quarta-feira, setembro 06, 2006

Espaço Azul

Há quem o ouça muitas vezes,

Há quem o ouça raras vezes,

E há quem o ouça

Uma única vez na vida.

Por isso vale a pena

Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia,

Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós,

No fundo, lá bem no fundo do corpo.

Michal Snunit



O medo é um sentimento poderoso que nunca consegui descrever e continuarei a sentir para sempre. Creio em relação a isto que o tempo vai amainando a sensação, e apenas porque o consigo racionalizar, assim foi sendo ao longo dos anos. Em mim, o medo que prevalece é o receio de estar só e não conseguir orientar-me. Aliás esta perturbação está presente com muita frequência nos meus sonhos. É assustador.

Navegar no meio do oceano (num transatlântico, claro!) ou planar sobre ele, não me assusta, antes me tranquiliza. Sinto o fremir, o ruído e, na primeira hora, o balancear. Todavia gosto de sentir-me a deixar o chão, gosto de observar os flaps das asas, ver os recortes dos continentes, mais e mais longe. Por largos momentos um avião deve tomar o sentido da corrente dos ventos, porque plana serenamente, sem o mínimo estremecimento.

Olho através da pequena janela oval a meu lado e vejo uma linha de horizonte marcada por um halo, a dividir o céu em dois: por baixo um azul cálido atapetado de nuvens, acima um tom puro e brilhante de azur. Logo a seguir, pequenas nuvens de fumo branco passam sobre a asa, mais e mais fumo, depois só nevoeiro. O avião plana e não bule.

Como se pode sentir medo?

De quê?

Da quietude?

Da intensidade do sentir?

Adiante, de novo aquele tom intenso, fundo, brilhante. Em baixo, pintura digna de registo pela máquina que não pude trazer comigo: um mar de veludo riscado a régua, com claras batidas em neve saindo em borbotões dum saco de pasteleiro.

Sobre o Novo Mundo, castelos enormes de algodão puríssimo. Mergulhar ali é entrar na eternidade.

3 comentários:

naturalissima disse...

Indentifiquei-me bastante com esta postagem, amiga!
O medo! É ele que não nos deixa de viver a vida, destroi-nos os sonhos...
Há que procurarmos ser forte, confiantes e acreditar em nós mesmos para vencermos o medo.

Um grande beijinho
Daniela

dakidali disse...

Sem medo não se vive. Ai a máquina, a máquina. Devia ter levado. Mas as suas descrições são tão perfeitas que a nossa imaginação mesmo que seja fraca consegue seguir as suas visões.
Beijinhos

lembranças disse...

Como foi bom ler estas linhas!!!!!!
Lembrei-me de outros tempos em que voava sobre as nuvens brancas e explenderosas dos céus de África. Aquelas paisagens que jamais se esquecem, com manadas de animais selvagens que fugiam com o ruido do motor da avionete, aquele crocodilo que esteve quietinho sobre as águas límpidas de um pequeno lago que comunicava com o rio que passava perto no tempo das cheias. Que saudades daquele tempo em que era novo e temerário. Momentos assim em que pensamos quão bela é a vida e quanto é bom viver! Se podessemos voltar ao passado!!!!