sexta-feira, junho 01, 2012

Constatação

Mas ainda que a arte não estivesse em silêncio, ainda que ela por absurdo fosse um perfeito valor fora de um Valor que a transcenda, é irresistível a pergunta sobre o destino do artista. Porque a sua arte pode perdurar pelos séculos, mas o artista, simplesmente, pequenamente, morre.

Virgílio Ferreira in «Invocação ao meu Corpo»



Paro, necessariamente quieta diante do mar em frente que toma conta da terra inteira e não deixa lugar para mais caminhada.

E é uma música leve que entoa, o marulhar das ondas sem fúria, um vai-vem sussurrante de conversa amena com a areia, todo o espaço adiante sereno como um lago imenso, só ondeado o suficiente para reflectir uma luz diferente a lembrar que pulsa, que há vida intensa por baixo da quietude aparente, pronta a entoar cânticos de arrebatamento, assim os ventos e o céu se conjuguem.
Serenidade, precisa-se. 

Olhar os grãos de areia em volta, as pedras redondas, poucas, os restos de conchas, caminhar então ao longo da orla em direcção às rochas maiores bordadas de lapas e mexilhões escuros pacientemente à espera da maré alta, um ou outro caranguejo, ouriços do mar e algas brilhantes, outras depositadas em monte na areia, secas, pontilhadas de insectos e uma vontade sem tamanho de mergulhar de corpo inteiro na água.
Contenção, precisa-se.

O dia avança, sol aquece a terra e faz erguer uma névoa que desmaia o azul e deixa um bafo ardente que incomoda o corpo, a areia morde nos pés descalços, o ar quente mal entra nos pulmões, os lábios secam e uma sede imensa cresce por dentro. Água doce, precisa-se.

A água do mar não é potável.

segunda-feira, maio 21, 2012

O ESPELHO



A serra continuava silente, mas, àquela hora, por todas as malhadas, nas que se expunham sobre os declives e nas que, entre fragas, só do céu se viam, começava a faina dos pastores. Horácio pegou nas ferradas e ordenhou, de novo, as ovelhas. Queijou, repetiu as operações da véspera, as operações que ele havia de repetir, de manhã e à noite, até ao fim de Junho, quando os úberes secavam. E, tudo pronto, abriu o bardo. De andaina humedecida, o cajado na mão direita, no braço esquerdo uma ferrada com batatas, partiu atrás do rebanho.
[…] Quando o crepúsculo se aproximava, as ovelhas tomavam, espontaneamente, o caminho do lugar onde deviam dormir. Regressavam lentamente, enchendo de melancolia a serra, com a dolência das suas campainhas nas derradeiras horas do dia.

Ferreira de Castro in «A Lã e a Neve»

 
A natureza é o espelho em que me fito, ser humano no uso da razão, a procurar as fontes para nelas encontrar a explicação inexistente de estar aqui, setenta anos depois da nascente, à espera do encontro com o mar.

Comparo a vida ao fio de água que brota do útero da terra e desde o primeiro momento corre apressado ao encontro do fim que não termina coisa alguma, apenas se altera, pura e simplesmente, na perda de identidade como água doce e potável, a fecundar o que sem ela seria estéril. Cumprida a sua missão, ela mistura-se, confunde-se, iguala-se, engrandece; viaja na crista das ondas, nas profundezas dos oceanos, dá vida a outras vidas.

E um dia retoma o ciclo, deixa-se enfeitiçar pelo calor do sol, voa como névoa a formar castelos de nuvens, primeiro em cirros brilhantes e delicados, depois cúmulos em flor e finalmente em nimbos espessos, escuros, prontos a pintar a terra de branco ou simplesmente a pingar em lágrimas fertilizantes que descem aos lençóis freáticos à espera do tempo de florir em nascente límpida e pura. 

Outra vez o mundo da terra para desbravar em valas, regatos, rios, lagoas e lagos imensos, despenhamentos em pureza, a dor da poluição – por quanto tempo? – e a morte, o fim, transformação, travessia, purificação com certeza.

O tempo mais perfeito, mais intenso, mais sereno, foi aquela pausa ainda no topo da montanha, já espelho do céu.

terça-feira, maio 15, 2012

Impudência


Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
Padre António Vieira, in “Sermões”


A nossa crise espelha-se com toda a sua crueza no lago das mais de 300 mil pessoas que encheram Fátima nas recentes celebrações do aparecimento da Virgem há precisamente 95 anos, quando os ideais do comunismo incendiavam, assombravam, ensombravam o mundo de então.

A Senhora de Luz mandou que se rezasse o terço para erradicar esse mal que grassava na Rússia, é o que a minha memória de menina guardou do meado do século que passou. Não tenho a certeza da veracidade dessa mensagem, mas tenho a certeza de que a fé em qualquer coisa, a necessidade do ser humano em acreditar, apenas acreditar, tem uma força sem tamanho. Mesmo para os não católicos, os não religiosos, os não crentes em acontecimentos que transcendem a razão, as imagens dos milhares de velas acesas na noite, dos lenços brancos acenando, provocam emoção, fazem assomar mais água aos olhos.

Milhares de pessoas palmilharam – alguns o fazem repetidamente em cada ano – centenas de quilómetros a pé, sem sucumbir ao calor, à chuva, ao cansaço, ao peso da idade, alguns tendo como alimento apenas pão e água. À chegada, lágrimas de emoção em todos os rostos, apenas por terem conseguido chegar ali. E nem quero referir as imagens (degradantes) dos que se arrastam de joelhos sobre a passadeira, sem pensar no corpo dorido e rasgado, só a alma entregue à sua fé sem limite.

Então a voz de um qualquer cardeal italiano se ergue dizendo claramente que o povo português não tem alma, só tem corpo, mãos limpas dentro do bolso, e essa voz exorta os presentes a ajudar os seus irmãos, como manda o preceito divino.

Trinta e uma mil toneladas de velas mais as esmolas que este povo tira à boca são dadas (com a mão nos bolsos?) com o corpo, bem sabe o senhor cardeal, só não sabe (ou sabe?) que a alma deste povo é demasiado grande, tão grande que tapa os olhos para não ver o caminho que leva o produto desses fartos proventos.  

É esta Igreja que apaga a religião.
E esta Igreja que não ensina, que não conduz, que não ajuda.
É esta Igreja sobre a qual impendem alguns pecados mortais que me eximo referir.

quarta-feira, maio 09, 2012

Página em Branco

E se, por hipótese, eu publicasse a biografia de António Lobo Antunes, não publicava a biografia de António Lobo Antunes, publicava a minha noção dele, dado que aquilo que somos, para nós mesmos, não passa da fantasia do que somos.
[…] Uma biografia autêntica em que ter as páginas em branco. Muitas páginas em branco. Todas as páginas em branco. Depois a gente lê o branco muito devagarinho e com muito cuidado e tudo quanto lá está, percebemos então, é verdade.

António Lobo Antunes



As crónicas de ALA, mais do que os livros, são um fascínio para mim pelas mesmas razões que ele aponta nesta mesma crónica quando diz que existe nele «suficiente curiosidade mexeriqueira que as biografias satisfazem», e é essa a razão que o leva a gostar de as ler.
Repetidamente Lobo Antunes escreve para si próprio mais do que para os leitores, ou talvez não, ele tem é a capacidade de fazer parte intrínseca dos seus leitores, daí a beleza da sua inquietude aberta para todos, as inquirições ao seu íntimo, as respostas que não tem, as revelações que deixa escapar querendo ou não, sempre despojadas, em sinal aberto, numa entrega total à escrita. Não conheço outro escritor assim.
E quando tenho surpresas de alguma espécie, porque em geral as desinquietações são comuns ao comum dos mortais, com as variantes próprias de cada indivíduo em especial, ele mais especial que todos muito simplesmente porque as sabe dizer, são sempre fortíssimas, capazes de comover-me verdadeiramente. 
Desta vez foi esta associação da verdadeira biografia de alguém só ser realmente autêntica se as páginas ficarem em branco. É que eu ouvi histórias antigas de cartas de amor enviadas completamente em branco, por mensageiros que percorriam dezenas de quilómetros para entregar… uma página em branco, simplesmente dobrada, dentro de um sobrescrito.

Estou de acordo com os dois. O amor e a vida não podem ser denunciados.
Apenas sentidos e escritos numa página em branco.

domingo, abril 29, 2012

O OUTRO LADO


Dans ma cervelle se promène,
Ainsi qu'en son appartement,
Un beau chat, fort, doux et charmant.
Quand il miaule on l'entend à peine,
Tant son timbre est tendre et discret;
Mais que sa voix s'apaise ou gronde,
Elle est toujours riche et profonde.
C'est là son charme et son secret.
Baudelaire



Dotado consideravelmente pela mãe natureza, é um belo exemplar de macho europeu, olhar felino e atrevido, controlando o território dele e o dos outros sem um mínimo de noção de liberdade democrática, com respeito pela dos outros.

Então surge pelas manhãs, sem identificação de estado civil pois não apresenta sinais de aliança com algum ser humano, uma coleira vermelha por exemplo, que ficaria a matar na sobrecasaca cinzento-escuro que enfeita um corpo esbelto e bem nutrido e não explica minimamente o apetite voraz pela mesa do alheio.

Despudoradamente invade a casa se há portas abertas – por norma há, da cave; da cozinha fartas vezes – descendo, subindo escadas se houver silêncio nos afazeres domésticos, invadindo, tentando alargar território. Insiste sempre, apesar das corridas a que é sujeito inúmeras vezes. Corre para o jardim, esgueira-se pela horta ao fundo, trepa o muro e olha, volta-se ainda, atrevido.

Tem uma altíssima auto-estima. Vive bem e quer viver melhor, que lhe importa que os outros passem fome, sejam menos lestos na passada, apanhem com chuva e granizo, sofram o frio da neve, não tenham agasalho à altura. Ele é que tem de manter elevada a sua auto-estima. Não lhe conheço as origens, se assim o educaram ou se ele próprio se educou, felinamente, desenvolvendo as tendências naturais de poder inerentes a ser dotados de inteligência, com um sentido de sobrevivência requintado.

Do outro lado um outro ser idêntico, bravo e inteligente, mas frágil ainda pela idade e condição, eventualmente a tentar defender um território que já assume como seu. Atreveu-se a enfrentá-lo e o resultado ficou à vista: uma unhada no nariz, um braço partido, o corpo todo moído.

O digno Cid (El Cid, el Campeador) vai ser internado hoje no Hospital Veterinário para amanhã de manhã lhe recomporem a patinha que traz levantada e tanta falta faz para as suas necessidades de higiene que insiste em repetir. Tudo vai correr bem, o Mio Cid vai voltar a adoçar os meus dias com a sua alegria esfuziante.

quarta-feira, abril 25, 2012

Verde e vermelho



Esta é a madrugada que eu esperava
0 dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner



 Eu não tenho à minha frente um monte que me oprima, tenho ruídos outros que me ofendem os tímpanos e apagam as vozes cá dentro. Tenho as madrugadas nem sempre limpas, nem sempre puras.

Hoje é o dia em que no meu país se comemora a Liberdade, mas a liberdade é todos os dias que trazem a cada um de nós um pouco mais de espaço, um pouco mais de justiça para que se cumpram os nossos anseios mais legítimos. E, enquanto houver humilhações para os que sofrem, e os prevaricadores, embora condenados pelos tribunais, continuarem em liberdade, enquanto os que têm fome virem as mesas repletas de iguarias daqueles que lhes tiram o pão, enquanto a noção de liberdade para uns, for sinónimo de opressão para outros, não há razão para comemorar.

Esperemos com fé que este dia volte mais afável, em que os cravos não sejam vendidos mas dados, oferecidos aos homens para as armas florirem, esperemos com fé que chegue breve o dia em que todos colham o que produzem, em que se partilhe entre todos a alegria de um país mais justo. Lembremos que a liberdade tem limites, para aos mais pobres e para os mais ricos, se nesta dicotomia se tiver em conta apenas o plano económico. Porém é preciso olhar em volta, ver a riqueza como um todo e valorizar o dom de uma natureza pródiga deste país ímpar na Europa, deste povo amável, esta gente capaz de se erguer sem tristeza, orgulhosa de estar no mundo, nos mundos. Demos tempo ao tempo.

Sejamos apenas nós.
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação.

quarta-feira, abril 18, 2012

O tempo e os homens


 
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além , por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão[…]

Guerra Junqueiro



 Ainda o dia mal aponta as coisas e já o melro chama os seres para a lida.

Mesmo quando a madrugada se prolonga em nevoeiros a ameaçar chuva, ele percorre o jardim em busca de vermes escondidos na humidade da terra, ele levanta com o bico forte o cascalho, as pedras, tudo o que pode esconder o seu sustento e dos seus, não se incomoda se altera a ordem do jardim, a limpeza dos espaços em redor dos vasos que vasculha em nome da necessidade imperiosa de alimento.

Vivo e atento ao menor ruído discordante, segue o seu caminho sem se preocupar com os sinais deixados. Também não deve nada a ninguém, talvez apenas ao corvo a quem roubou a cor das penas, talvez à gema de ovo a quem pilhou a cor do bico.

Tenho uma simpatia especial por esta ave, alguém desse reino que eu desejei conhecer desde que aprendi de cor os primeiros versos do poema de Junqueiro, Guerra Junqueiro que nasceu 100 anos antes de mim e, segundo me lembrou o Google, comemoraria hoje mais um aniversário de vida, se a morte o não tivesse impedido de completar sequer meio século.

Os homens vivem e passam, alguns passam e não vivem, outros passam e deixam marcas. Não importa a quantidade de tempo, importa a qualidade dele. Tenho a certeza de que qualquer melro vive o seu tempo por inteiro, tem alma para se erguer pela alva, tem tempo de chegar ao fim do dia e desafiar todos os ruídos falsos do progresso com uma cantoria do alto do seu pinheiro em louvor dos últimos raios de sol, só se aquietando para dar voz ao rouxinol. 

É o melhor desta primavera.

quinta-feira, abril 12, 2012

Amores-perfeitos


Ainda o sol vinha em Castela quando se abriu devagarinho uma janela no segundo andar da hospedaria. Encostou-se ao parapeito uma pequena dos seus dez anos, linda que nem uma princesa encantada. O cabelo era tão louro que chegava a parecer branco; e os olhos eram de um azul tão escuro que chegavam a parecer pretos. Chamava-se Iria.
A Iria não sabia que era linda; ou, se sabia, não se importava, nunca pensava em tal. Nunca pensava na sua pessoa; havia tantas outras coisas que a interessavam!
Encostada ao parapeito da janela, ficou ali um bocado a olhar para a vista. Na claridade ainda turva do alvorecer, apareciam os bosques e os jardins do Toutiço e depois por aí fora, por aí fora, estendia-se a imensidade da charneca. Do lado onde o sol ia nascer erguia-se uma correnteza de montanhas tão altas que os seus recortes de confundiam com as nuvens; e do outro lado da charneca, ao poente, lá muito ao longe, havia uma grande mancha negra que se estendia como um comprido borrão de tinta a separar a terra do mar. Isto era a floresta. A enorme floresta.
Os olhos da Iria fitavam a floresta. E toda ela tremia de desejo.

                 D. Virgínia de Castro e Almeida in «Aventuras de D. Redonda»



Já aqui tenho dito que gosto da chuva, que a chuva me lava a alma, que a falta dela me enfraquece a respiração. Não que sofra de alergias reais, é uma alergia espiritual que me enrola toda, o inverno é para haver chuva e neve e não um sol que permanece teimosamente num lugar que não lhe pertence por inteiro. Tudo a seu tempo, o sol para nos fazer descer à praia, a chuva para regar os campos e as almas pelo inverno adiante. Principalmente para nos regalarmos com uma visita ao avesso, para alegrar as hostes.

Como um dia de chuva na praia ou um sol benigno a alegrar um inverno de rigor, uma amiga de há décadas ofereceu-me um livro, um livro velho, antigo, respeitável, amarelo do tempo, irregular no amontoado das folhas pelo rasgar delas a possibilitar a leitura, cosidas as folhas, na capa um fulgurante centauro de asas vermelhas com dois meninos no dorso. Só de olhar para ele, de manuseá-lo, regala-se-me a alma.

Foi um dos grandes livros da minha infância, oferta de meu pai. Foi o meu livro de cabeceira por largos anos porque aquela menina era eu, aquelas aventuras eram minhas também. E reencontrei-o depois de esquecido por décadas, durante uma conversa sobre António Lobo Antunes. Fui assistir a um lançamento de um livro e, quando declinei o nome para que ele mo dedicasse, ALA lembrou-me «As Aventuras de D. Redonda». Foi na sequência desse episódio que a conversa de café floresceu e deu fruto.

Ah, e também fiquei a saber que, na década de setenta, a Santa Iria da Ribeira de Santarém deixou que o Tejo lhe molhasse os pés. E o mundo não acabou.

sexta-feira, abril 06, 2012

Camélias


A chuva, finalmente a chuva purificando o ar, dando às japoneiras um ar lavado, as glicínias tapando os muros, a hera nova a subir na parede branca, a cobrir os troncos velhos das árvores. 

A trovoada deu um ar de presença assustando os gatos, os raios riscando a noite.

A luz da manhã mostra a primavera a impor-se com as roseiras agora vestidas de verde, em promessas do esplendor das rosas.

A natureza a renovar-se é sempre um tempo de esperança a dirimir a solidão dos dias curtos e noites longas, cada vez mais longas, dando espaço de respiração mais lenta, mais pausada, a luz a ocupar espaço maior dentro de nós, capaz de afrontar as nuvens cerradas na espera de um arco-íris desenhado no céu.

A ressurreição acontece em cada primavera.
 


 

sábado, março 31, 2012

Lírica do Desassossego

Foi publicado este mês um novo romance de Rocha de Sousa, um romance diferente, na semelhança do que nos habituou a sua escrita sensível, de um realismo que leva à reflexão, onde os espaços e as pessoas têm nome, onde tudo se abre aos nossos olhos como o argumento de um filme que só ficou gravado em palavras de pintura por vezes surrealista, de que deixo aqui um excerto.


«Morri ontem, com a boca cheia de palavras e os olhos tapados de imagens […]

[…] Estou a caminho do cemitério, não sei onde, mas estou morta e sinto-me tranquila. Os anjos são masculinos ou não têm mesmo sexo? Minha mãe percorria as senzalas e procurava, de uma conversa vulgar, criar sinais legíveis sobre a vida, a família, os filhos, a história dos povos, o seu papel no mundo. Era um catolicismo sem pompa nem circunstância, não dependia da missa nem de outras liturgias. Talvez ela tivesse reencarnado de um verdadeiro missionário.
Agora sim, estão a baixar o caixão, nave estreita e em madeira, que entra na terra fresca da cova e aí fica, autónoma. Choram não sei bem onde. Pazadas de terra começam a cair sobre o meu rosto protegido. Mas é como se a minha boca fosse bloqueada, completamente entulhada de papéis e terra. Nos olhos, agora, só passam, contra o escuro, imagens fragmentadas de gente conhecida, familiares, tios, primos, amigos correndo, ao longe, como se holofotes rasgassem a noite e mostrassem, só por instantes, um rosto espantado ou um animal a correr. Nesse minuto nunca vi nenhum anjo, nem pessoas que conhecera através de velhos retratos.

Pela primeira vez, em muitos anos, não sinto o corpo. Esta suspensão é irrepreensível. Será este o lado sensível da alma? Apenas tenho a certeza de que morri ontem. Ou hoje de madrugada.»

quinta-feira, março 15, 2012

Espera


Do outro lado da parede fibrosa, atrás da mesa verde, um sonho de retorno identifica-se com o nosso próprio corpo rendido, com os degraus do espaço e do tempo, acabando por se contrair para a dimensão corrente do visível, de novo o lado de cá dos cenários, copos sujos, nódoas, as coisas comuns de um quotidiano feito de esperas ou impulsos disfarçadamente primitivos. Posso ver, em vez do papel molhado, uma superfície de mármore, lisa e larga, um azul infiltrando-se liquidamente no espaço de súbito cheio de claridades, mas algo em mim destrava o aviso das horas, um anoitecer vermelho e roxo que oscila na orla da retina, que se converte nos reflexos crepusculares ainda suspenso dos vidros.
Rocha de Sousa in «Angola 61»

                     
Há sempre um outro lado da história que fica no verso, que ninguém pode ler sem se deslocar nos degraus do espaço e do tempo. E como é difícil contornar esse aparentemente leve pormenor, direi antes, o pormaior de simplesmente virar a página entre as mãos.

Cada um de nós vê perto de si o que quer ver, na página esplendorosamente branca aquele levíssimo ponto negro a manchar todo o cenário, um cão negro correndo no campo de neve, na estrada limpa e larga um cadáver qualquer. E os corvos cumprindo um primitivo impulso cívico.

Há uma tendência natural para o equilíbrio, cada um complementando o outro, limando arestas, adoçando o presente intolerável com a intensidade das cores, o mar pintando tudo de azul, o crepúsculo presenteando uma tela de espanto. Quando o corpo se rende à beleza palpável do presente que o rodeia, quando numa curva da cidade emerge de repente um canteiro de flores, entre massa verde umas pinceladas de amarelo forte raiadas de castanho, talvez malmequeres, olhando para nós, o espírito esquece por momentos todos os males, as preocupações do mundo inquieto que vivemos.

Logo depois o sonho perdido do retorno quebra o corpo de cansaço, a espera do esplendor das rosas dilui-se no céu sem nuvens, os dias sucedendo aos dias, o tempo morno aquietando tudo, aplacando a ânsia do ver, do sentir, as mãos quietas sobre o regaço.