quinta-feira, setembro 15, 2011

A importância de chamar-se Americano

De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fernando Pessoa


Americano dos Estados Unidos, leia-se no título, porque a América é todo um continente e um mexicano dizer-se americano seria uma ofensa para os estadunidenses, como bem lhes chamam os brasileiros, uns e outros com o mesmíssimo direito de se dizerem americanos. Até na expressão linguística, para além da língua tornada universal, até nisso o poder dos Estados Unidos se estendeu pelo mundo, com o direito de se considerar a maior potência mundial quando outras potências se erguem já, perto e longe, paulatina e seguramente, em todos os sectores, desde a economia ao armamento. 

O 11 de Setembro não mudou coisa alguma na vida efectiva do comum dos americanos, para além de acender guerras sem quartel que em dez anos lhes desmantelou a economia, os obrigou a suspender o investimento na Investigação e Ciência, deixou os pobres mais pobres e fez florescer as indústrias ligadas à guerra tornando os ricos ainda mais ricos. Combater o terrorismo é uma falácia perante as evidências dos interesses económicos subjacentes, falar em defender os direitos humanos é uma enormidade, se atendermos às necessidades prementes de povos subjugados e massacrados em vários países africanos, se olharmos à miséria que as guerras provocadas no Médio-Oriente produzem em grande escala.

Ser americano é sentir-se protegido em qualquer ponto do globo, só por sê-lo. Ser americano é ser intocável, e apenas esta noção mudou na consciência de alguns, poucos, que deram conta da sua vulnerabilidade da maneira mais cruel. Não foi pelo número de pessoas desaparecidas que o mundo se chocou, porque muitas mais se afundam em valas comuns em genocídios que continuam a perpetrar-se sem que haja disso visibilidade. O que chocou verdadeiramente foi a forma utilizada – à altura de uma América – atingida no centro vital, na cidade vital, no centro vital da defesa, no pulsar da economia, na certeza da segurança. 

A Europa quedou-se estarrecida porque se sabia vulnerável, jogando com a única arma que a pode salvar: a educação para a civilidade, a tolerância entre os povos, a compreensão e a verdadeira democracia que tem de unir todos os estados europeus, se quiserem continuar na linha da frente no que toca à preservação dos valores universais de humanidade, igualdade e fraternidade, que conduzem à paz possível, à liberdade possível. 

É a velha Europa que tem de saber dar-se as mãos e partilhar a prosperidade, não mais desejar perder-se na ostentação à custa dos mais fracos. Exigir, sim, um esforço comparável entre os seus membros para um resultado favorável a todos; dar o mau exemplo de explorar os mais desatentos ou menos hábeis é desumano e inglório. Os europeus querem o respeito que a sua História lhes merece, só a união e a harmonia lhes darão a sabedoria necessária para enfrentar os novos desafios do século.

Saibamos ganhar pela força da inteligência.

4 comentários:

Manuel Veiga disse...

excelente! excelente...

como eu admiro o teu olhar vibrante ( e sereno ) sobre as coisas e acontecimentos...

beijos

Nilson Barcelli disse...

Comungo do teu ponto de vista.
Que foi exposto de uma forma excelente.
Querida amiga, tem um bom resto de domingo e boa semana.
Beijos.

Rocha de Sousa disse...

Muito certa e intensa a sua vontade
afirmativa após o aniversário do 11
de Setembro.
Grandes, os norte-americanos inven-
taram o triunfo capitalista, embora
tomados de cegueira diante das pe-
riferias que a Alemanha considera
como se sabe.
Claro que sim, o 11 de Setembro não
mudou o mundo, mas atrapalhou a história: porque alguém atingiu o gigante à sua escala, porque as ré-
plicas «sísmicas» criaram uma ca-
deia de guerras, de derrapagens
financeiras e económicas, sacudin-
do a Europa de senhoras velhas e xenofobias perturbadoras. Se não
houver a tal inteligência serena,
a guerra global atravessará países
de sucesso e bandoleiros que enchem
a Suiça e outros buracos assim de todo o dinheiro que escasseia aos
pobres-cad-vez-mais.
Há quem diga que a tragédia pode
trazer a redenção, mas as mentiras
que se colam à leitura do 11 de Se-
tembro podem levar ao futuro sinais
de uma assombrosa maldade. Porque
hoje sabe-se, na perfeição, que as
torres derreteram a 1500 graus e não sob os 800 do impacto fabuloso
do avião de passageiros.
Houve quem dissesse sobre esse acto
de terrorismo internacional:
«Foi, sem dúvida, a maior obra de arte jamais produzida pelo homem».
Perigoso, o dito, no rasto da per-
formance e seus efeitos.

Manuel Veiga disse...

tudo bem?

beijo