quinta-feira, janeiro 01, 2009

Outros mundos

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa


A chuva, as chuvas, os beirais pingando noite afora e, manhãzinha, aquele brilho de espelho longe, o rio mostrando-se, crescendo na anhara. Já não a tempestade roncando assustadora, as faíscas iluminando tudo por cima do estrondo anterior ainda troando. Repousado o céu, as chuvas alongando-se nos dias, ondeando apenas de intensidade.
Lá em baixo, no rio, a caça grossa saía dos capinzais das margens alagadas, desprotegidas da sanha das zagaias e caçadeiras, servindo de pasto a alegrias de conquista e de posse, alheias ao sofrimento das vítimas. A lei da vida sobrepondo-se à piedade com que a razão pretende dourar a simples desigualdade de oportunidades, o excesso de poder.
A anhara resplandece em tufos de verde brotando do negro ainda das queimadas de cacimbo, adornando os morros de salalé, bordando a vala, subindo alto na lagoa, amenizando, adoçando a paisagem antes agreste, fazendo-se savana. Nas lavras engrossando o milho, crescendo o feijão, a batata-doce e a mandioca, as manadas medrando nédias. Era então preciso trocar os currais do gado, atolado em lama de bosta ao fim de três dias seguidos de chuvas. Mantinha-se um dos lados do cercado e construía-se em simetria os outros três, atando os toros espetados no chão com landove. As vacas paridas recentemente ficavam de fora por causa dos vitelos e desciam da serra as chitas e as hienas.
Eram noites inquietas. Minha mãe, afoita, candeeiro na mão, ia saber dos ruídos no fundo da casa, se alguém batendo, se tão só as corujas nos telhados do armazém. Meu pai saía, madrugada alta, de espingarda ao ombro, a saber do gado, a ver das feras.
Eu tinha medo. Quieta, afundada no colchão de sumaúma, cobertor de papa por cima a proteger das trovoadas. Só a claridade do dia me enchia de vida outra vez, quando o fogão primus acendia o odor do primeiro cafezinho partilhado ao saltar da cama, antes da primeira refeição da manhã…

Acode-me agora, num repente, aquela voz de criança – no conto bonito de Augusto Gil em que os astrónomos previam o fim após uma colisão iminente da Terra com um cometa – entre lençóis que, ainda ensonada, pede à ama que a vem acordar:

- Ó Ana, vai ver se lá fora inda há mundo…!

9 comentários:

Paula Raposo disse...

Tão maravilhosas as tuas palavras! Uma doçura enternecedora. Assim senti. Muitos beijos.

mena m. disse...

Fico sempre à espera de mais, tão embalada que vou pelas tuas palavras!

Um bom ano para ti!

Virei sempre saber do que tens para nos contar...

Justine disse...

Este é tempo de projectos, mas também de recordações. Como são doces e acolhedoras as tuas recordações. Tantos mundos por trás do teu texto...
Um beijo e Bom Ano!

manzas disse...

“Reencarnação”

Foi em tempos… há muito tempo
Um tempo longínquo que já não sei…
Recordadas no momento de um pensamento
Pergaminhos da memória que furtei

http://pensamanzas.blogspot.com/

Uma boa semana com um abraço amigo…

heretico disse...

um Mundo que tingido a gosto
esse terminou...

belíssimo texto

beijo

Rui Caetano disse...

Muito bonito. Um bom ano.

Rafael disse...

Depois das chuvas, Noé pediu a uma ave para averiguar se ainda havia mundo.

Feliz 2009

vida de vidro disse...

A melancolia da chuva traz a lembrança de outras chuvas, de outros tempos. Belo. **

M. disse...

Tão bonito o que nos contas!