quinta-feira, março 08, 2007

Ler

«… e vai sendo em cada minuto mais difícil não me agarrar a ti, deixar a minha lucidez, o meu bom senso de resignada já senil – porque em muito novos não tememos estragar, nem sofrer – cansada dos pormenores prosaicos e desagradáveis duma «aventura amorosa». Revolto-me por nada ser possível – como odeio «a minha lucidez», como queria ser a rapariguinha que se abraça ao seu primeiro namorado, apatetada e comovente – a rapariguinha que desenha, no entanto, as linhas frias e perturbadas da realidade aparente aos outros, todos a condenarão rapidamente, até que ela se cristalize na ordem desejada. Aqui me têm; o odioso coro do bom senso anuncia verdades eternas – como poderemos viver sem nos contentarmos com o possível? Cristalizo-me nos estatutos aprovados; recordo; imagino.»

Maria Isabel Barreno



Marie Hélène dessinant Arpad Szènes

A leitura é um acto individual em que cada um de nós mergulha com maior ou menor sofreguidão, levados que somos por motivos vários, nem sempre os mesmos, nas diversas ocasiões.

Um livro atrai. Olhá-lo, tocar-lhe com a ponta dos dedos para sentir a textura macia da capa, depois pegar-lhe, voltá-lo nas mãos, passar as folhas com os dedos, eventualmente ler umas linhas ao acaso, uma página talvez, um poema, ver o índice.

Levo, não levo? O prefácio. Quem?...

Melhor ainda é aquele livro que temos em casa, de que conhecemos de cor parágrafos inteiros, puídas as folhas de tanto manuseadas, alguns com notas ao canto – sempre a lápis, que os livros devem tratar-se como a nossa namorada, assim me ensinaram eles, os homens que eram os nossos mestres – a intriga que acolhe a nossa evasão, o poema que clama o nosso protesto, a voz já antes escutada que nos garante não sermos únicos, alguém já pensou isso antes, outrem sofreu o nosso calvário de amor e nostalgias; tão só um gibi do Chico Bento com a profundidade de todos os pensamentos expostos em parágrafos extensos, de todas os artigos bem estruturados em diplomas, de leis que nunca se cumprem.

Leio e releio Mestre Aquilino. Desculpem, sei que é difícil a leitura para quem não teve, como eu, um pai que só conhecia as histórias da raposa repetidas e reinventadas para nós a cada passo, a cada pedido. Encanto-me sempre com o observador da natureza humana, dos contrastes da sociedade, o narrador irreverente do viver das gentes mais rudes com quem conviveu e de quem fez um retrato preciso, opondo a rudeza do gesto à pureza de sentimentos.

E porque hoje é o Dia da Mulher - daí a Mª Isabel Barreno que, com a Mª Velho da Costa e Mª Teresa Horta deram voz à mulher portuguesa antes de Abril - deixo alguns excertos do olhar (o mais brando) dos homens das Terras do Demo sobre quem os deu à luz:

Rosalina, de olhos pestanudos e tão mexidos, que, a cada mirada, pareciam negacear a castidade de um santo!

Luísa, a morgada, vassoiruda, de largos encontros e corada como camoesa…

Rosa faceira e morena, era ver como os cabelos lhe borrifavam das tranças em anéis sobre a testa, cobrindo-lhe as fontes de uma sombra fagueira…

Florinda, toda sécia e perluxosa, inda que com mais presunção que virtude. Nanja que ela não tivesse uma legítima arredondadinha e não fosse mulher curiosa, asseada, toda videira, sabendo coser à máquina...

Mulherão aquela Zefa, nutrida, limpa e perluxosa que nem moça de padre-cura...

...uma moça limpa, videira, que saiba dar dois pontos numa camisa e fazer chá a um doente.

O peito dela palpitava; arfava forte; cantavam lá dentro todos os alegres pássaros do mundo.

À mulher que hoje sou, ergo loas, porque tenho o direito de ser, de estar, de dizer. Dizer que não é preciso haver um dia, pois todos os dias são da mulher, por mais que gritem que não. Para o mal e para o bem. Para a excisão, para a submissão, para a violação, para a mentira, para o desprezo, para a descriminação, para a fome, para a miséria, para o aborto.

E para a maternidade, para o amor, para a solidariedade.


4 comentários:

Betty Branco Martins disse...

Jawaa

Ler - será um
estado d'alma...

Alem destas mulheres escritoras que citas e que por elas nutro uma admiração imensa.

Recordo Maria Lamas que escreveu os preciosos volumes de “As Mulheres do meu País”- saga da condição da Mulher em Portugal - saga dorida de quem sabia olhar - criticamente amar.

Paralela a esta saga da Mulher - uma outra que lhe está subjacente a da Criança. História ainda hoje dramática e cruel.

E quem diz história da Criança diz a história do Homem. A sua raiz.

Mulher de escrita tão rara - de dimensão trágica na arena fria da solidão.

Solidão. Notas do punho de uma Mulher.

Da sua exemplar e amarga vida de escritora - recolho estas palavras:

“Jamais quem escreve se devia importar (mas importa-se) de lhe escassearem os leitores - os amigos - as afinidades - a expansão - os reflexos.

Quem chega à convicção de que só se é livre pela isenção e pelo despojamento? De que só se é livre - leve - desembaraçado - pelo desinteresse?

Ninguém.

Porque o coração pede - o espírito espera - exige - ambiciona”

Parabéns por este post.

Beijinhos com carinho

Rocha de Sousa disse...

Jawaa, obrigado. Faltam-me as pessoas que ainda falem, transcre-
vam e homenageiem estas mulheres
com quem aprendi grande parte do
pensamento moderno da escrita e da
sua relação com a imagem. Todo este
seu trecho, e as palavras que pertencem e lhe são apropriadas,
anunciando a abertura a outras formas de as usar, deixaram-me ver-
dadeiramente comovido numa espécie de sentido não redutor da contemporaneidade.
Por mim, agradeço-lhe, isto é, fe-
licito-a.
Rocha de Sousa

vida de vidro disse...

Ler, é aquele prazer, aquela companhia amiga ou perturbadora que ninguém nos pode tirar.
Aquilino...não o leio há tanto tempo! Tens toda a razão sobre o Dia da Mulher!
Bom domingo! **

Klatuu o embuçado disse...

Belo texto! Já há poucas MULHERES, sabia?... andam por aí umas criaturas do sexo feminino, e é tudo.

Cumprimentos.