segunda-feira, maio 06, 2013

POUR MAMAN

Perspectivas tenebrosas:
- Ser escritor é muito bonito para morrer à fome.
Lamentos:
- Porque não és tu como os outros?
Avisos:
- Olha que não sais do quarto durante as férias do Natal.
Queriam o que julgavam a minha felicidade, acho eu. Bem quiseram e não serviu de nada. A viúva da orquídea alcançou finalmente a porta e olhou para trás, com toda a tristeza do mundo na cara envelhecida: palavra de honra que deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.
António Lobo Antunes



Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.

Desculpa, António, ter-me apropriado das tuas palavras sem te pedir licença, ainda por cima sem nos conhecermos, sem fazermos parte de um mesmo qualquer círculo de amigos. É que esta frase caiu tão bem dentro de mim hoje, quando reli uma daquelas crónicas que publicas na Visão e eu leio, não direi que religiosamente porque não sou religiosa, mas esperadamente em cada quinzena. Tenho um dos teus livros de crónicas, que comprei num dia maçador à espera numa estação de correios atulhada de gente, mas felizmente com livros.

Falei contigo uma vez só, ou antes, dirigiste-me tu a palavra, depois de ouvires segredar no teu ouvido o nome que eu havia declinado mas não tinha atingido os teus tímpanos endurecidos pelos anos de tanto nome, tanto nome a pedir uma dedicatória em tanto livro publicado. Levantaste então os olhos para mim, azuis, cansados, doces, e lembraste um livro da nossa infância, um livro onde havia um cavalo do tempo e uma menina com este nome que me deram, saído das arcas antigas.

Tens sido o meu grande companheiro, foste o meu companheiro fiel quando o tempo se encheu de preocupações sem tamanho, ocupações de corpo que me retiraram o tempo de digitar palavras, sequer de conversar sossegadamente comigo. Aconteceu por acaso, apenas porque um dos teus livros pousava na altura onde sempre descansa algum para a fuga do dia. Como era um livro de crónicas, abria-o ao acaso e lá estavas tu com aquelas histórias que se vê bem serem tiradas das memórias breves de um canto da tua memória, que tu tão bem torces e retorces e adaptas ao que os teus olhos percorrem em cada dia que passa.

O meu coração pesa muito, pesa de saudade e já não tem grande força para suportar. Mas, por outro lado, pesa agora cheio de lágrimas comovidas pelas alegrias que me enchem, como as flores enchem a casa de cor. Vou querer merecer até ao fim dos meus dias a ternura dos meus meninos nas palavras grafadas no objecto precioso que me depositaram em mãos.

«L’amour n’a rien de mystérieux» disse o poeta, e eles a mim. Obrigada, meus filhos.

3 comentários:

Manuel Veiga disse...

o escritor é ornamento - o "suave milagre" é teu...

tão belo, que dói.

beijo

M. disse...

LINDÍSSIMO!

aquilária disse...

o peso da funda alegria. que o sintas muitas vezes, querida jawaa. tua leitora atenta, sempre.

um abraço.