segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O presente é já o futuro


Em que pensa, cardeal?


CARDEAL GONZAGA, como quem acorda, os olhos cheios
de brilho, a expressão transfigurada:

Em como é diferente o amor em Portugal!
Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento...
é o amor coração, é o amor sentimento.
Uma lágrima... Um beijo... Uns sinos a tocar...
Um parzinho que ajoelha e que vai se casar.
Tão simples tudo! Amor, que de rosas se inflora:
Em sendo triste canta, em sendo alegre chora!
O amor simplicidade, o amor delicadeza...
Ai, como sabe amar, a gente portuguesa!
Tecer de Sol um beijo, e, desde tenra idade,
Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade,
Numa ternura casta e numa estima sã,
Sem saber distinguir entre a noiva e a irmã...
Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas,
Como se em comunhão se entendessem as rosas,
Como se todo o amor fosse um amor somente...
Ai, como é diferente! Ai, como é diferente!

Júlio Dantas



Voar pela infância de há décadas e colher dela o néctar das flores silvestres, não significa menosprezar o encanto das flores de estufa actuais, sua beleza e viço.


Só a distância nos traz o olhar terno da saudade, dos temperos das gentes e lugares que são hoje mera utopia, não têm volta. Esbatidos no tempo, pelo olhar da vida, os medos pueris, as inquietudes, os desconfortos, as incertezas, os desejos de então de saltar barreiras, derrubar fronteiras, galgar os anos e os espaços, tudo refreado pela morosidade dos ponteiros do relógio, velho sábio, dono do tempo.


As crianças de hoje terão suas noites sem sono, se não já ouvindo a torre da igreja, se não contando o soar do pêndulo da sala, talvez olhando no tecto do quarto a projecção do correr das horas. Do mesmo modo perambulando a infância, se ela foi de amores mais do que dores. Que os afectos pesam como os sonhos, é tudo o que sobra quando os haveres já não contam e o corpo não corresponde ao que vai por dentro. Quando o corpo já não consegue dizer que é preciso parar as guerras que grassam pelos continentes.


Lembrar o passado não significa esquecer o presente. É tão só uma evasão momentânea, como ler um livro, como ver um filme. Quando os dedos correm pelas teclas do portátil sobre os joelhos, quando se olha os espaços da terra por esta janela aberta, quando o filho sorri do outro lado do mundo, nada nos faz maldizer o presente, nada nos faz desejar o retorno ao passado, senão repetir: «Ah, como é diferente o amor em Portugal!»



5 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Muito bonito e terno. O correr do tempo que nos endurece. A vida que passa. O gosto bom de algumas coisas que passaram e o presente que temos e temos de enfrentar.
Provocante.
Beijos,

Daniel

Justine disse...

É verdade Jawaa, lembrar o passado é dar mais força ao presente.
Texto encantador, o teu, que me fez voltar os olhos para esses tempos que já só existem na minha memória...

bettips disse...

Desfias e fias. Teces.
É uma romagem e uma evasão, sim. Contamos do "amor diferente": porque
o sorriso acontece do lado de lá do mundo, como dizia em baixo, "mesmo com os continentes separados".
Beijinhos Jawaa por estes momentos sossegados teus.

tinta permanente disse...

Será, Dantas, que o o Amor em Portugal foi assim tão diferente?...
Ah!, Dantas quanto gostaria de poder perguntar-te diferente de quê?. É que eu guardei todos os livros de História que me deste para ler e... não vi nada!
...
(também é verdade, eu sei, que só poderemos caminhar para o Futuro se aprendermos alguma coisa com o Passado...)

abraços!

heretico disse...

..."pode-se lá viver sem ter amado um dia!" ...

cultivas o gosto (antigo) de dizer. suave. intimo. sem pressas...

adorei o texto.

beijo