quinta-feira, julho 26, 2007

CRIANÇA

«Está quase fazendo um ano certo, Iemanjá. É tempo de trazer de volta o meu menino… (leva a mão direita à altura do ouvido, como se escutasse) Está bem, está bem, eu compreendo. Não é todo o dia que aparece no fundo do mar um caboclo como o meu Juca, mas, que diabo, ele podia pelo menos vir passar as festas em casa… Outro dia eu acordei no meio da noite sentindo que o Juca estava querendo falar comigo. Botei no ouvido o caramujo grande que apanhei em São Conrado e de primeiro pensei que não ia ouvir a voz dele. Só tinha aquele barulhinho de mar manso. Depois a voz do Juca veio vindo lá do fundo dos fundos, meio enrolada, meio assim de mar grosso, meio verde, mas depois estourou clarinha no meu ouvido feito uma onda que levanta os peitos e – tcháaa – rebenta com franqueza na praia.»

António Callado



Criança é um nome de tal modo profundo que dele deveriam ter derivado bem mais nomes, adjectivos, verbos, advérbios, do que os conhecidos. E, principalmente, esses parcos deveriam ser destituídos de algum sentido pejorativo: ter um ar acriançado é algo reprovável, não adaptado ao que seria de esperar de um adulto. O adulto de Saint Exupéry? Les grandes personnes ne comprennent jamais rien toutes seules, et c’est fatigant, pour les enfants, de toujours et toujours leur donner des explications...

Afinal, criança é o ser puro de Rousseau, ainda não contaminado pela sociedade reinante, não tem subterfúgios, não tem medo. O medo, a mentira, dita própria das crianças, vem da sua sagacidade, a autodefesa que se manifesta desde cedo para poder sobreviver no mundo dos adultos.

Quanto ao adulto, ele é tanto mais sedutor, tanto mais interessante, encantador, quanto mais se aproxima do que nunca deverá ter perdido: a simplicidade da infância.

Para alguns é muito difícil voltar às origens. Para muitos, a sua memória marcou-se adulta demasiado cedo, não podem, não sabem, não conhecem. Outros há, porém, que nunca dali saíram, nunca foram além da criança que está dentro, qual felino doméstico que roda pelos telhados, vasculha os tambores do lixo, capta os pássaros no voo, investe sobre as lagartixas e saltaricos dos matos. Mas breve regressa, cândido, cativante, ronronando um mimo, de cauda coleante entre as pernas de quem lhe assegura o sustento.

A criança interior de que fala a Luíza vive dentro de nós e é saudável que assim aconteça, faz-nos bem à alma. Porém, como adultos que somos, há que dourar a nossa criança com a experiência e não acreditar em fadas e duendes, houve tempo para aprender que a Terra do Nunca não existe, não há um carro a puxar o sol, nem há tesouros no fim do arco-íris.

Como já disse antes, sonhar acordado é bonito.

Com os pés na terra, de preferência.

4 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Jawaa
O seu texto sobre a criança tem a qualidade habitual e é uma aproximação ao mesmo tempo maternal
e poética. Eu sou mais céptico quanto à «bondade» intrínseca da criança, mas gostaria de aprofundar
o assunto, sobretudo através de experiências metodologicamente adequadas sobre isso. Trabalhei muito (eu era mais jovem)com os meus sobrinhos e adquiri algumas noções de como se procesa a nossa evolução nessa altura. A minha mulher foi Educadiora de Infância e os dois indagamos sobretudo a escrita gráfica e o modo como ela se condensa, representativa, ao longo dos anos. Talvez o seu texto tenha outro contexto e a montante levante problemas de outro teor. Mas este primeiro contacto nesta vertente pode um dia dar ideias
(com as reservas sobre quem somos encobertos pelo blog...)
Um grande abraço.
Segue correio
Rocha de Sousa

Klatuu o embuçado disse...

Já não há crianças... até estas já nascem velhas...

Dark kiss.

gato vadio disse...

«Que mais se pode gritar a um adulto que asfixia a criança que ainda pode ser na saúde de querer ser melhor todos os dias, que o acorde, que lhe diga Atira a gravata fora, troca o desportivo pelo chaço, as roupas de marca por coisas simples, Sai dos clubes, dos bares, da penumbra e vai apanhar sol nas trombas, Apanha flores, salta um muro, come amoras silvestres, deita-te na relva, olha o céu e repara como não valem nada essas barreiras que o entendimento cedeu à cobardia, à frustração e à preguiça.»

naturalissima disse...

Ler-te é um prazer!
E este texto leva-me a concordar contigo, embora também consiga entender e aceitar o facto de não nascermos com tanta pureza assim.
;-)

Uma bela semana para ti
Daniela