segunda-feira, junho 12, 2006

O rio que eu sou

Admiro a tecedora porque tem consentido
que a assemelhem à poesia.
Mesmo com os cílios a perturbar-lhe
o movimento dos fios e os dedos
tocados por uma estranha resignação
ela tece os caudais líquidos
que escorrem na sensibilidade do poeta
desde que era criança…

Fiama Hasse Pais Brandão




O registo da escrita nasce muitas vezes na suavidade das manhãs sem sono. As madrugadas frias em que o calor da cama é menos doce sem o reviver de sonhos que já nem são, porque já o foram. Na solidão dessas manhãs mal despertas ainda, antes do chilrear dos pássaros que acordam antes do dia abrir, eu desperto e perpassa nos meus pensamentos a doçura da infância, na saudade dos que não vivem mais e que foram o nosso esteio na vida, os que fizemos sofrer e ser felizes connosco.

Tecer a vida é tecer os sonhos também, é desfazê-los inúmeras vezes porque não podemos controlá-los ou não fossem eles devaneios da mente.

A fazenda, onde meu pai labutou grande parte da sua vida em África, era plantada à beira Queve e eu recebi desde o berço essa graça pelos nativos. Quevee, menina Quevee, assim era chamada com carinho por quem me quis bem, por quem sempre me cuidou e acarinhou desde que me lembro de mim. Foram eles que me ensinaram o que é a ternura e a doçura do trato, que os anos me fizeram perder há muito, para que pudesse sobreviver. E é dessa delicadeza, dessa suavidade, dessa simplicidade de quem está de bem com a vida, de quem dá porque ama e só por isso, que sinto hoje saudade.

Há dias, por acidente, fui parar à Sanzangola à procura do poema mais lindo de Agostinho Neto, de que tive um disco cantado sentidamente por Rui Mingas. Era um velho single que trouxe comigo no regresso de Angola, tinha também o Monangambé e o Carro de Bois. Resta-me a capa, que o disco desapareceu há anos como por encanto. Pois foi ali que encontrei estas imagens lindas de «mim», que me deliciaram, me comoveram, e que partilho com quem pousar por aqui.

Este é o rio da minha aldeia, este é o rio onde voei à beira-rio, quando me sentia uma viuvinha-de-rabo-comprido, vergando os capinzais da margem com o peso da minha cauda negra e brilhante, quando desejava no íntimo ser java, cruzar aos céus e descer nas águas a meu bel-prazer.

2 comentários:

dakidali disse...

Eu bem que sempre desconfiei que vinha de gente fazendeira, gente rica de alma e coração, amiga, sincera e educada.
Como a sua infância e juventude devem ter sido plenas de felicidade.
Angola lá perdeu, ainda bem, eh, eh.
Beijinhos marotos.

planaltobie disse...

Um beijo Jawaa por tudo o que diz. E um abraço ao Cota.