quinta-feira, abril 12, 2012

Amores-perfeitos


Ainda o sol vinha em Castela quando se abriu devagarinho uma janela no segundo andar da hospedaria. Encostou-se ao parapeito uma pequena dos seus dez anos, linda que nem uma princesa encantada. O cabelo era tão louro que chegava a parecer branco; e os olhos eram de um azul tão escuro que chegavam a parecer pretos. Chamava-se Iria.
A Iria não sabia que era linda; ou, se sabia, não se importava, nunca pensava em tal. Nunca pensava na sua pessoa; havia tantas outras coisas que a interessavam!
Encostada ao parapeito da janela, ficou ali um bocado a olhar para a vista. Na claridade ainda turva do alvorecer, apareciam os bosques e os jardins do Toutiço e depois por aí fora, por aí fora, estendia-se a imensidade da charneca. Do lado onde o sol ia nascer erguia-se uma correnteza de montanhas tão altas que os seus recortes de confundiam com as nuvens; e do outro lado da charneca, ao poente, lá muito ao longe, havia uma grande mancha negra que se estendia como um comprido borrão de tinta a separar a terra do mar. Isto era a floresta. A enorme floresta.
Os olhos da Iria fitavam a floresta. E toda ela tremia de desejo.

                 D. Virgínia de Castro e Almeida in «Aventuras de D. Redonda»



Já aqui tenho dito que gosto da chuva, que a chuva me lava a alma, que a falta dela me enfraquece a respiração. Não que sofra de alergias reais, é uma alergia espiritual que me enrola toda, o inverno é para haver chuva e neve e não um sol que permanece teimosamente num lugar que não lhe pertence por inteiro. Tudo a seu tempo, o sol para nos fazer descer à praia, a chuva para regar os campos e as almas pelo inverno adiante. Principalmente para nos regalarmos com uma visita ao avesso, para alegrar as hostes.

Como um dia de chuva na praia ou um sol benigno a alegrar um inverno de rigor, uma amiga de há décadas ofereceu-me um livro, um livro velho, antigo, respeitável, amarelo do tempo, irregular no amontoado das folhas pelo rasgar delas a possibilitar a leitura, cosidas as folhas, na capa um fulgurante centauro de asas vermelhas com dois meninos no dorso. Só de olhar para ele, de manuseá-lo, regala-se-me a alma.

Foi um dos grandes livros da minha infância, oferta de meu pai. Foi o meu livro de cabeceira por largos anos porque aquela menina era eu, aquelas aventuras eram minhas também. E reencontrei-o depois de esquecido por décadas, durante uma conversa sobre António Lobo Antunes. Fui assistir a um lançamento de um livro e, quando declinei o nome para que ele mo dedicasse, ALA lembrou-me «As Aventuras de D. Redonda». Foi na sequência desse episódio que a conversa de café floresceu e deu fruto.

Ah, e também fiquei a saber que, na década de setenta, a Santa Iria da Ribeira de Santarém deixou que o Tejo lhe molhasse os pés. E o mundo não acabou.

1 comentário:

Nadine Granad disse...

Ah, que lindo... sobre a chuva!
... e que Camélias!!!!

Beijos =)