quarta-feira, novembro 12, 2008

Caminhada

Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pé na casa, a mãe ordena
que o furtado colchão, fofo e de pena,
a filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
lhe diz co’a doce voz que o ar serena:
«Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
olhe não fique a casa arruinada…»

«Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
já a mãe não tem mãos?» e, dizendo isto,

arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
Nicolau Tolentino


Os tempos mudaram e nós temos dificuldades na adaptação.

Dantes, as pessoas viviam menos, ou menos tempo jovens, direi melhor, menos tempo activas. As mudanças faziam-se mais pausadamente, quando as havia. Mais cedo se atingia a maioridade da vida em que nada mais se aprende, em que tudo é uma repetição do mesmo, com outros contornos, mas igual ao que já se conhecia. O que vinha de realmente novo era para os meninos, não cabia aos avós aprender. Estes eram fonte de conhecimento mas também livro fechado, arrumado quantas vezes na estante, coberto de pó e sem préstimo.

A juventude é a fuga às raízes em direcção ao sol, à vida que promete e nem sempre dá. A vida que se anuncia e nos faz desabrochar em rebentos novos e folhas largas que se oferecem à luz benfazeja, à chuva que reverdece e consola. Porém há o granizo, o gelo, a geada, o sincelo, há o vento suão que também queima.

E a polinização. E as flores que brotam frágeis, tão macias, tão olorosas. Elas fazem-se fruto e nós perdemos folhas. Mas o futuro? Reverdeja a cada primavera, cada vez mais lento, cada vez mais nodoso, mais seco, mais enrugado, mais retorcido.

Mas permanece. Ou vem uma tempestade que nos derruba ou esperamos pacientemente a queimada redentora que nos consome.

6 comentários:

bettips disse...

Vem uma melancolia no caminho.
Nas paredes dos prédios. Nos anúncios.

Falemos então do que gostamos!
Não vi a exp. na Gulb., as fotografias são de S. Vicente de Fora, em Lx. Quando "lá" vou, a Lx, sou turista em descoberta.
Tomara o vôo mas tantas vezes tenho as asas tão pesadas! Como se gente fosse chuva.
Bjinho

Rocha de Sousa disse...

Os passos e os quotidianos de ou-
trora sabem-nos sempre à perda de
qualquer coisa plácida, da estabi-
lidade de vidas afinal mais curtas.
Num texto de novo bem tocante, a
autora reitera um temperamento pan-
teista, configurado pela verdade intemporal dos seres e das coisas, sempre com uma dobra de lucidez pa-
ra a altura dos cinzas e das tem-
pestades aprisionantes.
Rocha de Sousa

heretico disse...

belíssimo texto. de um tempo maduro. delicado e sóbrio...

(sorri ao reler o soneto Nicolau Tolentino)

abraços

TINTA PERMANENTE disse...

Os tempos, sempre, nas impávidas indiferenças de cada um dos grãos da areia que escorre na ampulheta do todo, o tempo, sempre foi igual. O Homem é que o olha e o mensura ao tamanho dos seus sentidos e dos seus desejos. Que, na verdade, sempre o enganaram...

abraços!

Betty Branco Martins disse...

.querida________Jawaa






.gosto de ler os soneto Nicolau Tolentino



os seus textos são sempre_____soberbos!











beijO______C_______carinhO
bFsemana

Justine disse...

Se calhar o segredo da juventude é exactamente não dar importância ao tempo, este ditador implacável, e continuar como se ele não existisse...