quarta-feira, abril 21, 2010

Como as pedras


Acho que estou quase no fim. Vou despedir-me. Que trabalheira sorrir, apertar mãos. Que trabalheira anoitecer, que falta de dignidade a velhice e a doença. Óculos. Dificuldades nos ossos. Lentas misérias.
Quase no fim, disse eu. Subir para o quarto, sentar-me à mesa, fechar os olhos antes de começar. A Serra da Estrela inteira à minha frente, luzes de Seia, de Gouveia, de outras terras. Da varanda dos meus avós o alumínio dos grilos raspando, raspando. Continuarão depois de mim, continuarão para sempre, eternos como as pedras.

António Lobo Antunes in «Terceiro Livro de Crónicas




Acordo em mim a suavidade da manhã entre o orvalho da noite pousado sobre os botões de rosa a desabrochar e o esplendor daquela outra janela aberta para a Primavera.

Do outro lado do oceano, lá onde o coração se acolhe nas maravilhas da modernidade ainda mal desperta, numa comunicação que toca as raias do sonho, vejo florir a cerejeira, os plátanos cobrir-se de verde novo, as orquídeas desfilando em trajes coloridos, apresentando a nova estação. E o bichano enorme, senhor dos espaços, dono daquela janela sobre os pássaros e os esquilos, repousa estendido no parapeito absorvendo todo o sol que perdera no Inverno frio, atento às vibrações, ao despontar de cada folha nova. O pulsar da natureza, o pulsar de nós, vivo sob o manto frio da neve como dormem os bolbos que acordam ao primeiro chamado do sol e do calor que se agiganta.

Mais fundo, no recôndito da camada exterior da Terra, a pedra ajusta-se, acomoda-se, estremece a espaços, declarando a sua força oculta. E das paisagens de neve pura surge então um sobressalto vindo das entranhas, intenso, brutal, aterrador. Mostra aos homens que o espírito da Terra está vivo, é ele que controla, que desgoverna, que força a que o mundo se olhe de outras perspectivas, esquecidas, perdidas, recuperadas agora, tão mais estremecidas.


4 comentários:

Adriano Drummond disse...

É muito reconfortante seu blog! E muito bonitas as fotos!

Justine disse...

Que o homem pare para pensar, e reconheça a sua insignificância perante o poder e a liberdade da natureza!
(Texto excelente, como sempre:))

dona tela disse...

ESTOU DE VOLTA. MUITO OBRIGADA POR TUDO.

M. disse...

A consciência da presença da Natureza...