sábado, agosto 17, 2013


Falta pouco 
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade
as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar.
Carlos Drummond de Andrade
 
 
Devo ter morrido. Os dias quentes amontoam-se sobre o prato do corpo como panquecas saídas do lume, um atrás do outro, lisos, redondos, iguais. Mesmo dos telejornais não jorra senão lume, casas e carros e pessoas, tudo cremado pelo calor. Para além das outras mortes anunciadas, os milhares de professores sem emprego, as centenas de funcionários das escolas a expurgar porque em Portugal a educação é excessiva, porque o orçamento não suporta o peso da educação. Suporta a demagogia de governantes que não descem do pedestal, não cortam nas despesas duma governação incuriosa e injusta que nomeia num único dia umas dezenas de secretários de estado, mais o rol de benesses que lhe estão acoplados, mas esses não são "funcionários", é uma palavra demasiado plebeia, só têm de comum o facto de serem pagos, mais bem pagos, pelos impostos daqueles a quem é retirado o direito de trabalhar, mas não o dever de pagar. 
 
Voltemos às panquecas. As panquecas que passam a chamar-se crepes - lá está o nome excessivamente plebeu - quando dobradas delicadamente uma e outra vez embrulhadas em creme dourado e perfumado a citrinos, tão finas e nobres que adquirem nome de mulher, Susette, de consoante dobrada porque é à francesa e os franceses são melhores do que nós, ou não fossem estrangeiros. As panquecas, dizia eu, podem colher-se individualmente, como os dias, podem rechear-se de guloseimas doces ou salgadas, como os dias, podem comer-se simples, polvilhadas com o açúcar e canela tão português, tão natalício, gostosas e olorosas como as flores que se compram no mercado e enfeitam a casa quando não há por perto a urze ou a madressilva que se oferece pelos campos.
 

1 comentário:

heretico disse...

grato pelo abraço em memória do Urbano.

beijo