terça-feira, agosto 26, 2008

Cansaço


(…) Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.


Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijámos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis



Os amigos que comigo de mãos dadas saltaram décadas, estão todos velhos. Mergulhando já na idade dita terceira, vá lá saber-se a razão desse nome, quando me vejo eu própria, na primeira de muitas coisas. Não direi as mais importantes da vida, mas muito importantes. Impensáveis há uns tempos largos. Inusitadas.

Somos aquela geração que viveu a outra guerra fria, os mísseis ali em Cuba, a guerra colonial, fomos descolonizados, retornados poeticamente a uma terra que alguns nem sequer conheceram antes, inseridos, emigrados, unidos pela voz de um Portugal imenso, que não cabe neste rectângulo do mapa. Como não cabe no túmulo o grito de Camões «o dia em que nasci moura e pereça», como a voz de Pessoa não cabe nos Jerónimos.

Unidos pelas memórias. «A minha cabeça está cheia de recordações e hoje, vasculhando o meu missal, dei com esta coisa linda (um «santinho»), lembras-te? Qual a data? Creio em que no ano em que fui para o colégio em Sá da Bandeira e recebi-o com uma carta que a freira chamada “Camila” – que na altura superintendia a carneirada – depois de eu a ler, retirou-ma com a proibição de eu responder. Muitas lágrimas correram e eu sem entender nada. Como o mundo é e foi sempre MAU!» Desabafos, mágoas, intolerâncias. Revolta.

A idade não desarma a dureza da vida de que ela é um vírus mutante, mas amacia se conseguirmos ver e não só olhar, sentir que o mundo mudou e nós também temos de nos adaptar para sobreviver. Os mais de quarenta anos de vida em comum nem sempre é salvo-conduto para a felicidade quando os interesses divergem – se não divergiram sempre – pelas experiências não comungadas, pelos tombos mal digeridos, pelas recusas, pela fortaleza que cada um de nós cimenta nos cacimbos galgados.

Nem a natureza nos acolhe – pedras quebradas, nuvens que já não trazem chuva, alguns de nós erguidos ainda, altaneiros – cada vez mais dura, mais agreste, mais revoltada. Com os novos, com os velhos, com o micróbio humano, esse microrganismo impuro que a si próprio tira o alimento que mina a saúde do planeta, lhe suga o sangue e não repõe sustento. Somos aquela geração de gente que ainda grita contra a voracidade crescente de riqueza, que clama contra a violência e a fome que não teria razão de existir se os homens fossem humildes perante a natureza e os outros.

Se os homens não fossem realmente MAUS.

16 comentários:

bettips disse...

Demorei...mas vim, que não perco laços que gosto! E tinha visto algures CV, aqui tão límpido. Os homens maus não entram na roda azul, da morna e da amizade.
Pena não "teres ido" às sardinhas animadas pelo riso do conhecimento! Inesperado.
Bjinho

Vieira Calado disse...

Ricardo Reis, ou o pessoa de todos os grandes poemas!
Obrigado.

pianistaboxeador21 disse...

Em primeiro lugar, muito obrigado pelos comentários ao meu conto la na Nova águia. Em segundo, queria dizer-te que teu texto é muito sincero e verdadeiro. Citando tb Ricardo Reis deixo um trechinho:

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera que é de outrem,
Nem para o estio de quem somos mortos
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

REIS, Ricardo, Odes.

Diferentes. Nem melhor.Nem pior.

Beijos,
Daniel Lopes.

Marcia Barbieri disse...

"A idade não desarma a dureza da vida..." E eu aqui pensando em envelhecer para descomplicar...
Bela narrativa. Beijos.
Márcia.

Rocha de Sousa disse...

Tocou, de forma exemplar e atenta, num assunto que a maré média de to-
da a gente repele. Há um «nojo aos
velhos» verdadeiro, porque a socie-
dade é prisioneira das megalomanias
do progresso e o progresso, parado-
xalmente, faz subir a tecnologia e reduzir a cultura profunda,a refle-
xão de cunho determinadamene huma-
nista. Gostei de a ler e agradeço-
-lh mais uma vez os textos anterio-
res.
Hoje vou reler as suas palavras, aqui e no e-mail. Porque me retem-
peram e eu não a imagino a mentir
ou a louvar por piedade.
Um abraço
Rocha de Sousa

M. disse...

Um texto muito completo este em que falas de muita coisa que se liga entre si. A nossa sobrevivência no mundo é feita de fases e cada geração tem o seu caminho, ou descaminho. Mas discordo de ti: até ao momento continuo a achar que os homens não são, na sua generalidade, maus. O que acho é que falta muito amor verdadeiro no mundo, pela minha experiência, cada vez acho mais que a razão da maldade está aí. Se até quem teve uma infância saudável, ou razoavelmente saudável, se confronta tanta vez com a falta de lucidez para reagir como ser humano, quanto mais os que desde que nasceram só tiveram maus tratos, falta de respeito, prepotência, etc. E acima de tudo, penso que há uma tendência doentia para não sermos criativos nas nossas interpretações dos outros, o que condiciona as nossas reacções ao que nos parece. Enfim, viver é de uma grande complexidade.

vida de vidro disse...

Como entendo as tuas palavras, eu que também sou dessa geração! Não sei se os homens são maus, mas que a humanidade tem em si um potencial de auto-destruição imenso, isso é inegável. Puseste-me a pensar. :)**

dona tela disse...

Tive o meu primeiro SELO!

Beijinhos.

Marcia Barbieri disse...

Muito obrigada pelo retorno e espero que volte sempre.
Beijos
Marcia

O Profeta disse...

Fecham-se as janelas de poente
Acenderam-se os luzeiros no céu
A cidade desperta para o arraial
Uma noiva procura o perdido véu

Os acordes da Banda no Coreto
Uma tuba marca o compasso
O clarinete dança na calmaria
O Maestro solta gestos no espaço


Bom fim de semana


Mágico beijo

Guru Martins disse...

Bacana sua escrita.
Apareça quando quiser no Balaio. Você será bem-vindo.

Grande abraço e sucesso!

vidavivida disse...

Sintonizo-me em tudo quanto explanaste, como te compreendo!!!!!!
Sou dessa geração e passei coisas que nem vale a pena recordar.
Belas palavras que o vento não leva e que gostaria que toda a gente compreendesse.
Adorei o texto de Ricardo Reis.
Continua escrevendo assim, porque é sempre uma delícia ler o que escreves,
Beijo no coração.

mena m. disse...

Venho agradecer as tuas visitas, de que muito gosto, dizer-te que sim, que cheguei bem, mas como sempre com imensa pena de partir e com a sensação de ter sabido a pouco, se é que se pode chamar pouco a 5 semanas!
Nestes próximos dias é uma espargata difícil, um pé em Lisboa , outro aqui em Berlim...

O que escreves mexeu comigo e quer parecer-me que somos mais cegos e ignorantes, do que maus...

Queremos ser felizes, mas descuramos o amor!
Preferimos possuir em vez de nos darmos, esquecendo-nos de que quando partimos tudo cá fica...
Ignorantes tratamos a natureza como se fosse nossa escrava, para depois nos admirarmos com a sua revolta!

Fiquei a pensar qual terá que ser o nosso papel, nós que já somos ou em breve seremos os mais velhos (e somos cada vez mais), na mudança necessária e imprescindível da nossa sociedade...

heretico disse...

ainda somos. dessa geração que teima...

(o poema do Ricardo dos Reis é um dos "pessoas" que mais seduzem...)

beijos

Quem Não Tem Cão disse...

Amei ler estas linhas. E também gosto muito de si! Neste momento isso basta-me. É bom gostar de ler um bom texto... de gostar de pessoas. Eu gosto de gostar e não acredito que sejamos maus.Por isso nunca serei - totalmente- infeliz.
Beijo
Deste seu Pingo que a admira mt.

sasa disse...

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