sábado, dezembro 01, 2007

Viver do Sonho


«As quatro velas nos ângulos do caixão, derreadas de cansaço, endireito-as, esforço-me por, pingavam para o chão.

– Por que é que foste para jornalista? Uma vez contaste-me, achei tanta piada. Mas o que tem mais piada é tu acreditares na causa e efeito. Porque primeiro é-se e depois demonstra-se por que se é. E à beira do mar devias ter frio. Sinto-o mesmo aqui. Se fechasses a porta?

A sós contigo. Toda a história do mundo reduzida a mim e a ti. Com muitas circunstâncias adjacentes sem importância nenhuma.»

Vergílio Ferreira




Os sonhos, só porque são sonhos, nunca se assemelham à realidade. Brotam da exaltação do sono num contexto febril: quando são bons, são sempre em versão melhorada do real, quando são maus, são infinitamente piores.

Um dia sonhei a morte de meu pai. Não sei precisar os motivos ou os acontecimentos que o cercaram, situa-se algures pela infância. Recordo apenas que sofri desabaladamente durante meses, senão anos, com a ideia de o perder. Era o tempo em que o meu mundo só fazia sentido com a sua presença, a segurança da sua alegria, a sua imortalidade.

Quando a sua morte me foi anunciada – por ele, por aquela força que nos unia – e, logo a seguir, pelos telefonemas que exigiam a minha presença longos quilómetros além de mim, eu reagi com dor, sim, mas com beatitude, iniciando a vida que se me oferecia com novo espanto, com novas certezas. Afinal com as certezas em que me fui afirmando, a exemplo de tudo o que me transmitira. Não fui ao seu enterro.

As consequências foram devastadoras. Devastadora terá sido também a dor dos que então o acompanharam e nunca me perdoaram a decisão. Lamento e sinto remorso por isso, pelo sofrimento causado aos vivos, mas não me arrependo. Afinal, fui coerente comigo. E com ele. Com o nosso espírito que planava em paz.

Quando acordo numa manhã fria, na certeza dum sol que não aquece, eis que as nuvens marcham caudalosamente e preenchem o espaço antes azul e se enovelam sem chuva, adoçando o ar, em abraços sozinhas, afagando-se.

E o cinza aquece o pinheiro alto que se destaca e, nele, o ninho de Inverno do melro negro.

7 comentários:

M. disse...

Tão bonito, uma vez mais, este teu dizer de ti e do que te toca.

Rui Caetano disse...

Vergílio Ferreira, um dos meus escritores preferidos. O teu texto é muito bonito.

Sant'Ana disse...

O desconsolo na incompreensão dos outros, não se adapta à nossa pele interior, aquela que tem impressões de coisa não falada e apenas registada entre seres que comungam. Tanto de incorência quanto de paz interior. Como entendo... como já passei por situação semelhante.

Muito obrigado pelo carinho deixado em palavras tão bonitas.

Rafael disse...

Hoje pela madrugada sonhei. Sempre sonho nesse período matinal.
O sonho foi ruim, muito ruim. Refletiu em minhas atitudes durante esse domingo.

Cada dia passo a gostar mais desse blog, você escreve duma maneira tão envolvente,gosto desse estilo literário. Gosto também das fotos aqui presente.

Parabéns.

mena m. disse...

Vim aqui agradecer-te as visitas e as palavras que deixaste no meu blog e deparei com este teu post, que me pareceu um déjà-vu.
Também um dia sonhei com a morte do meu pai, para passados muitos anos me vir a confrontar com ela, pressentindo-a quatro dias antes da sua chegada, como que numa anunciação...

Folheei o teu blog, vai ser preciso trazer mais tempo para ler tantas coisas interessantes que aqui encontrei.

Um beijinho de Berlim.

rui disse...

Olá Jawaa

Também nós podemos fazer como as nuvens: envolver as imagens que nos visitam e afagá-las num enorme abraço!

Fica bem
Abraço

Betty Branco Martins disse...

Querida Jawaa


__________________Vergílio Ferreira__________perco-me nas suas palavras


____________os sonhos




têm o "dom" da esperança



___________afagam-nos




___________como nada___só eles





com




"aquele" carinho______[...]




beijO c/ carinhO