terça-feira, janeiro 05, 2010

Presunção

 
«Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa.»
 




Uma vez chega para viver quando a vida é grande cá dentro, porque nem cabe mais nada. É só preciso arrumá-la para que saibamos onde encontrar o que precisamos nas encruzilhadas que vão surgindo, para que as memórias ajudem a orientação de nós.

E contaram-se cinco décadas depois que desapareceu o homem que me acertou os passos quando a juventude se perdia pelos sonhos que a vida não poderia concretizar. O primeiro encontro foi de espanto e recusa, no primeiro ano de faculdade. Mas a sua morte prematura fez-me encontrar a beleza e a verdade das palavras, na sua visão diferente dos valores humanísticos tradicionais, aquele olhar sereno que me pareceu isento dos sentimentos como me ensinaram a demonstrar, os sentimentos que afinal ele vivia intensamente, tão profundamente, tão lucidamente, apenas despojados de lágrimas correndo pela face, um rio de intenso caudal deslizando no íntimo, na certeza da foz.

Para além do escritor estava o homem pied-noir, preso à terra que o vira nascer e lhe moldara o sentir, entregue depois à terra que o acolhera e lhe dera o conhecimento novo. Nunca soube destrinçar o amor que brotava pelas duas, clamou pela igualdade e solidariedade entre todas as raças e credos. Não falou de religião, falou de amor e entendimento. Identifico-me com ele, é na sua obra que busco as minhas certezas. 

Publicou «L’Étranger» no ano e no mês em que nasci. Sinto que o escreveu para me mostrar o caminho. Esta, a minha vaidade.


4 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Linda homenagem a Albert Camus, ho-
mem inteiro, escritor, filósofo e
poeta da vida. Ele falava-nos com
as mãos lavadas e o coração pulsan-
do de amor. Em volta, o absurdo só
perderia opacidade com um disparo
contra a não existência.
«Pensei que passara mais um domin-
go, que a mãe já fora a enterrar,
que ia regressar ao meu trabalho,e
que, no fim de contas, continuava
tudo na mesma.»

Justine disse...

É um luto contido, o teu, e uma homenagem emocionada, o nos transmites no teu texto. Toda a nossa geração foi marcada por Camus, eu não saberia traduzir essa marca de um modo tão belo.

heretico disse...

também li na juventude Albert Camus e o "Estrangeiro", que depois me lembro ter visto numa (péssima) adaptação ao cinema.

dessa época, "Les Dannés de la Terre" de Franz Fannon, esse sim um "pied-noir" que me marcou...

grato por esta "revisitação"...

beijo

M. disse...

Belíssima homenagem a Camus. E de certo modo também a ti, pela vida que foste descobrindo fora e dentro de ti.