segunda-feira, outubro 22, 2007

Futuro



«Dor, amargura, melancolia. Quantas formas de se ser vencido no que desejávamos. Mas ao longo delas, o que varia é a parte de nós que se submete. E mesmo, paralelamente, a parte perversa de nós que se contenta com isso. Assim o que varia é a parte de nós que se mede com o destino. Mas com isso não variará também a qualidade do sofrimento?»

Vergílio Ferreira



Acordo na noite quieta, àquela hora em que os carros não passam e os ruídos das casas já se apagaram. Não há crepitar de lume nem as madeiras da escada rangem como nas casas antigas. Roedores também não. E daí não sei. Algum ratinho de campo esguio e lesto entrará pela portinha do cachorro, virá comer os pequenos grãos olorosos, ele não sabe que é comida de plástico. E farta.

Estico a lembrança bem fundo, mentalmente encostada às grades da cama niquelada, sentindo o leve aperto na minha daquela outra mão frágil, enquanto afago com o outro lado de mim a testa e o cabelo ralo, aquele rosto doce, adormecido e magro, um quase sorriso sob o tubo transparente que lhe sai da narina.

Lá longe, onde a memória chega, que hei-de eu ver? Uma casa de banho espaçosa, ao fundo da varanda exterior. Junto ao tecto uma janela de vidro a toda a largura da parede, deixa espreitar buganvílias e cachos de flores brancas de outra trepadeira qualquer. Por baixo a banheira, talvez de ferro, porque esmaltada por dentro e nos pés ondeados; por fora escura, quase negra. Ao lado a sanita com um autoclismo no alto e uma corrente pendendo, de puxador branco e liso na ponta. O pavimento de mosaico hidráulico fazia desenhos azuis no chão e um pequeno degrau levava à parede oposta, onde havia um lavatório. Logo abaixo, na parede, sobressaía um murete estreito, onde pousava um sabonete sobre um pires de louça.

Não sei que idade teria. Entrei da varanda, saltando uma bola viva, tão viva que foi logo atraída pelo sabonete de cor. E o pires de imediato no chão em cacos.

Foi na casa de meu primo Eduardo, o afilhado de meu pai e meu padrinho de registo. Tinha acabado de casar e morava numa casa ao lado da nossa. Era jovem e tinha o futuro grande e bonito. Agora o futuro é mais curto.

Mas continua bonito porque embrulhado em afectos.


8 comentários:

Betty Branco Martins disse...

Querida Jawaa

Vergílio Ferreira________leio muito

A intensidade do teu texto__________ funde-se as palavras nos [de]sentires da intensão

Adorei

Beijinhos com carinho
boaSemana

M. disse...

Belo, o teu texto.

Rui Caetano disse...

Vergilio Ferreira é dos escritores que mais gosto. fiz o meu mestrado sobre oss eus romances.

Rocha de Sousa disse...

Acabei agora de ver uma belíssima exposição de fotografias, lugares e
gente, acasos de reflexos, o dia a dia, a luz, um belo preto e branco
sem data, que cola os anos 40 a 2007.
Digo isto porque a história que Jawaa conta é uma fotografia quoti-
diana, fresca, uma história quase sem corpo, simples, entre memórias.
Rocha de Sousa

Vladimir disse...

Texto magnífico, muito ao meu gosto...

APC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
APC disse...

Antes de tudo, um texto muitíssimo bem escrito. Entretanto, andamos contigo a visualizar essa casa da memória. Por fim, fica um registo, por entre a névoa branca, de um olhar de criança que em ti ainda reside. E os afectos.
Gostei muito.

naturalissima disse...

Viajar pelas tuas memórias, é de um prazer enorme.
Com simplicidade e muita sabedoria se escreve belos livros.
Espero que um dia possa ler-te assim... abrindo páginas de papel com histórias que tão bem sabes escrever.

Belo fim de semana para ti