando os votos de uma extrema-direita que usa todos os meios para tentar afirmar-se. Li algures que na República Checa ganhou, num concurso idêntico, um homem que nunca existiu para além do imaginário de um povo martirizado, desejoso de uma figura de relevo capaz de afirmar superiormente uma identidade.
João Pereira Coutinho é um menino; mergulha nos livros e procura interpretar o que o rodeia, com uma intensidade, uma acuidade, uma subtileza, só possível num português conhecedor da sua História, que sabe entornar na prosa a graciosidade e leveza de um país como o Brasil que o acolhe na Folha de S. Paulo.
Deste lado do Atlântico o problema da (falta de) educação mantém-se, eu diria agudiza-se no pior sentido. As escolas particulares vão proliferando a exemplo de outra Europa, as escolas públicas não conseguem dirimir os maus exemplos de uma geração de pais para quem a cultura é sinónimo de dinheiro e apenas isso, os professores não são exemplo nenhum a seguir porque menos bem pagos, e a nossa actual ministra da Educação não mostrou a sensibilidade devida na condução de um processo de reestruturação que era urgente apenas para implementar um processo de avaliação que a maioria dos professores – os que o são por vocação e são muitos – não contesta. Avaliação em relação a professores e alunos. Os sindicatos ajudaram pouco, porque os direitos são sobretudo a dignidade e o respeito. O direito ao trabalho também. Os salários depois, que também contam e os professores não são bem pagos, ao contrário do que se pensa e divulga, principalmente se atendermos a que têm de pagar a sua formação (obrigatória para subir na carreira) e passam pelo menos metade, ou mais, do seu tempo de serviço deslocados da sua residência.
Mas tudo isso é já História para mim.
Falava da outra educação, o civismo que inclui o que se recebe desde o berço.
Saber-me-ia bem hoje o cavalheirismo de outrora, um baixar de cabeça num aperto de mão, um fingir que se levanta na mesa do café, um ceder de cadeira numa qualquer espera de atendimento público, mas esbarro com «os direitos iguais» entre sexos que não são iguais. Iguais no direito ao trabalho sim, chega de «atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher»! Ela tem de estar ao lado e não atrás, parece que neste início de século já alguns intuíram isso: os mais educados, os mais evoluídos, os mais humanos, nem sempre os mais instruídos, menos ainda os mais endinheirados.
Resta-me esperar que os próximos trinta anos sejam mais proficientes na civilidade em relação à natureza, humana e ambiental.
A nossa Mãe-Terra está exaurida.
quarta-feira, julho 11, 2007
Lusofonia

Quem me enviou este poema popular desconhece o autor da recolha, mas não resisto a publicá-lo aqui.
AI SE SEÇE
Se um dia nós se gostaçe
Se um dia nós se quereçe
Se nós dois se impariaçe
Se juntim nós dois viveçe
Se juntim nós dois moraçe
Se juntim nós dois drumiçe
Se juntim nós dois morreçe
Se pro céu nós assubiçe
Mas porém se acontesseçe
Que São Pedro num abriçe
A porta do céu e fosse
Te dizer qualquer tuliçe
E se eu me arriminaçe
E tu com eu insistiçe
Pra que eu me arresolveçe
E a minha faca puxaçe
E o bucho do céu furaçe
Tarvez que nós dois ficaçe
Tarvez que nós dois caiçe
E o céu furado arriaçe
E as virge toda fujiçe.
Zé da Luz
Nota: O título AI SE SEÇE (verbo SER), é do linguajar do matuto (sertanejo, nativo do sertão) que quer dizer mais ou menos: SE ACONTECER...
segunda-feira, julho 09, 2007
Modernidade
«Às vezes tem saudades, Augusta – não
dos filhos nem dos netos, sequer do tempo em que matava gatinhos no quintal das traseiras ou do marido que bebia demais. Não queria ser mais nova do que é, moça bonita outra vez, nem tem vontade de saber nenhuma das coisas que ignora. Quando se senta para descansar as artroses e parece olhar os automóveis que vão e vêm pela marginal, não é o trânsito que vê com os seus olhos de velha. Por detrás dos óculos, os olhos dela sonham regressar a uma terra com um prado verde, semeado de castanheiros e árvores de fruto, videiras e milho. Mas essa terra talvez já nem sequer exista.»
Manuel Jorge Marmelo
Queria tanto saber desenhar…!
Desenhar com mão firme, não como desenho de letras que escrevo e que saem sem que tenha tempo de pensar o que elas representam porque são a continuação do meu pensamento. Registar aqui a rugosidade dos caules, as manchas, ligar-lhes os ramos, as ramadas, contornar-lhes o arredondado das folhas, matizar os verdes, captar-lhes a luz, as sombras, o movimento, o ondear do vento…
Ainda assim encanto-me com a minha eficácia: olho para o papel, olho para estes gatafunhos que escrevo no jardim público, deserto a esta hora de meu horário pessoal. Estranho, mas meu, que me possibilita isto agora.
Quieta, pensar como é maravilhoso o acto de escrever. E constatar que se caminha para uma outra eficácia, em que não será preciso ensinar às crianças a desenhar letras porque elas vão aprender directamente do computador pessoal; mais um tresmalho humano, como a concentração no sentido da visão consumiu a percepção do mundo através do ouvido, do olfacto, do tacto. Que pena! É uma maravilha humana como a história contada nos tapetes antigos dos Andes, algo que ficará na História enquanto houver quem saiba, quem queira, quem possa, quem sobreviva.
Mas dizia eu que gostaria de saber desenhar.
Tive nos primeiros anos de escola uma colega, Marília de sua graça, Marília Rodrigues de Oliveira, que nunca mais vi, mas de quem nunca esqueci as rosas, os botões de rosas, os ramos de rosas, perfeitos, reais, as três folhas nervuradas, tudo a lápis de cor. Ninguém nunca soube desenhar como ela. Ela via as coisas como eu não reparava nelas; naquela altura nós teríamos sete, oito anos no máximo.
Hoje sei que poderia ter aprendido a desenhar. Sei também que teria sido capaz, mas o leito do meu rio desviou-se daquele pequeníssimo obstáculo, o dom da Marília, e outras areias me seduziram, em cascatas me despenhei, em lagoas aquietei minhas águas.
Além disso, cheguei tarde. A tradução da realidade em pintura já não tem lugar, a fotografia chegou superando tudo, a tecnologia actual faz maravilhas – a mim inventa-me irreal, tira-me as cãs, as rugas, os anos, transforma-me em modelo de Modigliani, Mucha, Botticelli – o real, o imaginário, o onírico, em gradações de tons vários, adaptando tudo, convertendo tudo, apagando tudo.
Não é verdade, eu sei.
A mão de quem desenha é a minha mão a riscar um moleskine.
terça-feira, julho 03, 2007
Raízes
«Aqui, a maioria tem vidas chatas, e a política portuguesa é exemplo disso. Por amor de Deus, um povo que se entusiasma a discutir a licenciatura do primeiro-ministro é porque não tem mais nada para discutir!»
José Eduardo Agualusa
Qualquer um de nós tem sempre uma história para contar. Basta abrir o seu cesto mágico: há sempre uma flor, uma luzinha, um relâmpago, uma melodia de embalo – indo eu, indo eu / a caminho de Viseu / encontrei o meu amor / ai Jesus que lá vou eu! –, um esvoaçar de crém-crém, uma história inventada e recontada – da outra vez não era assim… – uma alegria, um alvoroço, um assombramento, um pesar, um ai…
Os portugueses são naturalmente pequenos, não fora o espaço um limite condicionante. Fomos império, agora somos país e periférico, assim se olham e dizem, e acabam sentindo, esquecendo o povo sábio: os homens não se medem aos palmos e, principalmente, um mais castiço: a sardinha quer-se da mais pequenina.
Da mais pequenina porque mais saborosa, a nossa sardinha mais cheia de História, mais cheia de histórias, de estórias. É preciso ler mais, ouvir mais, olhar mais para o que dizem os mais velhos. Não necessariamente voltar ao passado, no sentido saudosista e lacrimejante, mas visitar o passado com ternura, com audácia também. Talvez para condimentar um presente luxuriante, para ter uma base forte, assente em raízes que as temos profundas, para abrirmos os braços ao que chega de novo para juntar ao que temos, não para dividir, para separar, para discriminar.
O Velhote foi o cozinheiro da minha infância na fazenda. Januário Coqueiro de sua graça, minha mãe lhe deu aquele nome carinhoso porque ele foi o seu amigo numa juventude difícil, num tempo de medos, de solidão, de carência, terá sido a Bá que eu vejo agora nas novelas de época brasileiras. Depois, ele era baixote, tinha uma cara bonita, sempre risonha e juncada de rugas, pareceria um velhote, não sendo embora já muito novo na altura, creio.
Desde que nasci fui a sua menina, a quem ele deu o nome do rio que passava perto. Eu gostava de sentar-me junto dele enquanto descascava as batatas para a sopa, enquanto tirava a pele dos tortulhos para os grelhar; ainda o vejo a levar nas mãos as brasas vivas de um lado para outro, sorrindo sempre, rolando-as nelas – não queima, Vió?
Tinha um português difícil, mas eu apreciava as suas histórias toda olhos e ouvidos alerta para o entender, talvez um Matisse olhando para mim procurando compreender quando converso com ele, cachorro. Falava de pedras de ouro que brilhavam ao sol, de um grande caçador cuanhama que chegara com meu pai quando moço; das guerras do Bailundo, de serpentes que se punham de pé para afrontar os homens, de plantas que respondiam aos nossos afagos e, envergonhadas, fechavam as folhas.
Havia em casa uma foto do Velhote comigo, menina de colo, num braço, com um prato na mão e o outro apontando um pássaro debaixo de uma laranjeira, mas não consta do pequeno espólio que minha mãe conseguiu resgatar à descolonização.
Nem é preciso.
O Velhote faleceu, teria eu quinze anos.
Mas ele mora comigo ainda.
segunda-feira, junho 25, 2007
Lugar de Paz
«Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre o laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros socalcos, de um verde pálido de roseda, com oliveira apoucadas pela amplidão dos montes, subiam até outra penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abundância de azul.»
Eça de Queirós
Neste final de semana Joe Berardo invadiu-me a casa, despudoradamente, através das capas das revistas que semanalmente chegam. Um exagero, se tivermos em conta que pelo pior dos motivos, o futebol, o Benfica ainda por cima - logo eu, que tenho um fraquinho pelo Sporting!
Mas Berardo é também muito mais outra coisa, além de querer comprar o Benfica. É o Museu Colecção Berardo – Arte Moderna e Contemporânea no CCB e a Quinta dos Loridos, no coração do Oeste, bem perto da A8, à saída para o Bombarral.
Aqui também uma casa nobre, sem capela à vista; para rezar, duas altas magnólias em flor, oliveiras e sobreiros centenários. À direita, no meio de uma ala, uma porta ornamentada a pedra esculpida, representando a colheita e anunciando os vinhos; um vinhedo extenso, e mais outro além, devidamente ordenado para um regadio dependente de novas tecnologias. Estamos no século XXI.
A imponência prenunciada surge em seguida, quando a Quinta dos Loridos se descobre, reverenciada por duas estátuas enormes de cães orientais em granito, abrindo-se em ruas e estradas entre relvados e pedras e sobreiros centenários e mata de azinheiras, medronheiros, loureiros e olorosas madressilva e murta, esta ponteada agora de florzinhas brancas.
Multiplicam-se pelos caminhos estátuas magníficas em granito e em mármore, levando-nos ao esplendor do Oriente, ícones doutras civilizações que nos deslumbraram cinco séculos atrás. Monges budistas em oração deixam em nós a marca da quietude e singeleza das suas vidas; descendo um pouco, olhamos o lago imenso onde a nobreza da estatuária convive com a singeleza dos patos-reais que por ali aspergem um ruído venturoso.
Para aquele lugar não há palavras. Só sentir.
terça-feira, junho 19, 2007
Depois da chuva
«Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios,
Incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar
Um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um
Oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo…»
Fernando Pessoa
E porque o prometido é devido, aqui vos apresento o novo inquilino do jardim,
habituado já à curiosidade do Matisse e à voz humana.
Ao escurecer, aparece, aqui ou além: Sweet… Sweet…
Já não se enrola sobre si, assustado; mas ainda olha, desconfiado,
depois, segue a sua vida, rumo à horta, a ver das lesmas e caracóis…
quinta-feira, junho 14, 2007
O que fazem os anos
«…Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer…»
Almada Negreiros

Eu tenho alma serrana, sinto-o cá dentro. Estou bem nos cerros do Calpe com Herculano, gosto das penedias e lameiros do Torga, da neve nas serranias do Aquilino. É verdade que me delicio com a Sintra do Eça e me assombro com os Andes de Neruda. Mas os meus olhos ficaram na montanha que acolheu o último dia da ingénua e destemida cabrinha de M. Séguin: nunca os abetos tinham visto nada tão bonito; os castanheiros dobravam-se para acariciá-la com a ponta dos seus ramos, as flores douradas e as campânulas azuis espalhavam perfume em seu redor. Toda a montanha a recebeu em festa! E tanta erva! Ervinha doce, saborosa, fresca, fina, feita de mil sabores...!
Ontem fui ao cabeleireiro e tive de esperar meia hora. Desci ao café renovado, bem no centro, onde não foi possível substituir os empregados gémeos, porque donos da casa, idênticos até no bigode. A doçaria permanece, o pão-de-ló regional e a freguesia: essencialmente mulheres de meia-idade conversam alto, não me atrevo a ouvir o que dizem num timbre de voz análogo, deselegante como os seus corpos que se não escondem ao Verão que chega, mau grado o ar bisonho; na mesa ao lado, uma jovem acende um cigarro e lê a Maria; perto do balcão, uma velhota simpática, pequenina, gorducha, de cabelo grisalho, entrançado e enrolado na nuca, com ar feliz, acompanha a netinha e olha-a embevecida a comer o bolo e a sorver um sumo por uma palhinha às cores.
Há-de haver uma televisão por ali, ou antes, um plasma. Não reparei.
Usei a civilização, como preciso e convém.
Regressei à aldeia.
sexta-feira, junho 08, 2007
Lenço de Namorados
A graça do meu amor
Não a sei eu gosto assim
Ele a mim chama-me flor
Cuidando que sou jasmim
Passarinho meu amigo
Tu sabes de mia senhor?
Voa e leva contigo
A chave do meu amor
Nas tardes longas, cheias de luz, enquanto o calor me deixa sentar no alpendre com os meus paladinos de todas as horas, esgoto o tempo entre o colorido de meadas de linha moulinée, espólio ainda dos anos de África, nos idos cinquenta…
Das tardes de sábado passadas no colégio, enquanto os rapazes frequentavam as aulas de ginástica da Mocidade Portuguesa (meu irmão usava no uniforme um cinto de couro que tinha uma fivela de metal com um S enorme; enquanto o colocava, ia cantarolando: sou soldado socialista soviético se o Salazar soubesse suicidava-se), as meninas preparavam o futuro esperado de donas de casa, mães de família prendadas. Então lá vinha o ponto pé-de-flor (o point-arrière que me valeu uma boa repreensão por não o saber traduzir num texto intitulado Une Petite Ménagère, em que também vi «bois amarelos» em gemas de ovos – jaunes d’oeufs – tal a minha atrapalhação por não ter preparado devidamente o texto em casa!), o ponto de cadeia, o ponto de cruz, o matiz; só mais tarde o cheio e o recorte para o richelieu e as bainhas abertas.
A década seguinte foi a da quebra das amarras, com alegrias, preocupações e dor.
E visto que o saber não ocupa lugar, os pontos ficaram como a tabuada que aprendi de cor aos seis anos. O deleite pelas linhas e linhos permanece, ao longo da vida reencontrei-lhe o gosto, semearam alegria e serviram de arrimo muitas vezes, também marcaram datas.
No Minho, os «lenços de namorados» eram oferecidos pelas raparigas do campo aos seus amados, bordados por elas e com mensagens de amor, a maior parte das vezes escritas numa castiça linguagem popular. A minha filha, que estudou na FACFIL em Braga e com o Minho estabeleceu profundas ligações afectivas, bordei um dia um, hoje emoldurado orgulhosamente à entrada de sua casa.
Chegou a hora de bordar outro, para o filho que ergue o seu ninho longe, mas tem o mesmo direito ao labor da mãe. Aí está, quase pronto; falta o pior, a bainha aberta, em verde, verde, verde, que ele é de esperanças e sportinguista.
Os meus companheiros aproveitam a companhia de jardim com tarefas diferentes: um, corre atrás das borboletas, o outro faz a revista habitual e sistemática: vasculha atrás de cada agapanto a ver se descobre o novo inquilino do jardim, o Sweet, um pequenino ouriço que há dias seguidos parece ter achado este lugar aprazível. Já conhece quem pode incomodá-lo, mas logo mostrou que sabe defender-se.
Quando o encontrar a jeito tiro-lhe uma fotografia e apresento-o.
Assim ele continue por aqui.
sexta-feira, junho 01, 2007
Eutanásia
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
António Ramos Rosa
Pode parecer menos próprio que, em Dia da Criança, eu venha aqui falar de eutanásia, último tabu. Digo último, no sentido de mais recente, porque me recordo de ser adulta, mãe, e comentar, acerca do despudor (o que na altura me parecia) da publicidade passada na televisão: «não tarda, aparecem anúncios sobre preservativos». Eis que a razão forte de Einstein prevalece.
Toco num assunto que cada vez mais me vem sendo presente, sentindo a descida veloz, cada vez mais lesta, para a margem do Hades, onde Caronte me espera na sua barca. Gostaria de embarcar tranquila, serena entregar o óbolo e entrar no nevoeiro eterno, fundir-me nas águas donde provim, deixar a minha força de alma aos que me segurarem a mão na despedida.
Em dia da Criança, é por elas que venho pugnar, quando o país em que vivo me diz todos os dias que há mais pobreza, mais insegurança na velhice, mais necessidade de conforto económico, menos disponibilidade para dedicar a afectos; porém, mais tempo de vida para todos.
E é este espaço de vida que acrescentam a cada um de nós, que me preocupa. Num lugar em que cada vez há mais velhos, mais reformados, mais carenciados, que educação, que medidas estão a ser tomadas para que esse tal espaço seja ainda fecundo, cheio, prazeiroso, doce e reconfortante quando é já cumprido o ciclo da vida?
É preciso a morte para se dar sentido à vida e morrem poucos, poucos nascendo, onde deveriam nascer e morrer muitos. Esta inversão, o desejo atávico do ser humano de encontrar qualquer elixir maravilhoso que o faça viver para sempre, é o cancro do planeta, ele é a célula a abater. Onde é que eu já li, vi, em ficção científica, situações de seres humanos, mareantes eternos do cosmos, aspirando à suprema ventura de deixar de viver?
Não pesam sobre mim preconceitos religiosos, por isso sou a favor da eutanásia, salvaguardados todos, mas todos os requisitos que confirmem a irreversibilidade dum desfecho em sofrimento, da degradação do corpo e da mente, da decadência total e indigna. É um direito que nos assiste, exprimir essa vontade em tempo de lucidez e é ao médico que cabe essa tarefa, só ele tem a percepção correcta do tempo certo, do momento em que já não é mais possível prolongar o que nada é. O Juramento de Hipócrates é uma Bíblia a ser reinterpretada (Einstein outra vez).
Que bom pensar na educação do terceiro milénio com uma amplitude a ultrapassar as questões obsessivas actuais dos jovens e da sexualidade, avançar sem medo nem tabus para a certeza da mortalidade, preparando ao longo da vida essa última fase de vivência em pleno, com respeito, com amor, com liberdade até de decidir consciente e serenamente a sua interrupção, se for esse o caso, conferindo a dignidade devida a todo o ser humano.
sexta-feira, maio 25, 2007
CRIME
Da dor, ao que se sofre com ela, a gradação não vem só dela mas da nossa própria grandeza. Variará com isso a violência do destino? Porque a força de quem sofre estimula a força de quem faz sofrer. Quem está indefeso ou não pode defender-se retrai-nos o impulso à violência. Por isso o sofrimento de uma criança é o que mais nos pode indignar.
Vergílio Ferreira
Um atrelado sem controle o colheu nas areias quentes da terra de Camus, na mesma sua África que lhe dera o primeiro olhar de luz, as primeiras dores, as primícias de amor de adolescente.
A Argélia que nunca conheci o tragou vertiginosamente e feriu sem remissão uma mãe que vi esmorecer por largos oito anos de saudade e melancolia. A solidão instalou-se onde já era seu reino, o fim chegou porque já não havia mais dor.
A alteração das leis da natureza deixa sequelas em todas as vertentes. Nada pode haver de mais atroz do que perder um filho, quando a natureza estipula que sejam os mais novos a substituir os mais idosos. A ceifa antecipada de alguém que não captou da vida todo o seu esplendor, toda a panóplia de vivências, dor e prazer, deixa em nós uma sensação de injustiça tremenda.
Mas tirarem-nos um filho que sabemos vivo, é sofrer tudo isto em duplicado: a própria dor de perda mais a dor sem tamanho do sofrimento do filho ausentado. Deve atingir as raias da loucura.
Acima de todos os males, o nosso país tem sido assolado por vagas sucessivas de casos de pedofilia que revoltam e constrangem qualquer ser minimamente consciente. Tudo em vão.
Continuo a reflectir sobre o que realmente importa na nossa sociedade: o Dinheiro, não a Dignidade humana.
Só a título de exemplo, ontem surgiu a notícia de um médico que foi condenado a vários anos de cadeia por ter burlado a Segurança Social. Muito bem. Crime profundo ter roubado, ter-se assenhoreado do que não lhe pertencia, ter prejudicado o Estado, os outros… enfim.
Provado porém à exaustão que outros médicos abusaram sexualmente de crianças, que senhores embaixadores abusaram sexualmente de crianças, que outros subsistem principescamente com fundos de redes pedófilas, que… – mais não me ocorre, mas não esgotei os exemplos – que acontece a essas pessoas?
Eu respondo: Seguem a sua vida confortavelmente «vigiados», nas suas casas, seus convívios sociais, seus negócios feios para sustentarem os chorudos ordenados dos advogados (em duplo às vezes…) a breve trecho sua reconciliação com mal-entendidos ligeiros…
É CRIME, é CRIME abusar de crianças indefesas, é CRIME e os criminosos deveriam ser severamente castigados!
Onde e como funciona a JUSTIÇA neste país?
sexta-feira, maio 18, 2007
Força da Natureza
Vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa.
Planta em frente, a cerejeira dos
pássaros brancos,
deixa que eles pousem nos ramos e cantem
eternamente,
deixa que nas suas asas de luz eu leia o meu
nome
antes de os relâmpagos acenderem os prados.
Vem aos meus sonhos,
vê os labirintos por onde me perco,
vê os meus países do mar,
vê em cada barco que parte do meu coração,
as viagens que não fiz,
os amores que não tive,
a lua cruel da minha solidão.
José Agostinho Baptista
Os choupos tomaram conta dos campos na sua ânsia reprodutora. No céu revolteiam miríades de flocos contra o azul intenso, enfeitam de arminho as roupagens de pessoas e plantas, cobrem o chão ainda húmido. Bonito de ver, menos de sentir, que entram pelas narinas e por todas as frestas da casa, rastejam para os cantos, para debaixo dos móveis, aderem aos tapetes.
Não resisto a contemplá-los, longamente, através das vidraças.
A minha primavera africana era em Setembro, quando chegavam as primeiras chuvas ao planalto, depois do cacimbo ardente e frio que se arrastava desde Maio. O início das chuvas era o renascer da vida por nove luas de calor e humidade. Fazia-se anunciar por castelos de nimbos crescendo cinzentos, num rugir de longe, caminhando sobre nós e desfazendo-se em bátegas de água poderosíssimas a que nenhuma gabardine ou chapéu-de-chuva fazia frente. A solução era parar, resguardar-se e aguardar que o sol anunciasse o caminho livre.
E era então que do chão subia aquele aroma quente, doce, vivificante, aquele cheiro a terra molhada, os carros, o asfalto, as folhas das árvores brilhantes em reverberações de luz; no céu, a chuva indo, no esplendor do (quantas vezes duplo) arco-íris.
Nos campos, na anhara a esverdecer de capim novo, cresciam os tortulhos e amaduravam os loengos. Então, pelo entardecer, também os morros de salalé, fortalezas áridas e mudas de térmitas, acordavam da sua letargia e delas se evolavam nuvens de formigas aladas, aos milhares, – povoando o céu de andorinhas e morcegos – subindo desajeitadamente com as suas asas enormes pelo tempo possível de voo. Porque, assim que tocavam no chão, logo as perdiam.
A globalização não faz sentido, é contra natura. Só a informação pode ser global, o conhecimento partilhado a todos os níveis, com respeito pela idiossincrasia dos povos, estes, sim, condicionados sempre pela força da natureza.
segunda-feira, maio 14, 2007
Lembrando Cláudia
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
(…)
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…
Na chuva que cessa…
Fernando Pessoa
Encontro-me frequentemente com Fernando Pessoa. Pode parecer, mas ele não é pessoa com quem me identifique, que o encontro demasiado deprimido, desiludido, pessimista enfim.
Porém ferozmente verdadeiro.
Aqui e além eu sou ele, mau grado tudo o mais que nos separa. Tenho assim de aceitá-lo como um dos meus poetas preferidos, tendo então de compreender por que é tão estudado, falado, contestado, referido, cantado, por que tão universal.
No último post, transcrevi Pessoa para contextualizar uma frase sobejamente conhecida por todos, citada por alguns, muitos, sem que saibam de onde foi extraída. É aqui muito mais sentida, muito mais forte, muito mais intensa.
Camões foi grande e permanece, porque cantou todos os males de amor sempre reinventados. Pessoa foi ainda mais fundo, muito mais real, seco, directo, profundo.
Poeta das sensibilidades, das sensações, revejo nele Camus, o eterno étranger que sente, sente, percepciona apenas as sensações, e passa. Passa, sem que reparem nele, sem que vejam na sua figura simples, fugaz, toda a imensidão que lhe vai na alma.
Para alguns, a vida é curta e breve.
O sofrimento é parte das nossas vidas, diz na missa o sacerdote católico.
Ler é evasão, esquecimento breve. Escrever é lenitivo para a dor.
Quem dera hoje a mão de Pessoa!
Mas ele já disse tudo.
quinta-feira, maio 10, 2007
A Pátria de Fernando Pessoa
«Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavras. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho – transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará sentir, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavra inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades; é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»





