sábado, setembro 04, 2010

Intercâmbio



[...]Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Ernesto Lara Filho, in «Infância Perdida»



Fotografia da Web

Há pedaços de vida que encantam momentos, pedaços pequeníssimos de papel recortado em fina serrilha, colorido, desenhado em figuras preciosas, veneráveis, graciosas. Os selos, as estampilhas fiscais, os selos de Assistência, sempre verdes, que não tinham valor, tal como mais tarde os selos de Povoamento.

Desde muito cedo me assumi, a exemplo de meu irmão, coleccionadora de selos. Isso dava direito à recolha de todos os envelopes das cartas chegando pelo correio – no tempo em que se escreviam cartas – e também o direito a pedir, eventualmente numa ou outra casa de comércio ou repartição, a alguém conhecido, se podíamos retirar aqueles pedacinhos coloridos, antes do papel de embrulho ser atirado para o lixo. Mais tarde, a corrida aos envelopes de primeira tiragem, mas isso é outra história. Coleccionar selos significava um trabalho minucioso: primeiro mergulhar num recipiente com água os pedaços de papel e esperar que a cola se desfizesse e deixasse separar os selos sem ferir a serrilha, o que os tornaria imprestáveis. Secá-los depois ao sol, sobre jornais, e pôr de parte os repetidos para serem trocados entre amigos, guardando os mais perfeitos em pequenos envelopes brancos, assinalados com o nome do país de origem, eram afazeres prazeirosos que constituíam horas de entretenimento e auto-aprendizagem.

Os selos de Angola e Moçambique eram lindos, com pássaros, flores, borboletas, conchas, figuras indígenas diferentes de cada região. Mas eram sempre os mesmos e o passo seguinte foi encontrar correspondentes na Europa onde eram soberanamente apreciados, como percebemos bem mais tarde. Para nós, receber selos de países europeus era uma conquista invejável, pois chegavam às nossas mãos envelopes enormes carregados de novidades, países que fomos aprendendo a conhecer e a situar, quando mal conhecíamos a primeira língua estrangeira, deliciados com o remetente «Ton ami français de Nantes». Andorra, Liechtenstein, Mónaco, Nederland, Deutschland, England, Helvetia, faziam-nos correr ao Atlas da capa azul de João Soares.

Outros tempos, outras ocupações de criança, outras latitudes, sem a sombra inquietante, perversa, monstruosa, voraz, traiçoeira, aviltante, destruidora, que persegue os meninos de hoje. Decididamente, fomos mais felizes.

5 comentários:

Justine disse...

Que belo retalho da tua infância. E concordo: as nossas infâncias, as desse tempo de há 50 ou mais anos atrás, eram mais ricas, mais partilhadas, mais felizes...
Um beijo

Rocha de Sousa disse...

Sou um sobrevivente dessa época e dessas tarefas ou aprendizagens de
belíssimo recorte imagético,marca
de gentes e bichos, das geografias
longínquas: meu pai era um grande
coleccionador, na numismática e na
filatelia, e dele ainda possuo muitos selos, moedas, tendo assim
aprendido as técnicas de tratamento
dos selos e das moedas,a sua origem
e data, o seu valor.
Era de facto uma infância assim começada no enlevo da ciência e da
arte, pelos selos,pelos livros antigos, por restos de utensílios
de gente mais remota,artes simples,
escritas mágicas. Este post é uma lição de ser em humanidade, de ser
criando.Porque não futuro sem isso.

heretico disse...

um texto eternecedor.
com um final pungente.

bela a tua arte de cerzir palavras. minuciosa e delicadamente...

beijos

M. disse...

Julgo que tens razão, a vida dos meninos de hoje é preocupante. Resta a esperança de que cada um consegue sempre voar com as asas que tem e descobrir o céu do seu tempo. Só pensando assim nos angustiamos menos, nós avós deste tempo.

vidavivida disse...

Tambem sou um sobrevivente dessa época e vivi precisamente esses momentos deliciosos que me fizeram passar o tempo e aprender um pouco essa arte de colecionismo.
Depois vieram as moedas e mais tarde as notas, belos tempos, eram outros tempos não há dúvida!!!!!!