quinta-feira, julho 15, 2010

Palavras tisnadas



Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

Alberto Caeiro


 Não tenho a certeza de ter alma de mulher.

Do que me lembro de mim, uma fixação sem nome naquele menino dócil e livre, as idas aos pássaros e aos ninhos, os jogos de cowboys e os tiros, a caça, as conversas na fogueira sentado entre os risos dos criados, partilhando os cheiros e os sons. Os ralhos depois, mas a liberdade que eu não tinha. 

Alma de pássaro crescendo, olhando por detrás da cortina de cassa fina, tecendo a renda em que me esconderia dos cortes de asas, de bico, só os olhos brilhando no escuro das noites acordada. Os livros lidos no afago das horas de sesta, pérola crescendo em camadas de nácar, uma sobre a outra, lisas, doloridas, cuspidas, esculpidas na dor calada do temor e da dúvida, a ansiedade crescendo.

Homem ou mulher, que seria de mim sem a carícia das palavras, sem a identidade nos poemas dos outros, nas prosas sentidas, passeando pelas estrelas, pelos desertos, mergulhando nas ondas de outros mares, os que conheço, os que não conheço, sei lá quantas mágoas, sei lá quantas saudades, sei lá quanto amor vertido, derramado, escoando-se pela terra adentro.

Um dia vou ter a certeza se valeu a pena, para lá do poeta.

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