domingo, junho 24, 2012

NÓS E O MAR

O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. A alma do meu país teve o tamanho do mundo. Estamos celebrando a gesta dos portugueses nos seus descobrimentos. Será decerto a altura de a Europa celebrar também o que deles projectou na extraordinária revolução da sua cultura. Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.

Vergílio Ferreira, «A Voz do Mar»



Temo que a inquietação permanente do guardador de rebanhos que existe no fundo de todos nós não deixa de ser o rumor das vagas que liga a nossa língua aos pedaços de mundo onde chega a fala portuguesa, adoçada de tonalidades, salgada pelas latitudes e de sabor único nos crioulos de Cabo Verde ou Malaca crescendo autónomos.

Temo ainda que o poder e beleza ímpar da nossa língua não se esgote em Pessoa e Camões, como actualmente parece impor-se de modo assertivo, deixada - por exemplo - ao esquecimento a propriedade inexcedível do uso da língua na oratória de António Vieira. O Padre António Vieira que enfrentou aqueles a quem deveria prestar obediência cega, para defender os que precisavam e impor a justiça entre os homens só por o serem.

A geração a que pertenço pagou um preço muito alto por todas as iniquidades cometidas desde os Descobrimentos, já nessa altura por cobiça e ambição desmedida, os seres humanos escravizados, vendidos, vilipendiados. Pagou e doeu muito, negros e brancos fustigados em vários espaços de guerra, guerras de corpos mutilados, guerras de almas devastadas que só a morte vai apagar.

É em nome de tudo isso que a Língua Portuguesa tem de ser mantida e acarinhada com o maior zelo, ela é a medida do nosso país no mundo global, esse mundo onde ela viceja, não por imposição ou violência, mas por um sentimento maior que nos ultrapassa e tem a ver com os afectos, as marcas deixadas na alma das gentes e que perdura por gerações. É obrigação de todos nós não deixar cair as pontes que nos unem, antes reforçá-las em todos os sentidos, por todas as vias.

Temo finalmente que esta união seja o caminho possível para que Portugal tenha a verdadeira consciência da sua posição no mundo e deixe de uma vez de dobrar-se a um servilismo que não faz qualquer sentido.

3 comentários:

Nadine Granad disse...

A citação de Fernando Pessoa casou muito bem com toda a intensidade de suas linhas ;)

Beijos =)

heretico disse...

como (me) é tocante teu belo texto!...

... e a evocação do Pe. António Vieira!

(sonhemos o Futuro)

beijo

Rocha de Sousa disse...

Uma excelente convocação em Vergilio
Ferreira, ele que falava uma língua que via o mar -- e oportunas conside-
rações (e temores) sobre a preserva-
ção da língua portuguesa, lutando pe-
la sua beleza intrínseca e densidade
expressiva, contra todos males de to-
das as massificações