sexta-feira, dezembro 14, 2007

Não Esquecer


Estou só. Mas é-me impossível gritar – para quê?

Às vezes, mas raramente, o grito sobe, enrola-se-me na garganta e o mundo recua bruscamente para uma estranheza absurda. Mas é raro e tudo reflui de novo como uma pedra que subisse muito alto e desistisse no fim. E ainda bem, porque os sentimentos são um vício – ou não? O povo diz «o comer e o ralhar vai do começar». Mas tudo vai do começar: o amor o ódio, o choro, a ternura, o medo.»

Vergílio Ferreira



Não me apetece escrever.

A geada cai despudoradamente sobre tudo o que sobra do jardim, garimpando pelas sombras até manhã bem alta. O sol corre baixo, muito baixo, e ilumina os dias até ao fim de tarde chegando cedo, que a noite impera.

Sei que os homens inventaram o Natal colorido, as árvores gigantes, o brilho das luzes que enfeitam as ruas, que fazem sonhar as crianças e esquecer os adultos das outras, famintas, de barriga crescida e ossos salientes, que a Cimeira de África na Europa prometeu não esquecer.

Mas não esquecer é um pouco diferente de lembrar, que lembranças são algo que existe, que tem corpo, seja uma rosa, seja uma daquelas Torres Eiffel pequeninas que até serve de lima para as unhas, seja uma tartaruga de jade que significa longevidade e se compra em Chinatown para recordação, seja o que está bem guardado nos escaninhos da memória. Sempre algo palpável.

Não esquecer é uma coisa mais vaga. Há demasiadas coisas misturadas para «lembrar de não esquecer». É assim como uma prateleira de várias estantes onde há muitos livros, novos, antigos, de capas brilhantes e outros já sem lombada, à mistura com bibelots, fotografias, caixas com novelos de linha, dicionários, dossiers, cds, até um candeeiro. Porventura o mais valioso, o mais urgente para ser lembrado está naqueles livros cuja lombada já nem é, que é preciso manusear com cuidado, de papel escuro e baço. Aí a maior riqueza a não esquecer.

Mas essa urgência de encadernar os livros antigos é disfarçada pelas molduras de exóticos trajes de nómada, de negros de óculos brilhantes e pele luzidia, de senhores que se eternizam no poder de esmagar os mais fracos.

Que mão tem força para os afastar e encadernar os livros?



8 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Amiga Jawaa,
Venho porque entre o «não me ape- tecer escrever» e depois escrever com a mansa e dorida excelência deste texto, acontece ou o enigma da criação ou um dos paradoxos dela.
Como é gratificante ver citado des-
ta maneira um Vergílio Ferreira já a deslizar no esquecimento dos ilu-
minados. E ele sabia o que era esperar pela palavra, sabia quem era o artista, sabia a vida dos que
sofriam a indagar a existência e a omitir o poder desprezível.
Sinto-a, a si, pelo texto que es-
creveu,ainda magoada com os embus-
tes que se escondem atrás do cená-
rio que afinal cerca o nosso espa-
ço com novas castrações.
Voltarei sempre
Rocha de Sousa

Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael disse...

Não intendi ao certo o quê escreveu.
Gostei de alguns trechos do texto.

Seria uma honra ter dicas, da sua pessoal, para melhorar a minha escrita.

meu e-mail do msn é: grapiunense@hotmail.com

já o de uso para blogger é: grapiunense@gmail.com

Desde já, obrigado pela atenção

rui disse...

Olá Jawaa

Ao teu jeito e cheio de profundidade!
O encanto aparente que por vezes mascara a rudeza da vida.

Grande abraço

Kalinka disse...

Vou começando, aos poucos a deixar umas imagens alusivas ao Natal.
Estamos em contagem decrescente. Mas, vou sabendo de coisas, e gostaria de as divulgar, quem sabe, vos possa interessar alguma delas?
Daí que o título seja:
SABIA QUE...

OLÁ JAWAA
Excelente texto.
Parabéns.

FESTAS FELIZES.

Kalinka disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. disse...

"Não me apetece escrever.", dizes tu. Como seria se te apetecesse?...

Rafael Velasquez disse...

é necessário tirar forças...
é necessário que escrevas...
é necassário que seja necessário.