quinta-feira, maio 28, 2009

Pássaros


Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.

Jacques Prévert




Nada a fazer. Há dias em que o meu canário cá dentro não canta, como diria o menino do Meu Pé de Laranja Lima. Não canta, não voa, mantém-se alheado na sua tarefa de alisar as penas. Posso acenar-lhe com a melhor alpista, com a mais fresca folha de alface, põe a cabecita de lado a olhar-me com aquele olho redondinho e brilhante. Não come.


Então cresce em mim aquela força de Prévert, a vontade imensa de pegar num lápis, desenhar uma gaiola bonita e colocá-la cuidadosamente entre os ramos de uma árvore frondosa, com a porta aberta. Talvez entre por ali um passarinho. Um peito-celeste ou um bico-de-lacre, por exemplo. Também poderia ser um pisco-de-peito-ruivo, daqueles que fazem vénias a agradecer se lhe deixam comida no muro e reclamam estridentemente da chegada do gato ao seu território. Se aparecer algum, pego numa borracha e apago cuidadosamente cada barra de grades da gaiola e deixo o passarinho pousado na árvore, como fez o Jacques.


Mas é preciso que uma ave se chegue e cada vez mais os grandes passarões não deixam que elas povoem os espaços, porque o pouco que sobra no mundo que temos mal chega para eles. «Eles comem tudo e não deixam nada». E também não se deixam apanhar, as gaiolas são só para os mais pequenos.



4 comentários:

dona tela disse...

Tem muita razão, Dona Jaawa. Eu hoje também falo de uns passarões que andam por aí.

Os meus respeitosos cumprimentos.

Rocha de Sousa disse...

Que estranhas histórias são estas?
Canto suspenso ou penas pesadas? E
o tempo e as grades e a companhia do cântico.
Aqui mesmo (já voltei) havia um pássaro (um canário) que era pouco inteligente, não distinguia a água do plástico transparente, nem tom-va banho,sítio próprio onde afinal
defecava com abndância. Zangado com a mudez e a imobilidade, levei-o para o Algarve e entreguei-o ao hdisso. Tem aquiomem que mo tinha vendido. «Quer outro?» «Fica aí a gaiola e amanhã ou depois venho buscar. E assim conteceu. Lá foi o bicho para a parede do quintal, piou, piou, ensaiou um trinado tosco. E no outro dia a minha mulher foi dar-lhe comida, deixando a portinhola aberta. Nunca mais o vimos. Lá vai um morrer na guerra da solidão. Em raiva fui ao homem. «Eu trato já disso: aqui tem um canário da Suiça.» «Porquê?» «Porque é um relógio a cantar.» Veio no poleiro, no chão do carro. E agora
aqui está a cantar à bruma que
desceu sobre Lisboa.

Justine disse...

Metáfora brutal, amiga! E tão verdadeiro, o que contas com palavras poéticas e afiads como lâminas...

tinta permanente disse...

A fábula (de palavras belas e harmoniosas) já é velha, estafada. A que a pardalala sempre vai aguentando com golpe de asa...

abraços!