sábado, abril 04, 2009

Assomo

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.


Fiama Hasse Pais Brandão




Escrever é ficção.


É sempre ficção e ao mesmo tempo profundamente verdadeiro porque não há como destrinçar folha e verso de uma finíssima folha de papel. Na primeira ou terceira pessoa tudo o que se escreve passa pelo filtro dos sentidos de quem o regista, pura imaginação embora.


É uma forma de entrega. Um abrir de portas que convida ao repasto, à partilha, à identificação com o sentir de quem lê, tanto mais apetecível quanto próximo, porque mais ou menos condimentado, porque agradável aos olhos na sua composição, melodia, trama, arte.


O perpassar de emoções nem sempre tem a ver com o momento da escrita, antes com as sensações aspiradas em factos, recentes ou longínquos, algo tão leve e tão breve como o roçar da brisa na água límpida e quieta. Basta então um agitar de vento, um reflexo, uma imagem, um som, para soltar a correnteza, logo depois do dique derramada em brancuras de espuma que é preciso aquietar numa corrente outra vez mansa e sustida. Procurando o leito por entre as penedias, as colinas, espraiando-se em margens de riqueza ímpar, desaguando no mar ou afundando nas areias como o Cubango (Okavango) se afunda no Kalahari.


Onde nem há primavera.


7 comentários:

M. disse...

Que bem que fazes estas ligações entre palavras de outros e as tuas!

heretico disse...

bela a tua escrita. sempre envolvente e "expontânea". e secreta. como fonte de água límpida. que apetece beber na concha da mão...

texto muito belo.

beijo

Rocha de Sousa disse...

Escrever é ficção. Queria só feli-
citá-la pela pertinente reflexão deste post. Vem a propósito, para o
que costumo dizer, que a arte (pin-
tura ou literatura, entre outras) não reproduz nunca o real, nem mes-
mo pela via do verismo ou do real.
Já Klee dizia que «o dá a ver».Em literatura, de igual forma, nenhum
realismo ou auto-retrato (forma
biográfica)denega a ficção. Pelo contrário: é sempre ficção porque
tudo o que vemos na realidade e aquilo por que passamos são «dados»
principalmente interpretativos, ou
seja, ficcionais.
Rocha de Sousa

dona tela disse...

Apesar das circunstâncias vigentes, auguro-lhe uma Boa Páscoa.

Até breve.

bettips disse...

Um beijo. Límpido, porque as tuas palavras tem o luzir da água mansa. essas pontes que se fazem, presente/passado/perda/reviver
ainda na frase apenas murmúrio... lindo!

Lord of Erewhon disse...

Talvez as estações da alma dispensem as do mundo...

Belíssimo poema.
Beijinho, e boa Páscoa.

Raquel Vasconcelos disse...

Uma bela e "forte" maneira de falar sobre a escrita...

(e eu bem preciso de voltar a ela, que tão abandonada a tenho deixado, assim como os blogues)

Beijo