domingo, novembro 02, 2008

MULHER


Conheci uma mulher magnífica.


Percorreu a vida em sofrimento e revolta, porque dela não recebeu a possibilidade de concretização de todos os sonhos, embora lhe tenha proporcionado muito, do melhor e do pior. Foi uma mulher fascinante porque muito bela, de uma inteligência invulgar, utilizada para construir um mundo em seu redor que raramente correspondeu aos factos reais, nos pormenores mais insuspeitos. A existência nunca lhe deu tréguas, foi dura até ao fim. Viveu e espargiu quimeras, delineou fantasias, dramatizou factos e visões.


Terá sido a encarnação do romantismo porque viveu melancólica, assombrada pela doença que lhe ceifou afectos, pelo receio de perder o fruto que lhe coarctou anseios, depois de afrontada a família, estigmatizada por uma sociedade que lhe demarcou fronteiras – nascer no tempo certo faz toda a diferença e um século é muito tempo! – Urdiu assim uma teia para sobreviver, com paciência e denodo, em dor, em solidão e revolta. Lutadora, delimitou o seu espaço, apagou factos e alterou datas, rasurou a esperança do seu nome. Chorou, amou outra vez. Sofreu sempre. Fez de cada vivência um drama porque não sabia agir de outra forma.


O carinho guardou-o dentro de si ciosamente, sem o alardear. Era, porém, extremamente bondosa. Sabia dividir o que tinha, sentia as necessidades dos outros e colmatava-as como podia. Sabia ser doce e seduzir corações.


Os seus olhos fundos e tristes conquistaram até ao fim os que souberam amá-la. Quereria ter sido um deles. Não sei se o consegui.


Era a minha Mãe.



4 comentários:

Justine disse...

Texto emocionante, de ternura e compreensão.

andorinha disse...

Não consigo dizer rigorosamente nada, amiga.
Comovi-me ao ler-te e quando assim é, as palavras não saem...

Beijo grande.

M. disse...

E teve uma filha que mostra bem ser filha dela. Belíssima homenagem, Jawaa.

bettips disse...

Ela e por ti, deixou-nos palavras tão de afecto. Tão de pensamento fundo ... Nunca se te pode ler sem sentir a bondade, a sensatez. Essa herança ela deixou e sentimo-la, aqui!
É um gosto, J.
Bjinho