segunda-feira, outubro 24, 2011

Perspectivas

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Eugénio de Andrade



Sensivelmente a meio da Ilha, não do lado do mar batido mas do interior da baía, havia um casco velhíssimo de navio junto à praia, meio coberto de areia, com uma grande parte fora de água na maré baixa, a ferrugem roendo a pintar os ferros de acobreado.

A água era límpida e os meus olhos não viam o navio, não questionavam a sua presença ali, se algum naufrágio, se gentes perecendo numa qualquer faina ou que memórias guardava aquele esqueleto onde agora se construía vida.

Eu passava sobre a água em equilíbrio por sobre os ferros até onde podia, o mais longe possível da praia sem ondas, olhando fascinada o mundo agitado que se processava por baixo de mim, pequena deusa olhando aqueles esconderijos, nichos, onde os peixes deslizavam velozmente por entre os ferros esburacados, mexilhões e lapas cobrindo tudo como musgo a adoçar as ruínas na terra, ouriços e estrelas do mar pousados no fundo de areia clara.

Registo na memória, dessa época,  aquele quadro sem cores, e gostaria de olhá-lo, olhar-me de outra forma, em uma outra perspectiva. Com o assombro me percorreu quando me vi diante de uma imagem de um ramo de jarros, flores completamente brancas, e percebi que deveria concentrar-me para o desenhar, não nas flores, mas no sombreado em volta delas, apenas nisso, para que elas emergissem na sua brancura, sem que o papel fosse maculado.

Ver o mundo do avesso é um exercício que deveríamos praticar com mais frequência: olhar o mundo como deuses, o planeta azul rolando na escuridão do cosmos, ou sentir-se bicho, árvore, pedra milenar, acossado pela insatisfação dos homens. O resultado final será certamente o pretendido, a gravura perfeita até uma nova era que já não será a nossa.


sábado, outubro 15, 2011

Ser escritor

Há quem me pergunte na rua
se eu sou quem sou, e eu não sei responder,
porque eu já não sou quem fui
nem sei quem irei ser, e odeio as rimas,
iguais a esta, que se intrometem no texto
empurrando-o para o lado da música, traiçoeiras,
como se daí pudesse vir redenção ou resgate.
Eu não sei quem sou, nem que alma tenho,
ou sequer se a tenho, e, no caso de o saber,
se deva confessá-lo de forma a que possa
ser lido, repetido e usado contra mim. Eu não sei nada.
José Jorge Letria



Encontrei Lobo Antunes ontem, por um acaso da novas tecnologias, ao virar da rua que elas me trazem para dento de casa. Sereno como sempre o conheci, olhos demasiado azuis, falando devagar misturado nos livros das estantes e no fumo do cigarro a marcar a diferença.

Dizia Cultura, disse Cultura muitas vezes, e como em Portugal se tem medo da Cultura, a cultura com maiúscula porque esta palavra, além de aculturada por outras vertentes tem rios de significados. Falava de Flaubert quando comecei a ouvi-lo; como Flaubert, que morreu aos 59 anos, passou grande parte da sua vida a odiar Bovary, porque cedo deu conta de que ela iria permanecer depois dele, ela, simples personagem criada por si, ainda por cima uma p. Leituras pessoais.

Ficou escrito que Flaubert viveu sim, incomodado, perseguido pela personagem que criara porque ela tomou forma, cresceu e ofuscou - principalmente isso - ofuscou todo o resto da sua produção literária, obras maiores escritas depois de Mme Bovary.

Nem sempre, quase nunca, o próprio escritor sabe, pode, avaliar o valor maior ou menor de uma obra sua em relação às outras. Como um pintor ou um escultor ou realizador de qualquer outra obra de arte. Cada uma diz respeito a um tempo próprio e marca a evolução do seu autor como pessoa, transmite o seu processo de aprendizagem e leitura do mundo num momento dado do seu percurso de vida. Cada uma avulta num dado momento do mundo, porque mais convincente, mais condizente com a época.

Lobo Antunes é um senhor. Pode dizer o que quiser. Reconhecido em vida como um dos maiores, senão mesmo o maior escritor vivo português dada a extensão e repercussão da sua obra já produzida, Lobo Antunes disse naturalmente, sem humildade mas também sem acinte, a maior das verdades: escrever livros não é sinónimo de ser-se escritor.

domingo, outubro 09, 2011

Constatação


A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que está tudo escrito anula-nos ou envaidece-nos. Conheço distritos onde os jovens se ajoelham diante dos livros e lhes beijam barbaramente as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra. As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações, que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio já ter mencionado os suicídios, de ano para ano cada vez mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana — a única — está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.

Jorge Luís Borges in «A Biblioteca de Babel»






Passei, esta semana que finda, junto ao número 107 da Rua dos Heróis da Grande Guerra, em Caldas da Rainha, e fiquei triste. 
Sabia que a livraria 107 fechava as portas no fim de Setembro, mas ver a porta cerrada a lembrar tudo o que se perdeu, ler as palavras de despedida de Isabel Castanheira, fez-me sentir triste, triste. Sempre conhecera ali aquele espaço carregado de livros até ao tecto, um espaço estreito e fundo onde os senhores eram mesmo os livros. Os livros e os gatos com nomes de autores, caricaturas de Bordalo e de bichos mitológicos, fotografias de escritores, vigiando tudo.

Não foi a primeira que fechou naquela cidade, mas aquela, a mais antiga, a livraria de referência desde há décadas, por iniciativa de uma jovem batalhadora até ao limite, foi mais dorida. Não foi possível combater as sucessivas batalhas contra o desinteresse, a iliteracia crescente, contra os lugares de consumo de outros bens, as estações de correios, as grandes superfícies, os supermercados das pequenas cidades onde as prateleiras de livros se alinham constrangedoramente junto ao local de venda de peixe e de carne, onde as pessoas se demoram à espera do número da ficha que têm guardada na mão.

A cultura tentando assim chegar a todos, tentando seduzir os que dela se distanciam, porque a cultura custa dinheiro em Portugal. E ainda por cima com os museus a deixarem de ter entrada livre aos domingos. Quem lá ia por gosto, com poucos cobres no bolso, deixa de ir, porque há outras necessidades mais prementes, há bocas pequenas e grandes para alimentar em casa.

Perante uma tão insólita medida, só me ocorre concluir que esta medida vai desagravar poderosamente o défice do Estado, vai reduzir significativamente a dívida soberana, e vai com certeza tornar os pobres ainda mais pobres.

Assim se alcançam objectivos.
 

quarta-feira, setembro 28, 2011

Coincidências



Há dois ou três anos, ao contrário da minha ausência nos espelhos, para onde olhava por vezes sem formar a percepção do meu rosto, comecei a deter-me nos lugares onde esses misteriosos objectos me fitam, imobilizando a face e os olhos. Queria rodar os olhos e ter consciência disso, mas só dava por eles depois de parados, atrasada irremediavelmente a minha percepção ao apropriar-se, enfim, dessa imagem. Agora, como acontece com a pele das mãos, outros sinais e mudanças vieram alterar a identidade anterior deste rosto que eu espreitava num rápido reconhecimento. De frente para mim, o que vejo, surpreendido, é outra pessoa, é outra face, embora a experiência de dezenas de anos me diga que ninguém pode, neste instante, subtrair o retorno da minha imagem à consciência que consegue ainda reconhecer-me. 

Rocha de Sousa in «Coincidências Voluntárias» 


A figuração do mundo é o retrato de nós. 

É o espelho primeiro antes de encontrarmos a água plana e rasa de um lago onde mora o espanto da figura de ser humano que acena e nos traz de volta o que nem sempre coincide com o modelo que antes nos construíramos por dentro. Esse primeiro encontro pode ser determinante, eu diria que é sempre determinante no acabamento dos interiores de nós, no acerto dos tons da pintura, o desenho das sancas do tecto, os azulejos, o mosaico hidráulico, a madeira do chão que pisamos pelo resto dos nossos dias. 

Vem-me à ideia aquela estreita tábua de madeira grossa, quando não apenas um tronco, que eu atravessava lesta e sem receio, colocada sobre um qualquer regato ou vala acidental, nas caçadas às perdizes com meu pai, pelas madrugadas frias ou pela tardinha no capim ainda morno do sol forte de cacimbo. O equilíbrio inato do ser que caminha erecto sobre os membros posteriores, braços abertos como asas planando no espaço.

Em cada momento, é o mundo em volta que nos modela a imagem, como as dunas sopradas pelo vento, as falésias erodidas, as rochas sovadas pelo mar. Não temos como fugir da natureza de que somos parte, da semente que nos gerou, dos lugares onde nos plantaram, mas temos a vida toda para seguir adiante, não somos flores presas à terra pela tirania do caule. Os anos não contam senão para acrescentar a maleabilidade no processo de crescimento que não termina antes do último estertor. 

Cada dia que nasce traz uma luz nova para podermos abarcar o mundo com mais transparência, olhar para trás e ver o caminho pisado, olhar adiante e caminhar com a serenidade da experiência, da sabedoria conquistada ao abrir os braços para o equilíbrio. Sabendo embora que não podemos voar. 

Sabendo que a qualquer momento podemos cair.

quinta-feira, setembro 15, 2011

A importância de chamar-se Americano

De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fernando Pessoa


Americano dos Estados Unidos, leia-se no título, porque a América é todo um continente e um mexicano dizer-se americano seria uma ofensa para os estadunidenses, como bem lhes chamam os brasileiros, uns e outros com o mesmíssimo direito de se dizerem americanos. Até na expressão linguística, para além da língua tornada universal, até nisso o poder dos Estados Unidos se estendeu pelo mundo, com o direito de se considerar a maior potência mundial quando outras potências se erguem já, perto e longe, paulatina e seguramente, em todos os sectores, desde a economia ao armamento. 

O 11 de Setembro não mudou coisa alguma na vida efectiva do comum dos americanos, para além de acender guerras sem quartel que em dez anos lhes desmantelou a economia, os obrigou a suspender o investimento na Investigação e Ciência, deixou os pobres mais pobres e fez florescer as indústrias ligadas à guerra tornando os ricos ainda mais ricos. Combater o terrorismo é uma falácia perante as evidências dos interesses económicos subjacentes, falar em defender os direitos humanos é uma enormidade, se atendermos às necessidades prementes de povos subjugados e massacrados em vários países africanos, se olharmos à miséria que as guerras provocadas no Médio-Oriente produzem em grande escala.

Ser americano é sentir-se protegido em qualquer ponto do globo, só por sê-lo. Ser americano é ser intocável, e apenas esta noção mudou na consciência de alguns, poucos, que deram conta da sua vulnerabilidade da maneira mais cruel. Não foi pelo número de pessoas desaparecidas que o mundo se chocou, porque muitas mais se afundam em valas comuns em genocídios que continuam a perpetrar-se sem que haja disso visibilidade. O que chocou verdadeiramente foi a forma utilizada – à altura de uma América – atingida no centro vital, na cidade vital, no centro vital da defesa, no pulsar da economia, na certeza da segurança. 

A Europa quedou-se estarrecida porque se sabia vulnerável, jogando com a única arma que a pode salvar: a educação para a civilidade, a tolerância entre os povos, a compreensão e a verdadeira democracia que tem de unir todos os estados europeus, se quiserem continuar na linha da frente no que toca à preservação dos valores universais de humanidade, igualdade e fraternidade, que conduzem à paz possível, à liberdade possível. 

É a velha Europa que tem de saber dar-se as mãos e partilhar a prosperidade, não mais desejar perder-se na ostentação à custa dos mais fracos. Exigir, sim, um esforço comparável entre os seus membros para um resultado favorável a todos; dar o mau exemplo de explorar os mais desatentos ou menos hábeis é desumano e inglório. Os europeus querem o respeito que a sua História lhes merece, só a união e a harmonia lhes darão a sabedoria necessária para enfrentar os novos desafios do século.

Saibamos ganhar pela força da inteligência.

domingo, setembro 11, 2011

Pedaços


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa

 
Não há tempo perdido quando se encontra um amigo e as horas passam. 

Quando se perde um amigo, encontra-se o tempo que nos sobra depois dele, o tempo a mais a que temos direito para pensar sobre a razão que nos leva a estabelecer laços que perduram no tempo, sem que a distância, o eventual afastamento, nos faça perder a memória dos afectos. 

Não foi sem razão que Cícero escreveu uma obra inteiramente dedicada a este impulso da natureza que leva ao estabelecimento de laços de amizade. Deu-lhe um conceito moral: a amizade nasce da virtude e só pode existir entre os homens bons (uiri boni), não no sentido idealizado e absoluto, mas na perspectiva da sociedade romana: dotados de virtudes como a fidelidade, a integridade, o sentido de justiça, da liberalidade e da constância.

Porque se alterou a sociedade, também mudou a perspectiva dela, mas mantém-se o conceito de que a amizade cresce entre homens dotados de valores como a lealdade, a rectidão, a generosidade, que, em algum momento prolongado no tempo, coincidiram em projectos de trabalho norteados por objectivos comuns. 

Eu perdi um amigo generoso com o qual partilhei vinte anos cruciais da minha vida de trabalho. São vinte anos de memórias numa casa comum, serões repartidos de conversa amena, sonhos nascidos, alguns frustrados, outros concretizados, alargados depois por mãos que cresceram connosco. A obra erguida desde então existe e permanece. 

Ficaram as lágrimas dos amigos que ficaram.

Ficámos ainda nós. 

quinta-feira, setembro 01, 2011

Vastidão



Mas ia-te a dizer eu que era a hora em que a morte – já não sei o que ia a dizer sobre a morte. Talvez que ela é mais plausível de noite pela imensa solidão. Já me vou acomodando, mas mesmo assim. A hora em estamos a sós connosco, com esta coisa terrível que somos nós por dentro vivíssimos e não há público nenhum para nos ajudar. A hora em que tudo é imenso como um olhar cego.
Vergílio Ferreira in «Em Nome da Terra»


Há dias assim. Terão sido imensos, cheios, nem provavelmente plenos de contentamentos, pejados até de melancolias, de tormentos, contradições, revolta, mas intensos, cheios de vida. Agarrado a ela e tornando-a a razão dela própria, o ser enquanto pulsar, espírito e matéria juntos, sentindo bater ao lado uma outra presença, nela pousando o olhar como fera lambendo a cria.

Há entardeceres assim. É o dia a não querer deixar a terra, desfazendo-se em cor, gritando que não, que ainda precisa de estar ali. Mas é inexorável o rodar do planeta e chegou a hora do descanso, a noite devagarinho subindo pelas sombras, dando lugar aos que fazem dela o seu reino, adormecendo uns, acordando outros ruídos inquietos, fugazes ou repetitivos, a acender a vida que brota com a mesma intensidade numa outra perspectiva.

Há madrugadas assim. Cheias de magia, em que tudo acontece num repente, as recordações e as saudades e as presenças, e logo a vida retoma a normalidade perdida. O primeiro dia de Setembro deu à vida minha Mãe, faz 92 anos. De repente, recordo que deixou a minha companhia precisamente com a idade que tenho hoje. Viveu muito? Deveria ter vivido mais tempo? Viveu o tempo que teve. Sei que viveu um tempo que não queria, mas também sei que ficou por viver um tempo que ela gostaria muito de partilhar comigo.

Acabado está o tempo dito de férias ainda para quem as não teve, não mudou de lugar, não percorreu caminhos, não cruzou oceanos nem deu pela chuva que passou. Mas foram férias profícuas enquanto tempo de encontro com a paz interior. 

domingo, agosto 14, 2011

Devaneio

Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu;
isto que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto que não és tu nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir – só isto,
apenas isto, isto unicamente: não queiras,
não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.
Jorge de Sena (14/7/58)


Esta manhã quente e nublada descansa placidamente embalada pela brisa.

Nem sei se merece a pena perguntar-lhe por que veio, para quê, porque acontece em cada dia esta luz nem sempre coada, por vezes já vibrante a esta hora matinal. É porque a vida acontece e é de todos a mesma. Basta folhear um livro e lá está tudo o que já dissemos por outras palavras, outros escreveram que não em versos melódicos, o que nós pensamos aqui e agora.

É este o milagre da escrita, a adoçar os dias que medimos e ainda falta cumprir, a recordar as falas dos que partiram mas não morreram para nós, que nos hão-de pegar pela mão sempre que fechamos os olhos e nos entregamos ao que não é mister discutir porque é intrinsecamente único. A escrita do outro onde nos vemos ao espelho e as imagens retornam muitas vezes em retratos de magia de espelhos côncavos ou convexos, quem disse que o real é um espelho raso?

Mas do tempo que medimos realmente, só podemos medir o que passou, e dele transportarmos para diante o lastro que carregamos, que faz equilibrar o barco, tantas vezes batido por ondulações fortes, de uma beleza invulgar, ou tempestades que exigem uma força insana. Até um dia. E por que não esperar um dia de mar azul, quieto, calmo como um lago, o risco branco atrás de espuma branca, a abrir como uma renda? Adiante o mar acaba, num repente, mas então já nos embrulhámos na onda branca e já não sentimos. E o fundo do mar é só de outra cor.

sexta-feira, julho 29, 2011

Regresso

Eu sei como respira. Não soubesse,
ou docemente em mim não respirasse,
e mesmo assim de amor eu ouviria,
dormindo ou acordado, o eco naqueles poços
do amor que me rodeia e toca, enchendo-os
com mais fervor que a vida, mais ternura, mais
carinho, e com silêncio, lágrimas, sorrisos,
e sobretudo, ah sobretudo, numa só mão que pousa.
Jorge de Sena, em 27/1/59
Pela manhã, no quintal, a frescura ainda da madrugada na coloração que o sol depõe na linha rasa que atravessa os campos, os troncos da oliveiras velhas, as copas dos sobreiros, um ou outro pinheiro entortado pela solidão no castigo do vento.

Por trás dos vidros da janela, as orquídeas sorriem à luz que as acaricia, cada flor em ramos arqueados, oferecendo-se em entrega total ao calor que se adivnha. Dentro da casa, a mão humedece e aduba, entreabre o cortinado, cerra a persiana, não vá o ardor do sol tirar-lhes o viço.

As flores, como os filhos. Ornamentando os espaços a exalar perfume, derramando a cor e a vida. Mas a face voltada para o apelo do sol e do futuro, o olhar perdido no longe, preso à luz que vem de fora.

Na memória da pele que as rega e afaga, as rugas escrevem as histórias de cada primavera, da chuva que fustiga as janelas e escorre pelos vidros, das luzes que rasgam o céu e acordam o troar da terra. As rugas cada vez mais fundas que guardam segredos de amores vadios, de sombras coladas, de espaços roubados, veredas achadas, caminhos perdidos.

O regresso enfim à paz consentida, conseguida, guardada no entulho que sobra da vida.

quarta-feira, julho 20, 2011

Desassossego



 Senti o gosto da mortalidade na minha boca e nesse momento compreendi que não ia viver para sempre. Demoramos muito tempo a aprender isso, mas quando finalmente aprendemos, tudo muda dentro de nós, um tipo nunca mais volta a ser o mesmo. Eu tinha dezassete anos e, de uma forma absolutamente inopinada, compreendi – sem qualquer espécie de dúvida – que a minha vida era só minha, que a minha vida me pertencia a mim e a mais ninguém.
«É de liberdade que estou a falar, Fogg. De liberdade. Um sentimento de desespero que se torna tão imenso, tão esmagador, tão catastrófico, que uma pessoa só tem uma alternativa – ser libertada por ele. É a única hipótese. Enfim, claro que há outra, que é um tipo enfiar-se num canto e morrer.»
  
Paul Auster in «Palácio da Lua»

 
Outrora era uma palavra bonita, agora já não se usa. Outrora éramos jovens de corpo e a alma entontecia sem pouso num alvoroço que nem se dava conta de existir. Agora a alma quer ser jovem mas o corpo afunda-se em mediocridades que não queremos aceitar, agora que a alma se rege ainda pelas noções de outrora, com mais perícia nos sentidos, mais ponderação, mais controle das sensações quando elas invadem os espaços em que não cabem.

O outrora não existe. Paira quieto no coração de alguns, daqueles que têm passado, daqueles para quem o passado é a raiz que não negam, daqueles para quem o passado é o princípio da construção de nós. Mas são cada vez mais poucos.

Eu penso que os novos – e os velhos – têm medo da franqueza da sua origem. Meu pai tinha apenas a quarta classe. Meu pai era comerciante e filho de lavradores, como consta na sua certidão narrativa. Meu pai era respeitado. Alguns pais de colegas meus eram médicos, ou advogados, ou engenheiros e por isso se achavam superiores. E alguns não eram respeitados. Razões haveria para um e outro caso, outrora. Que agora já não contam essas razões, eu acho. Dizia-me então meu pai que no tempo do Império Romano, o deus Mercúrio (e Hermes, já antes, na Grécia), era o protector dos viajantes, dos mercadores, dos comerciantes e dos ladrões. Mas também o deus da eloquência e da inteligência, ele era o mensageiro dos deuses. Muito ágil, era representado com asas, jovem e esbelto. À minha interrogação muda explicava que os comerciantes eram normalmente associados aos ladrões e daí o mesmo deus para os proteger.

Mas hoje não há viajantes nem mercadores nem comerciantes nem ladrões, há empresários e banqueiros. E é claro que nem tudo o que parece, é. Outrora já era assim, agora é muito mais assim, ou pior. O que parece, não é mesmo. Também eu não sou o que pareço. Ou sou?

segunda-feira, julho 04, 2011

Logro


Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?
Jorge de Sena



A escrita e a leitura cumprem uma relação de fidelidade que se alimenta uma à outra, da outra.

A fidelidade à escrita advém da fidelidade à leitura e desta aos escritores, aos livros impressos, aos jornais, aos panfletos da política e religião, aos papéis velhos, amarelecidos, enrolados, atados, que nos fazem contar os anos decorridos, aos escritos nas paredes sem sentido, com sentido, sentidos, desenhados, velados, fechados, rasgados como gritos.

A fidelidade às palavras, a fidelidade às coisas, a fidelidade às pessoas. Dizendo a palavra muitas vezes, pegando nela como se de um objecto se tratasse, palavra como coisa, voltando-a, torcendo-a, lendo-a ao contrário, pegando-lhe por uma ponta e deixando-a deslizar para baixo como um enfeite, balançá-la como um pêndulo, a páginas tantas ela desaparece. Afinal não é mais que um nome abstracto. Não existe definido, não é palpável, é maleável e leve como a nuvem que paira em cada manhã sobre o horizonte.

Só posso afinal ser fiel a mim própria, àquilo que sou, ao que me fiz e me transformei. Não sou igual em cada dia que passa, Eu cresço e multiplico-me e diversifico-me a cada instante, as células cada vez mais raras tentando a fidelidade ao que já nada é.

O poeta chama-lhe flor. E ainda assim atraiçoa-a.

quinta-feira, junho 16, 2011

Eclipse


São contra a morte, ou contra a vida, as vozes
que tão fugatamente desconversam?
São contra a terra ou contra o céu as pausas
quase imperceptíveis que retornam?
São contra as coisas ou são contra os homens
certas singelas notas que persistem?

Ou a favor? Não sei. Talvez que sejam
uma existência que se vive ouvindo
apenas o fluir da música nascida
de não fluir mais nada que não seja a vida.
Jorge de Sena


Gosto de dormir num quarto com janela virada a Nascente. 

Que a luz me chegue ténue pelas madrugadas e eu possa sentir-lhe a coloração logo mais intensa e colorida pousada na parede em frente, filtrada pelas persianas, quieta, ou de preferência em sombras bruxuleantes de folhagem através do vidro transparente.  

O começo do dia, o acordar das manhãs, trazem-me sabores, odores, acordam-me os sentidos devagar, quantas vezes deleitados nas recordações dos tempos da infância, olhos fechados a tentar recordar os sons, os sons esperados, os sons ansiados, os sons que ficaram gravados, as vozes.

As vozes que não voltam mas que identificaria entre mil, com o instinto de uma andorinha dos trópicos ou um pinguim na Antárctica. É o tempo mais prenhe do dia, em breves minutos o pensamento a ordenar o que surge em catapulta do que há para concretizar, logo depois olhar em volta e ter a certeza de que o mundo não foi escrito a preto e branco. Entre o nascer e morrer existe a vida que os meus sentidos captam decididamente em tonalidades múltiplas, das mais suaves às mais vibrantes, capazes de ferir o olhar ou dar-lhe encantamento.  Também nas duas tintas sem cor, quando a Lua se recorta envergonhada a subir no horizonte, a fugir do beijo da Terra.

Sou eu que tenho de usar esse pincel de luz matinal quando tudo se esvai, quando não há sol ou a tempestade ruge apagando todas as vozes.