segunda-feira, julho 24, 2006

Ainda a Língua Portuguesa

«Toda a gente gosta de saber, e muitas vezes pergunta, se existiu e quem era na realidade tal personagem romanesca. Mas nunca ninguém perguntou o que era na realidade uma pedra depois de ela ser estátua.»

Virgílio Ferreira



Acompanhar a adolescência de grupos de jovens de espírito inquieto, de que destaco o Quinzé, com ele outro José e um João, dos quais a inteligência, a argúcia e a sensibilidade deixaram marcas na minha (re)construção, em tempos de alguma má memória do meu processo de vida, terá sido um privilégio. Na arte, na economia e na saúde, eles brilham algures, ainda com o fulgor da juventude, a exemplo de muitos outros, alguns deles meus actuais distintos colegas de trabalho, que muito prezo.

Com emoção encontro esporadicamente Joaquim Sapinho, desta vez em entrevista ao Público dada a propósito dos seus «Diários da Bósnia», que não tive oportunidade de ver, mas que a crítica enaltece.

Da sua entrevista destaco: «Uma comunidade fortíssima é precisamente a dos judeus portugueses, marranos. E eu cheguei a Sarajevo e encontrei pessoas que falam português, não se pode imaginar a emoção que isso é. Tive a noção clara de que, quando a nossa língua desaparecesse em todo o mundo, haveria pequenas comunidades judaicas que continuariam a falar português»

Numa altura em que se comemoram 10 anos sobre a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vem a propósito lembrar que a comunidade lusófona não nasceu há 10 anos, ela nasceu há séculos, quando os nossos navegadores demandaram o além-mar. Li, algures, que a China já deu a saber que gostaria que Macau entrasse como membro-observador da CPLP, a que não será estranho, decerto, o grande interesse económico que tal representa para esta potência emergente que se propõe reconstruir a linha mestra da economia angolana, o Caminho de Ferro de Benguela, que atravessa o país em todas as suas longitudes.

Parece que os membros desta Comunidade ainda não perceberam o óbvio: os países de língua portuguesa poderiam impor-se ao mundo, não pela violência, mas pelo desenvolvimento da sua economia – para a solidariedade – e da empatia natural dos povos, unidos já por tanta coisa bonita: artes, cultura, desporto, gastronomia, pela grandiosidade de um idioma comum. Assim tivessem a coragem de esquecer quezílias, assumir a sua condição incontornável de nações livres e autónomas e, principalmente, deixassem de olhar apenas para o seu umbigo.

Já o disse aqui e repito-o: Portugal não é só parte da Europa, é também, e principalmente, do Mundo Lusófono.

3 comentários:

Choninha disse...

"Hoje sou feliz só porque olho para trás e não quero repetir o tempo.

Não seria capaz."


"Acompanhar a adolescência de grupos de jovens de espírito inquieto, de que destaco o Quinzé, com ele outro José e um João, dos quais a inteligência, a argúcia e a sensibilidade deixaram marcas na minha (re)construção, em tempos de alguma má memória do meu processo de vida, terá sido um privilégio."


O passado não se repete (ainda bem, chiça!), mas é importante. Somos uma soma. Do que ficou para trás, do que é e do que vem.

E tens toda a razão. Ainda há semanas pensava nisso. A única coisa que nos une é a linguagem. Não é a pátria (soa a estado novo), não é a bandeira escarrapachada nas janelas, é o som da nossa língua. Em 1990 fiquei emocionada e abracei-me a uns brasileiros na antiga Checoslováquia. Cansada de nem inglês ouvir aquele som foi mágico! Naquele momento fomos irmãos!


Mas já agora, para que serve a CPLP? Não será uma utopia unilateral? Tipo Portugal é mãe-pátria, da tanga!, e a malta mama uns subsidios? Moçambique já não fala português. Timor idem. Angola já se sabe e o Brasil não compreende português de Portugal.
Corrige-me se estiver errada.

jawaa disse...

Infelizmente não corrijo, não. Claro que a CPLP é uma treta, quero dizer, teta. E só não seria uma utopia se tivesse à frente pessoas suficientemente loucas e capazes que sentissem mesmo que «a minha pátria é a língua portuguesa»...

Ni disse...

Vim espreitar e deixar beijinhos doces.Boas férias.