terça-feira, julho 04, 2006

Para o Rapazito

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos... falei-lhe de amor...
e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um monangamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim…

Viriato da Cruz

8 comentários:

planaltobie disse...

Já ando atrás deste poema há tempo!
thanks menina!

Cangonja disse...

Este é um dos mais belos poemas da literatura angolana!
Um bj

dakidali disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
dakidali disse...

Fui eu que removi o comentário. Enganei-me. A parte final não me é totalmente desconhecida, não sabia que era de um poeta Angolano mas gostei de o ler.
Tem dedicatória no meu sítio.
Beijinhos

naturalissima disse...

Belo. Muito belo.
Muito bem escolhido.
Logo de incio se sente um clima, um cheiro, uma sensualidade muito própria de África.
Fez-me lembrar alguns momentos, quando vivi em Moçambique.

Um beijinho
Daniela

greentea disse...

gosto imenso desta canção
e muitas vezes lhe faço referencia....

beijinhos

jorgesteves disse...

É curioso que agora o meu saber hesite: foi o Acaso que me trouxe aqui ou, por qualquer sortilégio, me chegaram brisas de iodo deste mar?
Indiferente. Li palavras na torrente abaixo e, aqui, sobre a areia, escrevo promessas de voltar. Agradável visita!

jorgesteves

jawaa disse...

Estou sensibilizada com as palavras bonitas que me dirigem, obrigada a todos. Eu também gosto particularmente deste poema, daí tê-lo dedicado a meu filho e pena tenho não saber ainda como postar a música que tenho aqui gravada, do Sérgio Godinho.Daquidali tem de vir até aqui para me dar uma mãozinha...
Bjs