quarta-feira, julho 28, 2010

O Mar une, não separa


O poema me levará no tempo
quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas, ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo



Sophia de Mello Breyner Andresen in «Livro Sexto»






Ao meu estimado amigo Rafael, eu desejo aqui agradecer, comovida, esta gentileza a que só agora tive acesso, ainda que me tenha sido dedicada há quase dois anos! Foi um acaso que me levou até ela, e eu diria que chegou a mim no tempo certo. O Rafael acredita profundamente num Deus omnisciente e eu me curvo perante a sua fé, que fez com que a mensagem chegasse quando o meu coração mais precisava de um lenitivo. As palavras não me acodem precisas para louvar toda a sensibilidade e beleza inigualável da mensagem escolhida. Comovidamente obrigada, Rafael.

Para o menino meu amigo do outro lado do oceano, eu escolhi «O Poema», de Sophia de Mello Breyner Andresen, a nossa mais bela poetisa do mar.

1 comentário:

Rafael disse...

Na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)no curso de Letras, ainda, tem Latim na grade curricular.
A UESC é uma universidade muito boa, situa-se entre a cidade de Itabuna - Ilhéus, certa vez passei em um vestibular para o curso de Filosofia, mas como ganhei uma bolsa no curso de Letras preferi cursar Letras mesmo não sendo na UESC.

E sobre o poema de Sophia, concordo em todos os generos; muito lindo.

Um grande abraço com afeto.