sábado, dezembro 22, 2012

INOCÊNCIA



De entre as recordações mais antigas, quando eu era muito menina, ficaram-me as histórias que meu pai nos contava da raposa e do lobo (do Romance da Raposa, de Mestre Aquilino, vim a saber mais tarde), histórias repetidas vezes sem conta, a nosso pedido, meu e de meu irmão, e muitas vezes discutidas porque os episódios variavam nuns pormenores alterados aqui e além, e nós estávamos atentos. Havia ainda a história da velha que tinha ido à festa e se metia numa cabaça para fugir do lobo mau; parece que ainda hoje vejo os gestos expressivos e as gargalhadas de meu pai a tornarem tudo mais excitante.

Não sei se para fugir a imprecisões que nós não deixávamos passar, se apenas por sermos já mais crescidos, também nos lia contos, eventualmente saltando espaços, mas lia para nós, e o Natal não sei porquê, traz-me essas lembranças mais perto. As noites eram mais longas quando estávamos na fazenda e recordo-me de pedir as leituras numa altura em que eu já sabia ler, mas era ainda difícil, e afinal tão mais bonito lido por meu pai.

Dessa época lembro esta história que vem a propósito, um conto de Augusto Gil, em que um qualquer astrónomo, grande estudioso, nas suas pesquisas, descobriu um dia um cometa. Estudou o seu percurso, fez contas e mais contas e concluiu que o mesmo viria colidir com a terra num preciso momento, hora, dia, mês, tudo matematicamente provado para consternação generalizada.

«Só passados seis dias o astrónomo, batendo uma punhada de tremenda cólera no tampo da secretária, viu que se enganara…Uma vírgula, um estupor de uma vírgula posta fora do lugar, fora a causa daquela catedrática estendência. Para sustar o fiasco iminente, transmitiu um atabalhoado aviso às folhas berlinenses.
Mas fossem lá ter mão! Já a galga corria, a pleno fôlego, de país em país, de terra em terra…

[…] E como na noite fatídica a mulher lhe dissesse que precisava de escrever à modista por causa do vestido azul, o Moura, erguendo a face magra dum volume de patologia, objectou-lhe com uma serenidade cómica:
– O vestido azul! Mas já te não chega a tempo. Não sabes que é logo, às quatro e meia, que acaba o mundo?...

O Mourita filho que estava ao lado, a dar corda a um boneco de lata, suspendeu a operação.
O fim do mundo!... E ia a perguntar ao pai o que era isso; mas o pai tinha mergulhado de novo na leitura. Abriu a boquita para interrogar a mãe; mas a mãe começava a redigir a epístola… Ficou por isso calado, a matutar no caso.
E a matutar no caso se lhe cerraram as pálpebras e lhe descaiu das mãos, para a alcatifa, o seu boneco de corda.

E foi Mourita filho levado nos braços duma criada gorda para a caminha de guardas. Despiu-o. Deitou-o e, aconchegando-lhe a roupa, repenicou-lhe nos lábios em flor um beijo amigo. Lá o deixou num sono quieto, de passarinho cansado…
E a Terra foi girando e rodopiando nos espaços, desimpedidamente, sem entrave, sem percalço.
E a madrugada luziu no céu, como na véspera. E o sol irrompeu do recorte dum monte, à hora prefixa dos repertórios.

Quando as oito da manhã bateram, a criada gorda entrou no quarto do Mourita com o leite do desjejum.
– Vá menino, leva arriba. Aqui tem o seu leitinho…
O petiz sentou-se na cama e semiabriu os grandes olhos garços. Depois, desviou-os da claridade da janela e, esfregando-os com as mãozitas fechadas, recomendou à moçoila:
– Ó Ana, vê se lá fora inda há Mundo…»

4 comentários:

joão marinheiro disse...

Gosto de histórias e de andorinhas nos telhados...5 anos depois exactos retribuo um comentário em dia de natal...
Abraço com azevinho.

M. disse...

"Corre, corre, cabacinha", uma história que eu adorava em criança e que agora faz tambéma as delícias da minha neta.

Nilson Barcelli disse...

Também adorava ouvir histórias.
Mas não conhecia essa do fim do mundo...

Querida amiga, espero que o teu Natal tenha sido muito Feliz e desejo que o teu novo ano seja excelente.

Beijinhos.

Rafael disse...

Ano de 2013 com paz e saúde na medida certa para você minha amiga.
Abraços afectuosos