domingo, fevereiro 06, 2011

De mãos dadas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina


Olharmos o mar de África de alma dada, numa quietude de infância das vidas.

Sérios, medrosos, compondo agora os tijolos caídos depois da derrocada, nos ouvidos os sons repetidos das G3, helicópteros rendando os ares como gafanhotos de ficção a poluir o horizonte.

Nada voltou a ser igual.

Olhar as imagens nas máquinas inventadas pelos homens trazem assomos de ternura, pulsar mais sentido nas veias, arrepios de saudade e dor misturadas, humedecem os olhos, mas o que foi já não é e não se volta aos lugares que se amou.

São os lugares que guardam as memórias, são os lugares que acendem os sentidos, são os lugares que fazem a história de nós.

Mas os lugares são povoados de gentes que já não estão, e isso muda tudo.  

3 comentários:

Justine disse...

Os lugares que foram estão dentro de nós - e por isso não vale a pena voltar. Se voltarmos, encontra-se sempre outra coisa - e outra memória nascerá!
O teu texto é muito belo, assim também as fotos:))

Rocha de Sousa disse...

Acho que não é bem assim:os lugares
e os rostos que amamamos outrora,na
paz e na guerra.Há pausas e esperas
que encerram a essência do nosso ser e das ligações entre o passado,
o sangue deste minutos e o que se-
remos amanhã. Nada do que fiz como
pessoa e como artista prescindiu da
memória, de tudo o que pode ressus-
citar no encanto de hoje (apesar de
cada desastre não letal do existir)

Manuel Veiga disse...

não adianta "buscar o tempo perdido". bem sabemos...

e no entanto a ele voltamos. sempre. no eterno retorno de nós mesmo...

belíssimo.

beijos