domingo, julho 02, 2006

Amizade é assim...

«Je ne pouvais rien voir avec indifférence;
Mes yeux étaient frappés d’un papillon nouveau:
Cet insecte, disais-je, est sorti du tombeau,
De sa cendre féconde il tire un nouvel être;
La nature à tous deux nous permit de renaître (…)

(…) J’allais me pénétrer des rayons de l’aurore;
j’allais jouir du jour avant qu’il pût éclore:
j’étais pressé de voir, pressé de me livrer
au plaisir de sentir, de vivre, et d’admirer.»

Saint-Lambert























Posso dizer que não tive adolescência. E prefiro a simplicidade desta frase, a adjectivar uma palavra tão forte, imensa.

Passei sem transição da infância à idade adulta mercê de condicionalismos endógenos, com dor. Mas a infância ficou intacta e permanece nos encontros mais ou menos espaçados, em que ela emerge com a cumplicidade dum oaristo.




Na primeira imagem, eu e o Tonando não fazíamos ainda parte dos vivos, chegámos depois. Olhando para a segunda, fora do tempo e do espaço, vejo a melancolia dos olhos lindos de meu irmão e a Teté, a amiga mais velha que era preciso copiar nas maneiras, na serenidade, na docilidade, na placidez. Três anos é uma grande diferença quando se tem oito, dez anos, quando o espírito não se ocupa dos mesmos anseios.

Morávamos nessa época numa casa recém-construída na cidade alta, quando os eucaliptos ainda chegavam perto e se ouviam os sapos à noite, entre as chamadas frequentes do quartel a que chamávamos Bateria - alerta!...alerta está! - e o Tonando ficou connosco a finalizar o ano lectivo pela mudança de residência dos pais para o Lobito. Foi o que melhor me aconteceu na adaptação ao lugar ainda ermo, com uma casa aqui e além, os correios que se viam ao longe, por entre o campo de cosmos onde colhíamos as flores por abrir, colocando lágrimas nos olhos e correndo junto de minha mãe para preocupá-la e rir depois.

Os dois conseguimos junto de sua avó Micaela uma amoreira enorme para se plantar no quintal, já cheia de folhas, muitas folhas, e pronta a desfazer-se em amoras. Acontece que trouxéramos do colégio umas pequeninas lagartas de bicho-da-seda para apreciarmos em casa o seu desenvolvimento. Minha mãe exigiu que se fizesse a experiência fora de portas e com isso apenas conseguimos levar a bom termo uma borboleta que pôs centenas de ovinhos sobre uma folha de papel branca, onde fazíamos rodinhas com um lápis para podermos contá-los.

Para minha mãe, estava terminada a experiência; para nós, meu irmão incluído, não! Perante a irredutibilidade da decisão materna, havia que contornar o facto. Colocámos então os ovos, bem protegidos, dentro de uma caixa de sapatos, tapada, e escondemo-la debaixo da cama onde dormiam os dois rapazes. O quarto de meu irmão tinha uma janela onde entrava o sol pela manhã. Ora as lagartas entretanto nascidas, precisavam de sol e ar para se desenvolverem convenientemente. Devidamente alimentadas com as folhas de amoreira e arejadas depois de montada uma escala de vigilância, um dentro do quarto, outro do lado de fora da janela para que não fôssemos apanhados, de mínimos fios negros se fizeram amarelinhas e riscadas, enormes, gordas. Para que tal se processasse nas condições devidas, mudámos de caixa e cada um de nós estava permanentemente alerta para as investidas de limpeza ao fim de semana.

Em breve começaram a tecer casulos nos cantos da caixa, no meio, onde podiam. Nós abrandámos então a vigilância, pois não havia necessidade de alimento nem sol e, crianças que éramos, a caixa caiu no esquecimento. Chegou o malfadado dia de limpeza e a dita foi de imediato confiscada, com o sermão do costume, desta vez para os três.

O pior veio depois: os bichos-da-seda, muiiiiiiiiiiiiiiiiiiitos bichos-da-seda, tinham saído sorrateiramente da caixa, ido à procura de mais espaço para tecer os seus fios em tudo quanto era canto debaixo da cama, das mesas-de-cabeceira, da estante, até dentro do guarda-fatos se encontraram casulos!

A amizade é isto. Conquanto tenha seguido outras veredas da vida, recusando a guerra de África após o fim do curso e só regressado após o 25 de Abril, o Tonando vive comigo nestas histórias, relembradas hoje e sempre na amizade da família, cimentada ao longo das décadas, desde o fundo dos tempos.


3 comentários:

dakidali disse...

Se um dia não passar isto tudo para um livro, não sei o que lhe faço.
Rega-me a alma lê-la.
Beijinhos

jawaa disse...

A TT tem sido corresponsável nisto.
É uma amiga leal, cultiva as suas amizades e mima-as e eu admiro-a nisso. Eu já disse que prezo muito a amizade, é um sentimento muito bonito que nos faz bem à alma.
Beijinho

Cangonja disse...

Amoras, bichos-da-seda...
Lindo!