terça-feira, julho 11, 2006

Ser Professor

Minha Mãe, Minha Mãe, ai que saudade imensa
Do tempo em que eu ajoelhava orando ao pé de ti!
Caía mansa a noite e as andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares
Suspensos do beiral da casa onde nasci…


Guerra Junqueiro




O sonho de sua vida foi ser Professora.
Foi apenas Mãe.

Mãe e pedagoga sempre, mister que exerceu sobre sua irmã mais nova que ajudou a criar, sobre os seus filhos a quem ensinou as primeiras letras, sobre os filhos dos empregados, sobre as afilhadas também, a quem ensinava prendas domésticas.

Foi a minha mestra de vida. Tinha ânsia de aprender coisas novas, mas não se esgotava aí. Recordo, muito pequena, as lições que ela recebia em casa para criar paisagens sobre vidro com pratas coloridas e frisadas que se guardavam dos bombons e ela aplicava, contornando a tinta preta, eventualmente com técnicas semelhantes às dos vitrais. Nunca concluiu nenhum.

Dentro de nós há um tesouro imenso. Como uma velha arca, é preciso de quando em vez ali resgatar o que precisamos para nosso equilíbrio, para a compreensão do que nos vai cercando e envolvendo e enredando ao longo dos anos. Nós nascemos de um novelo que mãos hábeis teceram e matizaram e a que a máquina da vida avivou, depois desbotou cores, foi encolhendo e deformando.

Com ela aprendi que um professor é sempre um farol, mesmo quando a sua luz intermitente deixou de acender. Ele continua lá, no fundo do cabo, altaneiro. Eu estudei «Os Lusíadas» por uma edição fantástica que não voltei a encontrar, tendo em cada voltar de folha, do lado esquerdo, duas estrofes do poema; do lado direito, as mesmas, escritas em linguagem corrente e, em rodapé, todas as notas explicativas dos deuses, de cada figura de estilo ou linguagem. Era de minha mãe e tinha-lhe sido oferecido por um professor que ela verdadeiramente venerava, ainda hoje me não perdoo de o não ter comigo.

Eu fui professora por acidente, não porque tivesse sido um sonho de menina. Décadas cumpridas, terei deixado decerto algumas pegadas na senda que trilhei, com dedicação, com entrega, com amor, também com orgulho. Terei concretizado o sonho de minha Mãe.

Dos meus professores, tenho saudades. Dos que me amaram e já partiram, ficam as cartas e as lembranças. Um livro da colecção Manecas, a «Bela Adormecida» com uma dedicatória em letra elegante e firme, escrita a tinta azul “À I, como prémio da sua dedicação ao estudo” da minha professora da instrução primária; ela me entregou para a Língua Portuguesa e Latim, a um querido e já saudoso amigo, e ambos mantivemos ao longo da vida laços de ternura e admiração mútuas. Deixo alguns excertos de cartas que conservo na minha arca.

«Lembrar-vos é reentrar no longe do tempo e de Angola, e ligar, na lembrança, o então com o hoje. Mas lá, era a mesma terra, posto que grande; cá, são diferentes as terras, posto que pequenas as distâncias. Vejo-a sempre como aluna estimável e amiga, no pólo já distante da minha idade, que me vai empurrando.»

«…Dirijo-me assim, discriminadamente; não, porém, no afecto e na amizade, que todos merecem, plena e inteira. A vossa carta, I, vem cheia de amizade, que muito nos toca e muito sentimos. E mais ainda, por a sabermos antiga e a vermos preservada e até reforçada, como se não interposta por alguns anos decorridos.»

«… Mas este almoço, para mim, não reuniu apenas dois amigos: ele trouxe uma antiga aluna, prezada sempre e sempre querida; e um antigo colega, sempre brioso e brilhante, com quem tive o prazer de partilhar tarefas e aprender lições e experiências ricas e úteis. À I, que sempre prezei e prezo como se fosse filha…»

É preciso tempo, é preciso distância, para descobrir a serenidade, a generosidade, a excelência de um Professor. Quem olha para trás e não viu, é porque não soube aprender. Para mim, ser Professor, continua a ser uma honra, mau grado as indignidades que actualmente incorrem sobre a profissão. No fim da minha carreira, queria sair sem mágoa. E quero ter sido um farol. Pela dedicação, pela hombridade, pelo sofrimento.

Porque o mundo está em mutação, um Professor tem de mudar muitas coisas, mas não pode deixar de ser um farol.

Ali. Firme. Solitário. Majestoso. No nevoeiro, a guiar os mareantes.

4 comentários:

Oxale disse...

Minha Amiga (permita-me que reivindique a sua amizade),
Não posso afirmar que a descubro no que escreve, não, confirmo-a! Inteira!

dakidali disse...

Claro que foi farol, claro que deixou pegadas, pena é que haja gente que consegue que Professores desistam daquilo que sempre gostaram de fazer por se sentirem já com poucas forças para lutar e reevindicar.
Parcida com a Mãe...
Beijinhos

PINGO disse...

Definitivamente estou seu fã! Nem sempre venho cá, mas quando venho, leio tudo! É dificil parar de ler e "ver" tudo o que escreve.
Muito orgulhoso por conhecer essas mãos que escrevem e tudo sabem fazer bem feito.
Bjo.
Pingo

jawaa disse...

Os meus fãs não são muitos, mas são de uma qualidade que excede tudo! Obrigada pelas palavras bonitas, TT amiga, Pingo que é um bocadinho meu filho tbém e Oxale que eu quase adivinho... colega (e aluna)?
Beijinhos