quinta-feira, setembro 27, 2007

Missangas



«Moi je t’offrirai

Des perles de pluie

Venues de pays

Où il ne pleut pas

Je creuserai la terre

Jusqu’après ma mort

Pour couvrir ton corps

D’or et de lumière

Je ferai un domaine

Où l’amour sera roi

Où l’amour sera loi

Et tu seras reine»

Jacques Brel




O som seco de um tiro ao longe vem lembrar-me que hoje é quinta-feira e acabou o defeso – abriu a época de caça aos bichos de aviário – e já o ar fresco da manhã se deixa marcar pelo bafo quente da respiração.

Eis o Outono que vem chegando.

Mergulho agora as mãos numa taça de missangas cor de marfim pequeníssimas e, de repente, elas saltam coloridas como se reagissem à cor imposta. Querem ser incertas de muitas cores, misturadas de céu e de terra, de relva e de sangue, de milho e de prata. Querem cingir os pulsos das meninas negras, o colo e os cabelos, querem alegrar o fato da menina branca mascarada em cigana.

Os fios de gelatina longos e ondeantes, descendo na correnteza leve da nascente acima, colares de missangas de uma só cor, prendidos aqui e além por pedras e tufos de erva dos bordos da vala. Escorregadias, missangas negras enroladas nos tornozelos, nos pés descalços, deslizam, fugidios, por entre os dedos das mãos que os querem prender.

Era o recomeço da vida nas primeiras chuvas de Setembro.