segunda-feira, maio 19, 2008

Deixem a língua fluir...


Mia Couto é um escritor de letra maiúscula que brinca com as palavras a seu gosto mas mantém a sintaxe na ordem correcta, pelo que pode à vontade criar neologismos desregrando as palavras, dando-lhe nova vida, comunicando numa nova realidade linguística que é a sua, a moçambicana. O Português de Moçambique. Recebi por email este excerto, é de algum modo uma forma muito sua de comentar o Acordo Ortográfico.



«Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: 'aquabou'?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: 'finanças'?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.»

Mia Couto

11 comentários:

Rafael disse...

Desculpa, hoje, sem palavras.


Abraços afetuosos \o/

mena m. disse...

Mia Couto é um génio com um coração do tamanho do mundo!

Adorei o post e não menos a tua introdução!
Parabéns Jawaa!

herético disse...

excelente e oportuno post...

quem linguareja assim, não é gago...

Justine disse...

Mia Couto é talvez o maior escritor vivo de língua portuguesa, e os textos não literários dele são sempre uma lição de criatividade, de civismo, de inteligência.
Obrigada por este texto, que eu não conhecia :))


P.S.: gostei muito do teu texto do "jogo das 12 palavras", e da referência ao "anfitrião :))

M. disse...

Fantástico, este texto do Mia Couto. Admiro nele a pureza de pensamento. Acho que ele a tem, a par com a inteligência e a poesia com que vê e sente a vida.

dona tela disse...

Fiquei en-can-ta-da com o seu blog, Dona Jaawa.

O meu não se compara. De maneira nenhuma. Mas, para variar, talvez a Senhora gostasse de lá dar uma voltinha.

Muito boa tarde e desculpe o incómodo.

rui disse...

Olá Jawaa

A tua sensibilidade para agarrar estes pequenos (enormes) nadas!

Deixo um grande abraço

Klatuu o embuçado disse...

Entre tanta «lusófona» ideia, sempre se esquecem das chuingas e dos machimbombos...

Ya, maningue, pois!

Beijo.

Nilson Barcelli disse...

Li a tua pequena participação nos 3ºs jogos das 12 palavras, onde também entrei, e gostei do que li.
Daí que tivesse vindo aqui dizê-lo.
E deparo-me com um post muito interessante e bem humorado sobre um acordo ortográfico, do qual eu nem sequer tenho opinião...

Bom fim de semana,
Beijinhos.

vidavivida disse...

Para uma pessoa como eu que deixou há muito o hábito de ler, é sempre um prazer ler as coisas bonitas escritas em bom português, que tu colocas em teu blog.
Pelo que observo, o português de hoje, não sei se é motivado pelos telemóveis,(mensagens), escritas pela maioria da malta jovem ou pelo brasileirismo que, cada vez mais se enraiza nesta nosso cantinho á beira mar plantado, está uma desgraça.
Que fazer!!!!!!!!!!!
Modernidades de nosso tempo.
Beijocas

Rocha de Sousa disse...

Não votei o acordo. Não gosto do acordo. E tem desequilíbrios até onde pude ver. Penso, contudo, que,
para efeitos institucionais, docu-
mentos oficiais, protocolos, etc,
deveria haver normas apropriadas.
A sua sensibilidade à língua que nos é comum tem a marca das pessoas
sensíveis, dos verdadeiros poetas,
e por isso mais de acordo estou com
o seu post, baseando-se num escri-
tor que usa um português intercon-
tinental, misturando o que emerge
de Moçambique ou do Brasil, falan-
do pela malha de todos esses cruza-
mentos, a nossa história, afinal.
Rocha de Sousa