sexta-feira, dezembro 05, 2008

Abrir a Janela

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
É um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro


O meu rio cá dentro nem sempre tem o caudal necessário para que a corrente deslize naturalmente por lugares quietos ou mais acidentados. Simplesmente a água esvai-se, a terra absorve-a toda. Depois é preciso que chova torrencialmente, dias a fio, porque entretanto uma represa surgiu e é preciso mais força para derrubar o dique.

Nem seria necessário dizê-lo, parece que tudo chove e se desfaz em humidade que persiste entranhando-se nos livros antigos, cobrindo de bolor as luvas guardadas há anos na caixa antiga, roendo os ossos dos velhos. No paredão antigo de pedra, o musgo aparece alto, a despertar os tempos de menino, no seu encalço para enfeitar o presépio, lá onde o sol em Dezembro não dá alimento ao musgo. Lá onde se corriam as cortinas para cumprir os rituais desajustados do longe, construindo a manjedoura que não havia, porque o gado dormia em cercados abertos pela manhã para o pasto livre nos campos. Lá onde deveria deitar-se o menino deus pretinho e nu sobre a relva fresca, à sombra duma mulemba, duma acácia ou duma cazuarina, sem burro e sem vaca.

O lá não existe, nem aqui, nem lá. Chove em toda a parte e perdeu-se o azul, desvaneceram-se as cores do arco-íris do cinzento carregado de chuva, a névoa instalou-se e cai granizo agora. Ouço-o, batendo nos vidros. Vejo-me na rua a olhar as mãos cheias de pedrinhas brancas, metendo-as à boca, sorvete prenda do céu raríssima. Vem um sorriso cá dentro, do tamanho da menina. Da janela olho então o branco salpicando a relva e ornamentando a preceito o cascalho escuro onde o melro proletário, o bom trabalhador, virá pela manhã cumprir a sua tarefa.

Quero só lembrar que a janela está fechada e tem um vidro. Duplo, dizem. Mas não tenho a certeza de que seja verdade, que seja vidro, sequer.

13 comentários:

heretico disse...

não há vidro. não...
o texto extravasa a tua janela. como rio sereno alagando as margens...

belíssimo.

beijos

M. disse...

Gosto muito, Jawaa.

Rocha de Sousa disse...

A palavra pensa a imagem, escrevi no meu blog. Nada mais adequado pa-
ra se dizer, entre outras coisas, a
propósito deste belo texto de Jawaa
após os dias chuvosos, batidos pelo
granizo, e das pedrinhas bancas lu-
zindo nas mãos pequenas. O mito que
se encosta a esse processo, traz-
nos à memória um «presépio» à Caei-
ro, menino e relva, nem burro, nem
vaca. E após o dilúvio o ornamento
branco: estar vivo é deixar que os
olhos rasguem as madeiras e vidros
da janela, abrindo-o para que sai-
bamos correr a liberdade pela pai-
sagem.
Há uma sensibilidade quase secreta
neste texto e Caeiro é admiravel-
mente evocado. Àquem do vidro o olhar confunde-se com a paisagem.
Rocha de Sousa

bettips disse...

Não há vidro, não, que impeça um desânimo que não é do tempo
mas dos tempos.
Do fazer que não se pode.
Do transformar que se queria.
Dos diques que é preciso abrir.
...
Beijinhos

Paula Raposo disse...

Um belíssimo texto! Gostei de te ler. Beijos.

dona tela disse...

Desculpe, mas ando com pouca inspiração.

Bom dia para si.

Justine disse...

A melancolia jorra do teu texto e arrasta-me docemente para os dias da infância, mesmo de referências diferentes, mas no fundo iguais.
Muito belo.
E as janelas? Essas, é sempre preciso estar a abri-las...
Beijo

bat_trash disse...

Um dia a janela há de se abrir, e sem ação da chuva atravessarás o rio pleno sem que seja preciso um navio para te levar.

Bat Kiss.

andorinha disse...

Belíssimo!
A tua escrita encanta-me...

Beijinho

vida de vidro disse...

Tempos de chuva e recordações de outros tempos que desejaríamos reviver. Mas que já não são o que eram, nem para os que os vivem hoje. Hoje chove em toda a parte... **

mena m. disse...

Tanta nostalgia nas tuas belíssimas palavras, jaawa!

Um beijinho destas terras cinzentas e frias!

Lord of Erewhon disse...

Temos falta de melros...

Beijinho.
P. S. Postado; era para 13, mas adiantei-me.

Rafael disse...

A imagem ajudou a entender o texto escrito.

PS.: Sou um, perpetuo, admirador seu.