quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Luz


«Estou velho. Há o sol e a neve e a aldeia deserta. O meu corpo o sabe, na humildade do seu cansaço, do seu fim. Alegria breve, este meu sabê-lo, esta posse de todo o milagre de eu ser. E a deposição disso para o estrume da terra. Sento-me ao sol, aqueço. Estou só, terrivelmente povoado de mim. Valeu a pena viver? Matei a curiosidade, vim ver como isto era, valeu a pena. É engraçado, a vida e a morte. Tem a sua piada, oh, se tem. Vim saber como isto era e soube coisas fantásticas. Vi a luz, a terra, os animais.» 

 Vergílio Ferreira, in «Alegria Breve»



Não há paisagem. A névoa na estrada, por vezes o nevoeiro cerrado, dissolve as casas e as árvores que passam à velocidade em que pouso sobre o asfalto, na mesma ilusão de antes de Copérnico, Apolo guiando a quadriga, a cegar os olhos dos simples mortais e a noite trazendo a luz mansa que faz erguer os oceanos, acender as lendas de lobisomens e dar a voz aos poetas. 


O manto negro pontilhado de estrelas desce agora em fantasia de Carnaval, preso aos ombros de figuras míticas da História e das Lendas, homens tornados deuses para apagar a dura realidade dos mortais. Escondem a tristeza pregada nos rostos, afivelando máscaras grotescas e exorcizam a seu modo frustrações e carências.

É isto o Carnaval e por isso gosto pouco dele. Deveria ser antes a festa da alegria e da graça, o teatro e a fantasia, o encanto das crianças. Mas, como é hábito, tudo se adultera: uma coisa são as ideias, outra coisa a concretização delas, nada que se não saiba já, vem de muito longe, de milénios atrás.



3 comentários:

Rocha de Sousa disse...

Eu nunca gostei do Carnaval, a não ser aquele que conheci tarde,visto
em aldeias longínquas, mistura de memória pagã com a cristã e os exorcismos regatados à Idade Média.
Além do «Acto da Primavera», do centenário Manoel de Oliveira.

Justine disse...

O Carnaval já foi isso tudo, a festa pagã símbolo de alegria e renascimento da natureza. Agora, é negócio e artificialismo...

heretico disse...

dolente. como um canto antigo. que percorre o sangue...

belíssimo

beijo