quarta-feira, maio 14, 2008

Tanto ainda para dizer


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca



Cada vez gosto mais de ler Lobo Antunes.

Não estou a falar dos livros, mas dos pedaços de si que deixa em cada crónica que escreve quinzenalmente. Tem momentos de intensa felicidade nos quais consegue passar-me as suas emoções como aquele pardal do meu telhado que vela incansavelmente por sua dama e sua prole crescendo no buraco do ventilador. Ele canta sem parar, tem de manter-se alerta e dizer ao mundo que tem os seus ovos a chocar, há novos pardais a nascer. E grita a sua presença, a sua ansiedade, a sua felicidade de progenitor.

António Lobo Antunes tem a ventura de ver reconhecido o seu talento inegável por quem é português como ele – e por quem não é – por quem aprecia de facto a sua mestria nas letras, na simplicidade do registo que ele mistura de humor e angústias e alegrias, rememorando convívios e cumplicidades, olhando os pombos e diferenciando-os, colando-os inconscientemente às gentes que o cercam. Ele entra na lavra dos outros, penetra em cada autor, revela o sofrimento e a dor de cada palavra conseguida, cresce quando diz que foi o sofrimento dos que viveram antes dele que possibilitaram a sua escrita hoje. A eterna metáfora do sofrimento que dá a vida: Cristo na cruz. A mãe parindo um filho.

Nesta última crónica da Visão, ele consegue comover numa súplica dolorida que lança para a eternidade que deseja: «E os pombos de Paris a olharem para mim de banda, com vontade de me engolirem. Por favor não me engulam por enquanto: há tantos livros em mim à espera de serem escritos.»

Depois de o citar, não me atrevo a dizer mais.

8 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Bom, este Mar não pára... :)

Eu gosto muito do Lobo Antunes, apesar de ser um gajo difícil, admiro-o muito, apesar de não ser seu intímo, conheço-o pessoalmente... é cada vez mais um solitário iluminado, e espero que dure até aos 90 anos e não páre de escrever. Portugal não precisa de homens inteligentes, precisa de homens muito inteligentes capazes de crueldade!

Beijos.
P. S. O Império respondeu à menina... Agora só estou à espera que me apareçam os Palhaços Ricos e os Palhaços Pobres a acusar-me de estar a fazer a saudação Nazi! :)

Carla disse...

duas escolhas de encantar...e quanto a Lobo Antunes sabe que as palavras são uma arma poderosa e usa-as como ninguém...um autor mais-que-perfeito

herético disse...

a tua "crónica" em nada desmerece Lobo Antunes...

bettips disse...

Como era dia da famílis, diziam, gostei de ver o pardal no seu lugar, ainda por cima contente. Ternuras nuturais.
Lobo Antunes é diabolicamente capaz de pôr a descoberto os ínfimos recantos da alma, nossa também no que respiramos comum. Especialmente as Crónicas são encanto, por directas, por passado que nos passa à frente como se o víssemos brincar em Benfica.
Tenho a maior parte das obras, menos as últimas que me têm sido penosas de ler: mas dever-se-á à minha confusão e não á dele!
Abçs

bettips disse...

Esqueci-me do lírio roxo, da Florbela, Bela e só, que assim ficou quase acompanhada...
E já agora, acima: "família" e "não à dele", rectifico.

Rocha de Sousa disse...

Lobo Antunes é um grande escritor que honra a língua e a literatura
portuguesas. Os que o sabem ler as-
sim, como a jawaa, livre de pesqui-
sas pueris, são os poetas leitores
que ele mais aprecia, porque não
questionam, porque são capazes do livre exercício de ler o ilegível,
de inventar com o autor os versos
acutilantes que, cada vez com mais
frequência, se desprendem da «maté-
ria» densa e aterradora que enche
muitas páginas vindas do próprio inconsciente. As «crónicas» parecem
uma espécie de retorno sensível a
uma inteligibilidade comovente que,
no fundo, nunca o abandonou.
Rocha de Sousa

M. disse...

Fabulosa, toda esta ligação que fazes entre Florbela Espanca, o lírio, Lobo Antunes, e as tuas palavras.

Nilson Barcelli disse...

Estou farto do Lobo Antunes.
Dos livros, entenda-se... o último que publicou, que já nem me lembro o título, parei a meio...
Mas as crónicas que ele escreve na Visão são soberbas. Dessas gosto, tal como tu. A que referes aqui é uma maravilha, mas já li melhor.

Beijinhos.

PS: vou colocar o teu link.