domingo, outubro 28, 2007

Desconfiança

«Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

- Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo…»

Sophia de Mello Breyner Andresen




Desconfiança é um sentimento que está nos antípodas da Educação.

Partindo do princípio de que todos somos educados, não há lugar para a desconfiança porque seremos, em consequência, todos democratas plenos e saberemos respeitar-nos. Se há regras a alterar nas leis, novos critérios para aferir comportamentos, então espera-se que tudo seja divulgado, posto a discussão, ouvidas todas as partes e chegar-se-há a um consenso que sirva melhor a todos. Há sempre forma de dividir uma laranja, aprendi. Não vale a pena brigar por ela quando há dois a precisar de uma só. Se eu apenas preciso da raspa para aromatizar uma sobremesa, ou da mesma para a cristalizar, posso ceder os gomos para dessedentar outro. Assim, uma mesma laranja serve na perfeição aos dois, com a vantagem de não haver desperdício.

Aceitemos a palavra do outro. Sem suspeição. Tendo a certeza de que todos cumprem os seus deveres com civilidade. Seria a Idade do Ouro.

Mas o Homem não nasce bom. A história de Rousseau, do bom selvagem, não coincide com a realidade porque o ser humano é, antes de tudo, um animal e, quando nasce, sabe que precisa de sobreviver. Nem que seja à custa do irmão que atira ninho abaixo. Por intuição, sabe que tem predadores e o instinto de defesa é inato. A educação vem da sociedade que cedo lhe impõe as regras, os limites ao seu comportamento. Naturalmente. A urgência de impor o seu lugar no mundo não se coloca, se disso não sentir necessidade, porque não vê o seu lugar ameaçado.

Mas se, pelo contrário, nasce num local agreste, opressivo, duro, violento, ele tem de sobreviver. E porque tem regras na sociedade, e porque tem leis a observar, e porque tem de se proteger, e porque tem de sobreviver, e porque é inteligente, ele desenvolve mecanismos de defesa inimagináveis.

E basta um, um só, para perverter tudo. A desconfiança nasce. E oprime. E fere. E mata.

Também os sentimentos.


7 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Cara jawaa,
Terá sido oportuno publicar o poema
da Sofia e depois questionar um so-
nho de bondade universal.A poesia é
um fio de prata que toca na pele ao
sabor do ritmo das palavras, não de
uma razão substantiva.
Claro que o seu texto ensina-nos um
pouco de tudo a este respeito: tal-
vez não saibamos a origem e o obje-
ctivo da vida, mas sabemos que ela só se sustenta numa voraz luta pa- ra que o dia seguinte aconteça. E isso rasga os comportamentos e os
sentimentos que falou com magistral
economia de meios. O «possível» de Sofia não é a marcha redutora em que nos envolvemos, os leões na orla da floresta e nós nas vielas de uma civilização urbana sem des- confiança aberta e digna. O horror não cessa de farejar a nossa insó-
nia.
Rocha de Sousa

Klatuu o embuçado disse...

É impossível não sermos desconfiados... andamos a ser enganados e roubados pelos políticos há 3 décadas de pseudo-democracia!

M. disse...

Sempre tão humanos os teus textos no sentido pleno do termo "humano".

naturalissima disse...

Ponto delicado e sempre tão bem escrito, levando-nos a reflectir melhor sobre os sentimentos humanos.
Sem dúvida que a desconfiança é mortal.
A segurança dentro de nós é fundamental para que sejamos mais confiantes, mais lutadores...

Fico com esta para melhor saborear

boa semana para ti...

Betty Branco Martins disse...

Querida Jawaa

Gostei muito de ler o teu texto______faz-nos reflectir até no próprio poema de sophia

_____quase que posso afirmar tarefa “impossível” a busca pela verdade. a “verdadeira” cidadania. além da educação do bom cidadão principalmente quando queremos “re-pensar” o papel do homem enquanto ser individual ou quando em sociedade com outros indivíduos. se socializar pode significar uma forma de “degradar” ou de “transformar” a natureza dos homens em termos normativos. a boa socialização seria aquela que não contrariaria a natureza humana. isto é. sua essência. pois se esta é corrompida. a socialização é má e isso já definiria aquilo que a maior parte dos homens não quer para si.
mas continua. pois outros valores se levantaram “mais alto” a degradação cada vez é maior

Mas é assim que o homem é________a origem nasceu “perfeita” em termos humanos degradou-se por completo. agora só mesmo voltando ao princípio_____________às origem!!!

Beijinhos com muito carinho
boaSemana

Rui Caetano disse...

O texto e o poema interligam-se, bonito e boa ideia.

bettips disse...

Utopia em que tentamos caminhar, como crianças mal aprendendo os passos. Tentamos, alguns de nós! Bjs